José Claisson Aléssio

 Um dia o sujeito acorda e leva um susto. Não porque já está fazendo 60 anos. Ele se assusta porque abre os olhos e encontra sua casa completamente vazia. Ele salta da cama e corre atrás de suas coisas. Seu remédio para os tremores, sua escova de dentes, sua garrafa de água! Até a tampa da privada, fria, branca, limpa, esperando ser levantada todas as manhãs com a dignidade de quem sabe a importância de seu trabalho, não estava mais ali!

Cadê os livros? Cadê as roupas? Onde estão seus documentos e suas fotos? Alguém por favor pare com a brincadeira e devolva já a geladeira e todos os seus imãs de pizzaria.

Na sala de sua casa agora há só as quatro paredes brancas, lisas, sem os quadros e os poucos móveis que ali moravam. Ele olha num canto e não enxerga o velho sofá que teve como último hóspede um velho amigo que o visitara, eles se sentaram ali e beberam a cerveja fresca e a saudade morna de tempos vencidos. 

Não há mais nada na casa. Ela foi violentamente esvaziada. O homem respira fundo e se dá conta de que, assim como sumira tudo que ali havia, desapareceram também as coisas que moravam dentro dele próprio. Ele se pergunta onde está sua família.

Onde estão os guapecas da casa da infância, onde estão os canteiros e as flores de suas irmãs? Será que o pai já consertou sua bicicleta? Para onde foram todos, suas tias, seus primos? E por que diabos a sua mãe não responde quando ele a chama?

Ele abre a porta e sai para a rua. Mas a rua está vazia. Nenhum som, nenhum vizinho, nenhum vira-lata. Nada. Ele caminha meia dúzia de passos, olha para trás e sua velha casa também não está mais ali. Acabou. Ele fecha os olhos, segura o frio em suas entranhas, respira fundo e espera desaparecer também.

Sobre crônica publicada em www.revistabula.com