José Claisson Aléssio

                                                     Diário de um personagem imaginário

 Estas linhas não devem cair aos olhos de ninguém, vão achar que eu estou  perdendo o siso, e talvez seja isso mesmo. O que não deixa de ser um progresso, haveria uma causa para o sintoma e, quiçá,  um charlatão para me vender alguma garrafada. Não tenho ninguém a quem contar minha história, então vou contar a mim mesmo. Quem sabe, ao contá-la, eu consiga esquecê-la. Como um exorcismo. 

                                                      O rodapé da minha história

 Entrei na última quadra da vida, (20x4=80) 80-60=20 de maneira canhestra., num quadro dantesco; um verdadeiro show de horrores. Quero ver se aproveito um momento de distração da plateia para sair de fininho do palco. Em todas as peças de que participei sempre fui um coadjuvante daquele tipo que se coloca ali para levar o primeiro tiro ou sofrer um acidente na primeira curva. Às vezes chega ao meio da montagem com indícios de demência e acaba internado ou despachado em alguma viagem, dessas que o roteirista inventa para tirar o personagem de cena por não estar agradando ao público. Nunca cheguei ao final da novela para ver o personagem preso caso merecesse, ou algo equivalente. Até por que, em boa parte das tramas, fiz papeis de bonzinho, ou, como prefere o público dos dias de hoje, de otário. Devido ao exposto, tudo o que eu quero é sair de cena com a maior discrição possível

                                                         A vida não tem corrimão

 Eu me sinto como se tivesse matado alguém. Não sei quem, talvez a mim mesmo. Tudo  está estranho, de uma estranheza que eu não consigo entender, como se houvesse algo que me foge aos sentidos, que eu não sei o que é. Não dá nem para sentir medo. Medo de que? Mas que está estranho, está. Não aguento mais olhar para os lados e não ver ninguém. O meu espelho se quebrou, não vejo mais a minha imagem refletida em lugar algum. Sigo na estrada que parece não ter fim, sem ponto de chegada ou acostamento, um eterno caminhar sem nenhum sentido. Sou um cara que não tenho mais nenhuma afinidade comigo comigo mesmo, como se eu tivesse me esquecido do próprio nome, ou de sentimentos que eu possa ter tido ou sentido; como se estivesse apenas habitando um corpo de alguém que eu não faça a menor ideia de quem seja. Como eu vim parar aqui?

 - E essa estrada onde vai dar?

- Sei não moço, estou vindo de lá.

  Mais um perdido no caminho. Embora em sentido contrário somos o mesmo e qual seja a direção tomada, no lá para onde seguimos não há nada.

  Estou perplexo. Como  alguém, imagino, que ao voltar para casa, depois de um dia de trabalho, ou de uma viagem, não encontra mais a casa, não há casa alguma. Simplesmente desabou, implodiu, foi destruída pelo fogo ou coisa assim. Até já limparam o terreno e não há ninguém que lhe possa dar alguma informação, dizer o que aconteceu e, mais que isso, parece que ali ninguém o conhece, ninguém o tinha visto antes.

                                                       Anotações sem nexo

  Suicidas que escrevem cartas são patéticos. Por mais que se expressem bem nunca vão conseguir exprimir nem dez por cento dos motivos e da dor que os levou a praticar o ato. Por isso, quando chegar a vez daquele amigo solitário e único, sei que ele vai deixar de existir feito um passarinho que voou não se sabe para onde nem porque. 

                                                     Páginas aleatórias

  Eu tenho um amigo que está me preocupando. Acho que ele vai se matar. Anda esvaziando gavetas, fechando portas e, um indício ainda mais forte, traz um olhar de últimos dias. Um dos problemas é que eu não sei como lidar com isto. Se eu abrir a questão com ele, que tenho notado mudanças preocupantes no seu comportamento, é capaz dele ficar extremamente constrangido e antecipar a ação; entre outras coisas por vergonha de ter o seu plano descoberto. Por outro lado, não fazer nada pode significar a perda de um amigo muito querido, o único que tenho. Para dificultar ainda mais as coisas ele é ateu. Não posso chegar com o discurso risível, para ele, de que tenha fé, esperança, de que Deus escreve certo por linhas tortas, etc... Eu apenas deixaria de ser um interlocutor confiável, que ele pudesse levar à serio. Assim, eu não sei que argumentos usar.

                                                               Vazio

  Ele que disse aceita a morte com naturalidade. A vergonha, não. A morte é inexorável, de uma forma ou de outra todos morrem no último capítulo. A vergonha acontece quando algo dá errado, muito errado. Quando uma pessoa que era uma esperança para algumas outras, e, talvez, a única tábua se salvação para elas, fracassa miseravelmente e se percebe sem qualquer possibilidade de fazer o mínimo que seja por elas; aí a pessoa se olha no espelho e não vê nada, olha para os lados e não tem parede onde se encostar. E as pessoas por quem ele se considera responsável esperando que ele seja sua boia de salvação. Se, ao menos, ele se anestesiasse com alguma droga, alguma ilusão, alguma fé.

                                                              Um capítulo a parte

  É como se de repente elas descobrissem que Deus não existe. E eu era esse Deus. Claro, guardadas as devidas proporções, e mais claro ainda, sem a menor possibilidade de comparação. Mas, a grosso modo, elas estavam no fundo do poço, em frangalhos e quando perceberam que não iriam conseguir sair de lá, só tinham a mim a quem pedir que lhes jogasse uma corda, que as puxasse de volta para a superfície. E o que eu fiz? Não consegui proferir nem meras palavras de consolo. Não sei se foi mais desesperador para mim ou para elas. Talvez tinham  um Deus e o perderam. Quanto a mim, eu já nascera sem Ele. 

  O  emocional de M. está péssimo.  Encontra-se cada vez mais fora da realidade. Pediu desculpa por alguma coisa, me pareceu meio alheia, ''Correndo por fora'' da realidade, uma defesa, uma espécie de muro de proteção. Ao notar o desespero, mesmo que dissimulado, ao perceber a falta de tudo que um ser humano necessita para tentar manter a dignidade, ao ver que todas as portas estão fechadas e eu não tenho como abri-las; ao notar na voz as humilhações pelas quais passou e está passando e eu que poderia ser sua única tábua de salvação sem condições de nem aos menos confortá-la espiritualmente, creio que a minha própria dor só não é maior que a dela.

  O comportamento de M. parece fora da realidade pela forma como retrata os acontecimentos do dia a dia. Disse que se arranjar emprego pretende visitar um tio em Brasília e que daria um jeito de me ver, nem que fosse só de passagem. O sentimento, contudo, por trás das palavras, parece estar se encaminhando para uma situação de desespero total. A melhor forma de ajudá-la, seria enviando alguma ajuda financeira, mas no momento acho improvável que eu consiga.

                                                       Anotações ao pé da página 

   Encontrei um velho caderno não muito longe do lugar onde um senhor se jogou do vigésimo andar de um prédio. Se eu não tivesse me atrasado um pouco e passado no horário habitual, ele poderia ter caído em cima de mim. Eu que sempre procuro ser pontual, fui falhar justo neste dia. A falta de sorte é a minha sombra indesejável e pelo jeito vai me acompanhar até que eu também pule de algum prédio. Antes disso, tenho algumas missões a cumprir; não que digam a meu respeito, mas a algumas pessoas que me são caras, então vou postergando o tresloucado gesto. Sei que o texto está parecendo confuso. Acho que incorporei o estilo do defunto; o fato é que nunca escrevi e pouco li, por isso daqui pra frente vou transcrever o que eu pude decifrar dos garranchos do suicida.

   O rato: O rapaz que vende chumbinho está vindo. Espero que o produto não tenha prazo de validade. Os dois vidros que havia comprado joguei fora por estarem a muito tempo comigo. Não quero que o rato passe mal a troco de nada. Só agiremos se for para resolver o problema. Não podemos dar vexame na cena final.

  A carta: '' M. estou achando que esta carta será uma despedida, desculpa pelo susto caso não seja e, pela eventual tristeza sentida. Perdão por eu te faltar, até mesmo com uma palavra de esperança. No labirinto em que me encontro não há esta possibilidade. Sinto tanta dor e vergonha em ser este fracasso que me tornei, que não sei se teria coragem de olhá-la novamente; por isso acho difícil que nos vejamos algum dia. Ter falhado comigo eu resistiria, mas com vocês me é insuportável.''

   A estação: ''22 de fevereiro de 1978, segunda-feira, seis e trinta e sete da manhã. Você e a mãe me acompanharam até a rodoviária. Você estava usando um vestidinho de chita com flores brancas miudinhas de fundo rosa. Eu não lembro de como eu estava vestido. Não dissemos nenhuma palavra, nem choramos. Nunca fomos bons de palavras e de choros. Agora mesmo, talvez pelo fato do fim estar se aproximando; ainda menos. Não convém nenhum tipo de vexame numa hora dessas, certo? Que o momento final seja revestido com a maior dignidade possível.

                                                        Fragmentos

  Religiões: Pelas linhas tortas as crenças de um modo geral permitem alguma válvula de escape. ''Estou na merda porque pequei''. Assim a pessoa vive a sua miséria e ainda fica com a culpa ( e ''pedindo'' mais castigo  para ''purificar-se''). Seguindo esta fórmula banal e cruel igrejas proliferam-se; afinal o que não falta sobre a terra são pessoas eivadas de remorsos por culpas reais ou imaginárias.

  Jesus Cristo: Coitado deste rapaz, morreu jovem, 33 anos, e até hoje um monte de espertalhões ganhando dinheiro, e muito, em cima dele. Que Deus me perdoe, se achar que mereço ser perdoado ( se não achar, paciência), mas é o que penso.  

p.s.: Pensamento derivado da passagem dos testemunhas de jeová,(o turminha que enche o saco!).


                                                               ***

  Todo mundo tem história pra contar, só eu não tenho. Caso desejasse inventar uma para preencher a lacuna, que tipo de história seria?

  Como eu gosto das coisas direitas, andando em linhas mais ou menos retas, não caberia nela firulas linguísticas, literárias, metafóricas. Eu não falo por parábolas, meu papo é reto.

  Sendo assim, a minha história começaria pelo começo e terminaria no último capítulo; por óbvio.

  O diabo é encontrar o miolo, o que escrever nas páginas intermediárias.

  Mentiria como todo mundo? Não é do meu caráter. Douraria a pílula ou me afogaria no meu oceano de lágrimas?

  Mas dor é história? Creio que não. Ninguém conta histórias tristes. Todas as histórias que eu ouço são passagens bacanas, auspiciosas, de pessoas ladinas, ativas, espirituosas, sempre se dando bem.

  Toda vez que alguém encosta e começa com a sua cantilena eu acabo depressivo. Tento buscar na memória alguma passagem para que eu possa narrar, para que haja algum diálogo, mas não lembro de nada e eu fico como um parvo, como um desses para quem se conta histórias, ou lê-se um livro; por caridade.

  Por isso, quando vejo um contador de história se aproximando, tenho vontade de sair correndo.

  Mas não corro. Esta faceta talvez seja a característica mais estranha da minha personalidade. As minhas vontades sempre acabam assim; em vontades. Nunca tive forças para transformá-las numa pífia realidade que seja.

  Isto é uma doença, eu sei. No meu caso um câncer em fase terminal, metástase completa desde o primeiro estágio. Não há morfina que dê conta. O jeito é pular logo para a página final, o último episódio da última temporada.


                                                          ***

  Deus não existe; e isto é bom. Pois se deus não existe o diabo também não. Ou seja, não há nenhum poder sobrenatural interferindo na sua vida; ou causando malefícios a ela.

  Os acontecimentos inerentes a ela dizem respeito a você, aos seus atos, e ao meio em que você vive.    

  Com perseverança e sorte você pode mudá-los. Não existindo fatores sobrenaturais a sua luta torna-se menos desigual e você passará a ter mais chances de aplainar o seu caminho.

O que acontece hoje é que boa parte das pessoas preferem ter à mão um pobre diabo a quem atribuir os seus infortúnios ou um bom deus a quem rogar por suas vidas.


*Trechos do livro Figueira Torta