José Claisson Aléssio

Não, ninguém lhe veio abrir a porta, não havia ninguém naquela casa a que viera dar com o que restara de si, casa da qual, na verdade, nunca saíra, como se tivesse percebido a impossibilidade de transpor a parede.

 A porta da frente e as janelas davam para o potreiro onde, aos domingos, à sombra da figueira, costumavam sentar-se, os três, antes do banho, voltados para o pequeno rio que corria diante deles. Lembrou-se das procissões dos tempos de menino, surpreendeu-se brincando com as irmãs numa lembrança de quase nuvem. A tarde tornara-se melancolia.

 Se tudo não passava de uma parábola, perguntou-se daquelas portas trancadas.

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 Todo mundo acaba dando consigo fora do paraíso; a vida de cada um não deixa de ser essa caminhada para longe. Apenas a ponte de arame o separava do mundo.

 O motivo da travessia? Será que ninguém percebeu que Kacki estava desmoronando?
 De outro jeito não saberia explicar os motivos que o obrigaram, de repente, a dar as costas a tudo que amava.

 E começou a andar pela terra num passo apressado de foragido. Quando se via refletido nas poças d'água, enxergava, ao fundo, duas meninas, que num tempo distante, foram suas irmãs, lhe sorrindo, um sorriso de órfãs.

 É possível que os mais espertos continuem fazendo de conta que a morada do carcereiro fica por fora dos muros. Os menos tolos percebem que os muros são construídos de dentro para fora.

 Não será que, no avesso da vida, por alguma coisa, Kacki se julgava usurpador e alimentava um desejo secreto de que o livrassem do peso?

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 Não, não queria vê-lo de jeito nenhum a poucos quarteirões de sua queda.

 Quando dei com ele naquela manhã de cerração, Kacki estava batendo o queixo com as mãos enfiadas nos bolsos de uma japona sem cor.
 Por mais que tivesse vontade, não pude fugir. Não que não desejasse encontrá-lo. Mas não queria encontrá-lo, ali, naquela situação.

 Ficara sem dizer palavra, envergonhado e silencioso. Era como se jogasse sua alma desnorteada sobre o meu rosto. O que o fizera viver como um sentenciado?
 Seu gesto não dizia, por ventura, da perda de uma fé, do abandono de uma ilusão?

 Como adivinhar que a morte estava a ponto de puxar o gatilho?
 Olhei para os canteiros e percebi que não havia flores para o velório.


        Versão compacta de A bola encantada de Marcos Konder Reis
         Texto criado com frases tiradas do livro