José Claisson Aléssio

 A infância é o chão sobre o qual caminhamos o resto dos nossos dias. Ainda que as pessoas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja aquele.  A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as paredes: haverá paredes frágeis, cálculos mal feitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço vai desabar.
          Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, mas somos inocentes das fatalidades e acasos. As ferramentas para executarmos a tarefa de viver podem ser precárias. Escolhemos algo do roteiro, desenhamos alguma coisa nas margens. Podemos - tarefa ingrata -  fazer nossos acréscimos, escrever uma "errata" sobre o texto daquele prefácio de nós. Somos nossa anistia ou nossa aniquilação; vestidos com nossas circunstâncias seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro.
          Nisso reside nossa possível tragédia. Carregamos muito peso inútil, largamos no caminho objetos que poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Nosso patético reino da futilidade propõe a semeadura de uma vegetação rasteira de tolices. Não acredito em poses e posturas. Não acho que todos devêssemos ser filósofos, eremitas ou fanáticos de nenhuma religião.
          Como invento histórias, gosto de fábulas - o essencial não tem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um. Somos a nossa ficção.


           Versão compacta de Perdas e Danos de Lya Luft

José Claisson Aléssio


                                                                   Uma explicação
A base de sua vida era mansa como um regato correndo no campo. E nesse mesmo campo ele próprio se movia como um animal a pastar. Largassem-no no deserto, na solidão das geleiras, em qualquer ponto da terra e conservaria o mesmo desligamento sereno. Ele nada esperava, era em si o próprio fim.
Se lhe aconteciam coisas, estas não eram ele e não se misturavam a sua verdadeira existência. É certo que lhe aconteciam coisas vindas de fora. Esse o fundo da narrativa. Às vezes esse fundo aparecia apagado, quase inexistente. Por que contar fatos e detalhes? Por que descrever mais do que isto?
Nunca suas interrogações saíram inquietas à procura de respostas. Nunca tentaram qualquer movimento para fora de si.
E de repente as coisas haviam endurecido, uma orquestra rebentara em sons tortos e silenciara imediatamente, havia alguma coisa triunfante e trágica no ar. Até que a ausência de si mesmo acabou por fazê-lo cair dentro da noite. O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho?
                                                                     A entrevista
Eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto. É curioso como não sei dizer quem sou. O que deve fazer uma pessoa que não sabe o que dizer de si?
Vejo-me jogado num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. Há qualquer coisa que roda comigo, me atordoa e me deposita no mesmo lugar. O que devo fazer? Ajoelhar-me diante de Deus e pedir. O quê?
                                                                     A prece
Deus meu eu vos espero, deus vinde a mim, deus brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre a minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer.
Deus, por que não existes dentro de mim? por que me fizeste separado de ti? deus vinde  a mim, eu não sou nada: sou menos que o pó, eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me.
Vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre; chamo por vós e nada respondes.
Das profundezas clamo por vós.
Das profundezas clamo por vós.
Das profundezas clamo por vós.
                                                                    Os relatórios
Relatório 1 : Nele há um medo enorme. Um medo anterior a qualquer julgamento e compreensão; tem o ar sério,  interessado e ingênuo. É rápido e áspero nas conclusões; sinto que é capaz de matar uma pessoa.
Relatório 2 :  A vida humana é complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas  que ele criou.
Relatório 3 :  Sim, estou compreendendo as palavras com tudo que elas contém. Mas fico com a sensação de que elas possuem uma porta falsa, disfarçada, por onde se vai encontrar seu verdadeiro sentido; como flores sobre o túmulo as palavras são seixos rolando no rio.
                                                                      Epílogo
                                                       Margarida a Violeta conhecia
                                                       uma era cega, uma bem louca vivia
                                                       a cega sabia o que a doida dizia
                                                       e terminou vendo o que ninguém mais via.


  Versão compacta de Perto do coração selvagem de Clarice Lispector
   Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

 Kacki Aléssio queria morar numa água-furtada em Blumenau e viver de literatura. Era a esperança da tribo. A parentada pensava que escrever dava dinheiro. Até que lhe apareceu Zenaide de Tal. Dispa-se dos preconceitos que possa trazer. Kacki e Zenaide não são desses personagens que acham que o leitor sempre tem razão.
 Kacki Aléssio, 50,autor de rádio-novelas mais popular no Sul do país, dizia-se alimentar pela morbidez do vulgo. Humorista sutil, zombava dos seus ouvintes pelas falas de seus personagens. Que eram muitos. Tinha cinco novelas no ar e nenhum ajudante, dezesseis horas por dia entre textos e ensaios. Esgotou-se, começou a misturar os personagens. Um personagem morria na novela das dez; reaparecia na das onze. A mocinha da novela das duas casava com o galã da novela das três e assim por diante. O campeão de audiência precisou de um longo intervalo no Rio Maina.  
Zenaide de Tal, 32, separada, queria arranjar um novo marido. Romântica, sonhava se apaixonar por um mocinho tímido, que não a apalpasse, que a tratasse como uma menina de primeira comunhão. Gostava dos dramalhões cheios de proparoxítonas e gerúndios de Kacki Aléssio, não perdia um capítulo.

***

Pedem que eu diga quem sou. Reconheço que sou burro e desgraçado. Melhor que pedante e sem graça. Mas não sou Kacki Aléssio, o personagem mais famoso de seu autor.Nunca, nem nas situações mais bizarras, perdi o senso de humor. Mas alguém estava me sacaneando.
Em outras palavras, minha vida ao entrar no reino do obscuro ficou, paradoxalmente, mais divertida.
Lembro que comecei a tomar gosto pela rua, me tornei um vagabundo interessante que fingia estar louco, o que me era muito rentável já que as pessoas se apiedavam de mim e me davam dinheiro.
Minha loucura consistia em ir por toda a cidade com uma vareta açoitando o chão em ritmo frenético. Era fantástico poder ganhar a vida com o teatro da rua.
Levei um susto quando vi em uma banca a minha foto embaixo da manchete:
Homem morre quando se preparava para o suicídio.

***

Sou Kacki Aléssio. Matei Zenaide de Tal. Depois sonhei que caminhava pelo telhado sem fim de uma catedral. Minha cabeça é um labirinto escuro. Às vezes, há raios que iluminam alguns corredores. Em outros momentos o luar atravessa as nuvens negras. Sente-se o calor estático e ameaçador que precede as violentas tempestades de verão. A tormenta vive sobre mim rasgada por relâmpagos e trovões. E eu me vejo numa cidadezinha do Sul e era como se eu e Zenaide vivêssemos em corredores ou túneis paralelos, sem saber que íamos um ao lado do outro.
Deixemos de lado as considerações de forma, o que me interessa é o conteúdo.
Direi, antes de mais nada, que o amor anônimo que alimentara durante anos de solidão se concentrara em Zenaide. Ela fora o último barco que podia me resgatar de minha ilha deserta, mas passou ao largo sem avistar meus sinais de desamparo.
_ O que você vai fazer?
_ tenho que matar você, Zenaide. Você me deixou sozinho.
… em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu.

***

Como o coronel de Passo do Sertão aguardo notícias que nunca chegarão. Distraio-me observando aos outros e assim vivo sem originalidade, resignando-me a uma poesia ocasional; equilibrando-me, sem sombrinha, no arame da minha vida perante um público indiferente. Estou num desses momentos em que tudo se torna obsoleto, uma espécie de extrema-unção antecipada.
Entre perífrases e hipérboles invento angústias e personagens. Não é o melhor dos mundos, mas é melhor que ficar preso num intelecto de dois cômodos. Há travessias que só se podem efetuar sozinho. Se calhar, isto é a vida. Mas não penso em ti. Palavra de honra que não penso em ti.

***

Este mundo se divide em moscas e aranhas. Tratemos de ser aranhas que comem as moscas enquanto na surpresa final do conto o demônio toca violino para os condenados. Como sempre ocorre, nos encontramos atores e espectadores, no meio da tragédia, atordoados como morcegos batendo contra paredes.

 *Trechos do livro Figueira Torta(inédito) no capítulo de plágios, sobre livros e autores diversos

    

José Claisson Aléssio

 Em uma fantasia de uma noite escura e de vendaval cheguei à vida

Desabou sobre mim um forte vento, como se sobre minha alma houvesse bruxaria 

Minhas horas de infância não foram assim como a dos outros

E tudo que eu amei, eu amei sozinho. 


A lembrança que guardo dela é a de uma ilha distante em algum mar agitado

Cidades desabitadas de um deserto, também!

O que viram em meus olhos, porque me largaram à deriva? E triste fui-me embora.

 Em menos de um dia muitos anos abandonei sentindo derreter a minha vida.


Tudo o que vejo ou suponho, não passa de um pesadelo dentro de um sonho?

De uma angústia repentina me cerquei 

Como aquela que vem quando o primeiro sonho fica perdido

Nesses casos, o céu esperança não ousa oferecer.


Minha vida ordinária repousa hora a hora diante de mim

E o que me importa resta insólito, um retrato feito após a morte

Não durará muito minha queda

Não me resta nem tempo para enlouquecer.


Chego a meu lar, não mais meu lar, ninguém a espreitar meu momento singular

Memórias amargas do passado nessas inquietas sombras em que caminho

Ouço uma voz(deliro?) que da soleira proclama: Ancião, de tolo não te chamaria. 

Visita numa hora dessas? (eu me disse!)


Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais

é só isto e nada mais

Abri então a porta, e eis que, entrou grave e nobre um corvo

Não fez nenhum cumprimento, mas com ar solene e lento, pousou e nada mais

Perguntei-lhe: Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais, diz-me qual teu nome

Disse o corvo, "Nunca mais"

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro

inda que pouco sentido tivessem palavras tais

Perdido, murmurei lento, todos já se foram amanhã também te vais

Disse o corvo"Nunca mais"

Sentei-me defronte dele, fez-se então o ar mais denso

Ave preta! Fosse o diabo ou a tempestade quem te trouxe aos meus umbrais

 A este degredo, a esta noite, dize se há um bálsamo para esta alma a quem atrais

Disse o corvo"Nunca mais"

Eu disse: Parte! Torna à noite e a tempestade! Torna às trevas infernais!

E o corvo não move-se de meus umbrais

Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais

E a minha alma dessa sombra libertar-se-a nunca mais.


Na noite em que eu me matei não houve nada de mais.



Versão compacta de O Corvo de Edgar Allan Poe a partir de uma tradução de Fernando Pessoa

Texto criado com frases tiradas do livro









José Claisson Aléssio

      O autor deste erudito livro foi sempre ambiciosa pena. Depois de ter viajado com as minhas letras pelo interior do meu quarto, resolvi imortalizar-me ao torná-las públicas ao mundo neste ano da graça de 1893.  Estas minhas letras pretendem ser uma obra-prima de pensamentos novos, uma obra digna do século. Estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro. Não concebem um escritor elegante, cheio de graça e de talento? Esse cara sou eu. Não chamem de exagero ao que vai escrito aqui. Eu darei sempre o primeiro lugar à modéstia. O que poderá haver é desacerto nas palavras. Sem perder a minha natureza de planta estrangeira quero contar-te a minha história: verás nela o que vale um homem. É a ti que escrevo.

     Uma velha brízida que eu tive, quando era pequeno, era famosa cronista de histórias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Para tudo é preciso ter fé neste mundo, é preciso crer em alguma coisa para ser grande. O falso Deus adora o verdadeiro! Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com elas. A mim, pobre homem, o que lhe fica para crer? Eu, apesar dos críticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.

     Falemos noutra coisa: fujamos depressa deste monturo. Acha-se desapontado o leitor com a prosaica sinceridade destas letras? Digo-lhe que o entusiasmo da multidão é sempre vazio. Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. É a literatura que é uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances, fé nos artigos de jornal. Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico? A minha opinião sincera é que o leitor deve saltar estas folhas.

     O coração humano é como o estômago de todos os bichos, não pode estar vazio, precisa sempre de alimento. Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós somos. Todo drama e todo romance precisa de: uma ou duas damas; um pai; dois ou três filhos; um amigo; um monstro encarregado de fazer maldades; alguns tratantes; e várias pessoas da sociedade que servem apenas para aumentar o número de páginas. Forma-se com elas os grupos e situações que lhe parece, não importa que sejam mais ou menos disparatados. E aqui está como nós fazemos nossa literatura original.

     O erudito e amável leitor escapará desta vez deste enredo. Não senhor, não é o meu gênero esse. Ora, eu filósofo seguramente não sou, já o disse, de poeta tenho o meu pouco. E sei que não me enganam poesias. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como as que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências.

     Ó nação de bárbaros. Ó maldito povo de iconoclastas que é este. Ó gente cega a quem Deus quer perder.

     E aonde irei eu?  Ao inferno? Este capítulo não terá divagações, nem reflexões. Nem tampouco será feio como o pecado, elegante como o bugio. Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores deste mundo.

     O homem é o animal mais absurdo, e mais disparatado e incongruente que habita a terra. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?

     Dorme pois, e não despertes do belo ideal da tua lógica. Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando não sei explicar os fenômenos por outro modo. Porém, não há alma, não há gênio, não há espírito nas massas simplórias e sem elegância. 

     Por que será que aqui não sinto senão tristezas? Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam. Admirável condição da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe.

     Lutam no ser de cada um o Sancho Pança da carne com o Dom Quixote do espírito. Quantas almas é preciso dar ao diabo? Não tenho esperanças de saber nada disso aqui. Só o eco morto da solidão responde tristemente às minhas perguntas. Sim, aqui tenho estado estendido no chão. E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Notável combinação do acaso! Infeliz do que chegou a esse estado!

     Trata-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu diante de si, o que não a invocou ainda como único remédio de seu mal, ou, o que mais desesperado, como única saída de suas fatais perplexidades. E acabou a história.

    Nota do editor: A seguir algumas frases soltas que não consegui encaixar no resumo : 

Quem tem uma ideia fixa em tudo a mete.

Não foi porém senão um relâmpago.

A modéstia contudo quando é excessiva...

Não quero perder esta última ilusão, já não tenho outra.

Vês que confesso a dúvida, verás como a paguei.


Versão compacta de Viagens na minha terra de Almeida Garret

 Texto criado com frases tiradas do livro.




José Claisson Aléssio

     Apesar dos desmentidos do álbum de fotos, sua imagem se curvava diante do seu rosto de hoje. Um eco repetiu dentro dele: uma pena; gostaria de oferecer a si mesmo uma história diferente desta.

     Durante muito tempo, com descuido e com fabulações, recusou-se a se considerar adulto. Mal começava a se habituar a sua condição de adulto e já era lançado à de velho. E eis que o seu ciclo se fechava; nem o passado nem o futuro lhe ofereciam mais um álibi.

      Era um sexagenário que não havia realizado nada. As pessoas consideravam-no inteligente, mas com o passar dos anos acostumaram-se a não esperar nada dele; um desperdício, em suma. Os pontos obscuros, as dificuldades e as contradições se multiplicavam ao seu redor.

      Olhou a estante: havia lido quase todos os livros que comprara durante toda a vida; mas do que ainda se lembrava? Desde quando suas palavras se embaralhavam, seus gestos se atrapalhavam? Algo travou em sua mente. Como quando se leva um choque, turvando a vista, que faz perceber duas imagens do mundo, a duas alturas diferentes, sem poder situar o que está em cima e o que está embaixo.

      As duas imagens que ele tem de sua vida, do passado, do presente, não se ajustam. Há um erro em algum lugar.  Condenado a ter consciência da inutilidade de sua presença, a angústia de existir se tornou mais intolerável que a morte. Refletia sobre ela com indiferença; continuar vivendo lhe parecia mais árduo que morrer.


  Versão compacta de Mal-entendido em Moscou de Simone de Beauvoir
   Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

          Ainda trazendo nas sandálias a poeira da longa viagem no deserto, são muitos os personagens que frequentam a tenda de Ali Kacki. Abrindo a gaveta da imaginação, preenche os vazios interiores com os recursos ao seu alcance. Histórias de que não se livra e menos ainda esquece, como se os próprios personagens assumissem o comando da ação. Não lhes pode ser infiel ou expulsá-los do inferno ou paraíso das suas histórias.

         Ali Kacki carrega o fardo de representar os párias, os vencidos, pessoas errantes que estiveram em muitos lugares apontando-lhe o fracasso das ilusões.  Pessoas que comportam-se como os falsos profetas que, buscam adivinhar o mundo, mas são incapazes de entender suas próprias vidas.

          Ali Kacki sujeita-se ao jogo ilusório do enredo como se o medo ao acorrentar-lhe os pés, lhe roubasse o gosto de caminhar pela vida. Afinal, onde mais lhe resta ir sem a sensação de já haver ali estado anteriormente? Chega ao epílogo levando dentro de si o cadáver de um homem semelhante a ele quando jovem. Para onde partir, largando atrás seus restos mortais? Sua tentativa de salvação consiste em engendrar pausas, intervalos, em defesa de sua história; a interminável caminhada do solitário herói.

 Como ser herói do próprio terror? Sobretudo agora, quando o ocaso o introduz lentamente no ritual da própria morte. Ali Kacki avança levado pela fantasia de um dia voltar a partir e esquecer o caminho de volta. Para a sua natureza a religião não constitui vocação. Não vive na esfera da fé. À frente de sua caravana, jamais aceitou ser o cordeiro resignado no altar do sacrifício.


    Versão compacta de Vozes do Deserto de Nélida Pinõn
     Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

Os escritores barricam-se em histórias para não sofrer, as personagens que sofram por eles.
Já não preciso de contar histórias. Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.
Agora o futuro não existe. Passei anos, no dia do meu aniversário a espera de um telefonema que sabia que não viria, aguardando a festa surpresa que nunca me fizeram.
Tornei-me à força do silêncio dos que amei um carneiro sonso, batendo a uma porta onde já não mora ninguém.
De repente, vocês são apenas fotografias ao lado da minha cama. Há um cão a uivar na noite. Sou eu este cão.
Queria sentar-me ao lado de vocês, numa varanda, ou à sombra de uma figueira, e escrever um romance que todos pudessem admirar.
Não pude ser o que sonharam de mim. O que talvez não saibam é que também nunca me perdoei a mim mesmo.
Por que há tantos corredores, e tão escuros, nos sonhos?
Não consigo descrever a falta que me fazem.

  Versão compacta de FAZES-ME FALTA de Inês Pedrosa
   Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

 Sr. Kakinson

     Era uma peculiaridade, a de nunca ser especialmente íntimo de ninguém. À medida que os anos foram passando, as incursões ao mundo exterior praticamente cessaram, não tinha mais nenhum graveto a queimar; recolheu as velas e deitou âncoras.
     A vida continua do lado de fora da janela, a vida continua do outro lado da cerca. Justamente ali, onde naquele exato instante o rapaz de sempre senta-se num banco da praça abraçando a moça de sempre.
     Homens e mulheres parecem ter encolhido, tornaram-se numerosos e diminutos ao invés de únicos e substanciais. Parecem numerosos demais, insignificantes demais, muito semelhantes entre si para terem um nome, uma personalidade e uma vida só sua.



      Versão compacta de Cenas Londrinas de Virgínia Woolf
       Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     E tantos anos passaram desde então!
 Um dia em que tive um grande desgosto, deitei-me para dormir sem saber como seria a minha vida para diante. Quando acordei, olhei-me ao espelho e vi, espantado, que duas grandes rugas me tinham nascido nessa noite, junto aos olhos.

Não estavam lá antes de eu me ter deitado na véspera, mas agora estavam, nítidas e verdadeiras. E habituei-me às rugas, conformei-me com o tempo que passa. Às vezes, lá onde eu moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso.

E às vezes, nesse terraço onde vejo e oiço as estrelas, onde escuto e aceito a ampulheta da minha vida, acendo um lume, com os galhos e ramos secos que fui colhendo durante o dia, ao passear pela paisagem.
 E, às vezes também, quando então percebo que tudo está em paz e faz sentido, falo com a tua estrela, sei que tu me guardas e vigias, que perdoas todos estes anos de silêncio  e irreparáveis ausências.

      Versão compacta de No teu deserto de Miguel Souza Tavares
       Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     Sente-se um zumbi caminhando entre cadáveres que continuam a se comportar como se estivessem vivos e vem em sua direção como peixes puxados por anzóis invisíveis; ou seria ele a isca?

     Se fosse Deus, eliminaria a imaginação das pessoas e, talvez, todos pudessem ter uma vida menos mórbida. Não se pode manter um diabo preso no jirau e achar que isso vai sair barato. Se você vende sua alma, não pode esperar comprá-la de volta por preço baixo.

     A cilada das histórias perdidas! O exílio é um país sem alma. O lar afasta-se do filho pródigo relegado ao limbo reservado aos favoritos caídos em desgraça. As cartas acabam parando de chegar. As cartas não vem mais.

     Se a vida fosse uma artéria, ele seria o maldito entupimento. Ele sabe de que são feitos os fantasmas.
De coisas inacabadas é que eles são feitos. Quanto mais perto do ilusionista, mais fácil descobrir o truque. Ele é o mágico e a história seu truque. Não; a história não: algo mais estranho.

     Cresceu acreditando em Deus, anjos e demônios com tanta certeza quanto teria se esses seres fossem bois no pasto. Achava que era uma falha de sua natureza nunca ter visto um fantasma. Foi quando teve a ideia que destruiu sua fé: que tipo de ideia é você? Aquilo em que você acredita depende daquilo que você vê, não só daquilo que é visível, mas daquilo que você está preparado para encarar.

     Desde o começo, os homens usaram Deus para justificar o injustificável e, assim, foram capazes de fazer a caça pensar que era o caçador. Esta foi sua ideia! O oposto da fé não é a descrença; ela própria uma espécie de crença, o oposto da fé é a dúvida.

     Então alguma coisa aconteceu, alguma coisa misteriosa e definitiva que o desprendeu do tempo e o levou à deriva por uma inexplorada região de lembranças.

     A cena inesperada o empurra para o centro do palco sem conhecer o roteiro nem ter decorado sua fala e no teatro lotado todos vaiam o seu silêncio e a cortina não fecha nunca.

     Depois que você atravessa o espelho, a volta é por sua conta e risco. O espelho pode cortá-lo em tiras.

     As coisas que a memória das pessoas regurgita! Não existe derrota maior a um homem do que descobrir que acreditava num fantasma. Demônios demais dentro de pessoas que precisam acreditar em Deus.

Versão compacta de Versos Satânicos de Salman Rushdie
Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

      Levei tempo para reencontrá-lo. Como o reconheci? Pelos olhos talvez. É quase um velho atualmente. Se parece agora, com esses desafortunados das fábulas esmagados sob o peso do seu desejo atendido e, às vésperas de não mais existir, chega a ser outro.
       Foi em plena cidade que dei com ele, sentado num banco. Está naquele instante em que se vaga no fundo de um mundo sem bordas, em que a luz não varia e os destroços não chegam às margens.
  Não há nenhuma dúvida. Sim, sou eu mesmo!

      É melhor adotar a explicação mais simples, mesmo que seja pouco, mesmo que não explique grande coisa. Não responderei mais perguntas. Tentarei também não fazê-las mais. A vida não tolera o excesso de circunstância. É aí que espreita o maligno, como na prega da próstata o gonococo.
  Vou me contar histórias, se puder. Não será mais o tipo de histórias de antigamente, sou pouco inclinado à nostalgia.
  Sinto acumular-se aquele escuro, acomodar-se aquela solidão, nos quais me reconheço. O silêncio de fato, às vezes, é tal que a terra parece desabitada.

       Há uma espécie de noite aqui comigo, noites de trezentas horas; o escuro invencível. Não é uma questão de pálpebras, é como se a alma se devesse cegar, esta alma que em vão se nega, penetrante, espreitadora, inquieta, girando na sua janela como numa lanterna na noite sem portos nem barcos, nem matéria nem entendimento.
  As ideias se parecem tanto quando as conhecemos; tantos arcos e nenhuma flecha. Aliás,  pouco importa se estou morto ou simplesmente morrendo, sem saber qual deva ser a minha prece, nem para quem.

       Há coelhos que morrem antes de os matarem, de simples pavor. Não vou entrar em detalhes. Uma pequena sombra, em si ali na hora, não é nada. Mas conheço as sombras, elas se acumulam, se tornam mais densas, depois afogam tudo. O que se vê, o que grita e se agita, são os restos.
  Mas tudo isso está fora de questão, como tantas coisas. Tudo é pretexto. Pretexto para não chegar ao ponto. Há momentos em que tenho a sensação de estar aqui desde sempre. Ou de ter voltado para cá depois de uma longa ausência. E entretanto escrevo sobre mim, com o mesmo lápis, no mesmo caderno que sobre ele. É que não sou mais eu, já devo ter dito, mas um outro cuja vida apenas termina.

       Pois então, vai ser uma espécie de inventário, não de coisas; mas de ideias. Nada de discutir ninharias. Vou contar-lhes o que considero fundamental. Considero-o como se tivesse sido punido por seus próprios méritos. Pois ninguém nunca veio em seu auxílio, para ajudá-lo a evitar os espinhos e armadilhas que se alastram na vida e nunca dispôs senão de suas próprias forças e meios para ir da manhã à noite da sua existência.

       Me pergunto se não é ainda de mim que se trata. Aí está de fato o tipo de história que tenho contado a mim a vida inteira. Mas digo tantas coisas a mim mesmo, o que há de verdade nesse blá-blá-blá?
  Conheço essas frasezinhas que não parecem de nada e que uma vez admitidas, podem empestar toda uma vida. Saem do abismo e não param até arrastarem você para lá. Mas desta vez saberei me defender delas. Daremos as  costas a essa nuvenzinha, mas ficaremos de olho nela. Ela não vai cobrir o céu à nossa revelia.

       A definição talvez seja ruim, mas sem ir tão longe, quem esperou bastante vai esperar sempre, e passado um certo prazo nada mais pode acontecer, nem ninguém vir, nem haver outra coisa que não a espera sabendo-se vã. E sem saber exatamente qual o pecado sente-se muito bem que viver não é pena suficiente.

     Versão compacta de Malone Morre de Samuel Beckett
      Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     A vida é um misterioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio; que chega tarde demais, uma colheita de inesgotáveis arrependimentos.

    Naturalmente, um tolo, com seu pavor habitual, estará sempre a poucos passos da salvação. Deixemos o tolo embasbacar-se e estremecer. Ele encontrará a verdade com a sua própria verdade e nunca se verá preso num círculo. São as pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer a sua capacidade de ser fiel a si próprio. Na verdade, o que importa o preço, se o truque é bem feito?

    Tenho a impressão de que estou tentando contar um sonho; uma tentativa vã. O sonho: Algum caso de loucura na família? indagou com tom trivial e sorriu como de uma piada discreta. Os jurados, seria um julgamento? pareciam ter saído de algum canto sombrio de algum inferno. A minha sensação era de opressivo assombro, como se houvesse sido roubado de uma crença ou perdido o rumo na vida.

     Um deles, que parecia o presidente do júri, começou "toda conquista não é coisa bonita quando você olha demais para ela. Quando pequeno, Kacki (este devia ser eu, pois apontou para mim) tinha paixão por mapas. Ao crescer, sempre seguiu sua própria estrada, andando com as próprias pernas.

    Na verdade, uma estrada deserta, estreita, sinuosa. Na caminhada começou a sentir um certo desconforto. Parecia saber tudo sobre todos e pouco de si mesmo. Seja quem for, não é uma pessoa comum. Difícil conceber como sobreviveu, como pode chegar tão longe, como conseguiu permanecer ali. Acho que o conhecimento chegou a ele somente agora. Penso que lhe murmurou coisas a respeito dele próprio que ele não sabia, coisas que ele não tinha ideia".

     Senti que estava me tornando filosoficamente interessante. Eu não podia imaginar o que havia em mim que pudesse valer tamanha atenção. Ao chamarem os comerciais (sim, agora parecia que o "julgamento", ou o que fosse, fazia parte de algum espetáculo), entrou a vinheta do bloco seguinte: " Desde o início não havia a menor esperança. Estava escrito que devia ser leal ao pesadelo que escolhera".

  Versão compacta de O Coração das Trevas de Joseph Conrad
   Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     Ontem sonhei o seguinte: estava numa ilha. Depois de uma longa consulta com um médico, minha família me levara para lá. Da consulta lembro apenas de ter ouvido o médico dizer que "talvez ele esteja atribuindo aos outros um inferno que é seu". Lembro, também, que, neste momento, tive vontade de contar que sou escritor, que sempre quis viver numa ilha deserta.

     Na ilha vivem os hóspedes de um manicômio abandonado. Por instantes sou o diretor, em outros seu único interno (não usarei o termo "louco"). Tento encontrar um modo de sair da ilha, mas encontro aquela resistência, como um peso, que nos impede de escapar durante os pesadelos. Quando consigo acordar estou, de fato, numa ilha; aparentemente sozinho. Os penhascos, o mar, parecem trêmulos. Ouço o mar com seu movimento de ruído e fadiga; a meu lado, como se tivesse vindo por-se a meu lado.

     Minha vida teve momentos em que os heróis reconheceriam o medo. Acho que agora mesmo não estariam tranquilos. Por frestas de pensamentos, tive saudade de antes, de quando estava sem esperanças. Mas o que mais me apavora é a sensação de estar num lugar encantado e a confusa revelação de que a magia aparece aos incrédulos, para se vingar.

     Agora a realidade se me apresenta alterada, irreal. Como um impostor que tivesse levado a farsa longe demais pensava ter feito a seguinte descoberta: minha vocação é o pranto e o suicídio. Considero que esse pensamento é um vício: se o escrevo, é para fixar seus limites, para ver que não tem encanto, para abandoná-lo. Talvez minha ideia, uma vez escrita, perca a força.

     Tudo o que tenho escrito  - com esperanças ou com temor, de brincadeira ou à sério - me mortifica. Penso que minha presença neste mundo aborrece a todos, como uma piada que já teve certa graça e que alguém teima em repetir. Tratarei de que não se repita. Estar morto! Resta este caminho.

     Ou, então, seguir a tradição dos solitários, dar-se por morto para não morrer.



   Versão compacta de  A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares
   Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     As maneiras de conjurar o destino são muitas e quase todas vãs. O fato é que nunca temos certeza, apostamos em dois cavalos e nos arriscamos a perder em ambos. Há ocasiões tão funestas que quando de um lado nos chove, do outro nos faz vento. Nascemos, e neste momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos: – Quem assinou isto por mim?

     A todos a vida dá tudo, mas a maioria ignora. Os místicos invocam uma verdade, uma luz, um amanhã. Dessas metáforas nenhuma me serve. No curso do tempo fui muitos, a ruína não me magoa. Eu previra o fracasso e ele entrara à cavalo no cômodo das minhas possibilidades.

     Quando o homem amadurece, está pronto para se defrontar consigo mesmo. Se escreve para distrair-se ou joga um xadrez solitário, quando quer se mata. Dono de sua vida, o homem também o é de sua morte.


   Esqueci de anotar os nomes dos livros de onde psicografei estes excertos. Os autores são Saramago e Borges, o primeiro português e o segundo argentino. É claro que vocês sabem disso, né? E fica o desafio: a que livros pertencem as frases soltam que foram juntadas para formar este pequeno texto?

José Claisson Aléssio

     Alguém sempre tem de pagar, esse é um dos axiomas da vida. Tendo como escora a muleta desta frase feita comecei o texto, uma álgebra tropical, alimentando-o com farelos de teorias, numa demonstração de que ninguém corrige aquele que de deus se extravia.

    " Escritor ganha elogios em seu livro de estreia aos cinquenta e quatro anos”.Soaria patético “estrear” nesta idade. Mas o senhor ainda é jovem, disse o caçador de inéditos quando ganhei o concurso de contos do “escritores anônimos”. Ainda. Quantos anos me restam de ainda? Ainda significa: está acabando.

     Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido; estrangeiro aqui como em toda parte já me vejo na estação; até aqui simples metáfora. Serei sempre o que não nasceu para isso. Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Cadê minha família abstrata e impossível?


       Versão muito compacta de livros dos autores Raduan Nassar, Mário Benedetti e Fernando Pessoa
        Textículos criados a partir de frases soltas e esparsas dos referidos autores. De que livros? Não lembro.



José Claisson Aléssio

     Do que uma pessoa pode falar com mais satisfação? Resposta: De si mesma. Então vou falar de mim. Não sou de jeito nenhum uma pessoa tão alegre quanto pareço, ou como talvez lhes pareça. Inventei-me umas aventuras e criei uma vida para viver de algum jeito. De certa forma, fui atraído a vida inteira por pregar essas peças, tanto que, no fim, perdi o controle. Já faz muito tempo que vivo desse jeito. Esse é um hábito.

     Sabe o diabo o que o hábito pode fazer com uma pessoa.    Exagero tudo  e é aí que eu me complico. Ou herói ou lixo, não há meio termo para mim. Foi isso que me arruinou, pois, no lixo eu me consolava por ter sido herói em outra época. Embora a vida resulte, amiúde, em porcaria, mesmo assim é vida, e não apenas extração de raiz quadrada. Ela não cabe, portanto, em fórmulas simples e sistemas prontos.

      Assim, o que se pode esperar de um homem, essa criatura dotada de qualidades tão estranhas?
   O homem adora criar e abrir estradas, e não só no sentido literal.
 Suponhamos que o homem sacrifique a vida em busca da verdade, mas meu Deus, como ele teme encontrá-la.
   No que tange à minha opinião pessoal, gostar só da prosperidade chega a ser indecoroso. Aniquilem meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me algo melhor e os seguirei. Não me envergonho da minha pobreza. Pelo contrário, encaro-a com orgulho. Um romance, filme, ou novela, precisa de heróis; trago em mim deliberadamente reunidos todos os traços do anti-herói. Por causa deles, muitos dos meus pecados serão perdoados.

   Juro-lhes que ser consciente demais é uma doença. Por mais que rumine, sou sempre o primeiro entre os culpados e, ainda mais, culpado sem culpa. Em primeiro lugar, sou culpado por ser o mais inteligente entre todos que me rodeiam. Porém, é muito melhor compreender tudo, reconhecer tudo, todas as impossibilidades e muros de pedra.
   Claro que minhas piadas são de mau gosto, irregulares, atabalhoadas, sem confiança. Mas isso é por que não tenho respeito por mim mesmo. Por acaso uma pessoa consciente pode ter algum respeito por si mesma?

   Vivo no meu canto, provocando-me com o consolo raivoso e sem serventia nenhuma de que um homem inteligente não pode se tornar nada a sério, e que só o estúpido vira alguma coisa. É possível que eu só me considere uma pessoa inteligente por, durante a vida inteira, não ter conseguido nem começar, nem terminar nada. Mas o que fazer, se o destino patente e único de todo homem inteligente é a transferência intencional do deserto para o vazio?

   Ao terminar os estudos mudei de cidade e obviamente não mantive amizades. Além da leitura, não havia para onde ir, ou seja, não havia nada ao meu redor que eu pudesse admirar e que me atraísse. Já então eu trazia o subsolo na alma.  Outra circunstância ainda me atormentava: justamente que ninguém parecia comigo, e eu não me parecia com ninguém. Sou sozinho e eles são todos; pensava.

   Tinha um medo doentio de ser ridículo.  Eu me acostumava a tudo, ou seja, não exatamente acostumava, mas como que concordava de bom grado a suportar. Desejava tranquilidade, desejava ficar sozinho no subsolo. Do que tinha vergonha? Não sei, mas tinha vergonha. Como se levasse algum crime na alma. E para que me deixassem só, seria capaz de vender o mundo todo por um copeque.

  Versão compacta de Memórias do Subsolo de Fiódor Dostoiévski
  Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de compartilhar. Todavia, não sou louco e certamente não inventei o que vou narrar, mas amanhã morrerei e quero hoje, relatar a minha descoberta.
  Assim como tenho certeza que respiro, sei que a consciência do certo e do errado de uma ação é frequentemente a única força incontestável que nos impele para a sua realização; e nos impele isoladamente, sem que nada mais o faça.
  Podemos observar, entretanto, que existe uma certa classe de pessoas que se comprazem na dúvida, como se fosse uma profissão.
Temem o conflito que está sendo travado dentro delas, com o combate entre o definido e o indefinido, a batalha da substância com a sombra. Porém se a luta chegou a este ponto, lutam em vão, porque a sombra triunfará.
  Foram os homens que ordenaram a Deus que tivesse propósitos; tendo decifrado para sua própria satisfação as intenções de Jeová, construíram seus inumeráveis sistemas psicológicos.
  Assim fez-se o homem e deste barro foi feito Deus.
  Se não tivesse sido tão prolixo, talvez você me tivesse entendido completamente errado, ou, como a ralé, poderia achar que sou louco. No entanto, a convicção de que estou certo é tanta que, mesmo sabendo que morrerei amanhã, aposto a minha cabeça com o diabo!


     Versão compacta de Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias de Edgar Allan Poe
      Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     Começo a história a partir do momento que me tornei inquilino de uma quitinete na sobreloja de um bar, num prédio baixo, sem elevador,  não muito deteriorado. Assim como o prédio, o bar é pequeno e decadente, não é como se tivesse algo a distingui-lo de centenas de outros: não tem. Os frequentadores são silenciosos e quase todos velhos, parecem ter vindo dos mesmos quartinhos escuros das pensões adjacentes. Sua clientela faz o tipo comum.  Mesmo assim este bar e seus personagens parecem tirados de algum romance de Dostoiévski. São como dadinhos que a vida decidira lançar e não esperam nada diferente.  Ou valises; jogadas para lá e para cá, achadas e perdidas, até que afinal o carregador as joga no último trem e elas vão embora chacoalhando aos solavancos, até a última estação.
   
                                                               **********

     A pessoa no espelho, na  parede  do bar, faz uma careta e desconcertado percebo como a vida é absurda, risível, simplesmente risível. Noto que me olham de modo curioso, como se houvesse algo engraçado em mim: ou como se esperassem que eu fizesse algo fora do tom. A respiração sobe e desce no meu peito como duas asas batendo; saio do bar e  cambaleio na calçada como um passarinho caído do ninho.

   
                                                               **********


     Havia momentos nos quais Kacki se atirava numa batalha onde não havia batalha. Estava num desses momentos. Como se saísse da água em busca da isca, havia se perdido em alguma de suas tangentes. Irrompeu no apartamento como se tivesse descoberto uma passagem na parede. Pendurou seu casaco e a calça no gancho da porta como um enforcado, ele próprio parecia um personagem de histórias em quadrinhos.
     Apanhou um livro, o seu falso eu ficou de pé ao seu lado, apoiou-se em seus ombros de propósito."Sonhar com besouros pretos, perto de um carro funerário significa má sorte. Sonhar com aranhas rastejando sobre você é bom, significa que ficarás rico." Bebia café e largou a xícara como se tivesse sido alvejado por um tiro: _ vou escrever um livro que simplesmente surpreenderá os críticos.
     Vou escrever sobre assuntos que nunca foram tratados antes. Vou fazer meu nome como escritor abordando o mundo submerso. Mas não como os outros fizeram antes de mim. Depois vou  adaptá-lo ao teatro. Será uma peça em um ato. Um personagem decide se matar. Dá todas as razões por que deve fazer isso e por que não deve fazer: cai o pano.



Versão compacta de Contos Escolhidos de Katherine Mansfield
Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

     Naquele verão de 1978 eu tinha vinte anos e  todas as esperanças eram permitidas. Tínhamos as certezas inabaláveis, próprias da juventude, e eu era perfeitamente feliz. Então, um dia, foi o fim.
     Do fim daquele verão, lembro-me como de um pesadelo. As casas pareciam estranhamente profundas, silenciosas e fechadas sobre seus moradores. Parecia que meu coração havia parado de bater. Kacki  partiu, deixou aquela casa e aquele verão.
     Kacki nos oferecera o presente suntuoso de nos deixar uma enorme chance de acreditar num acidente. Este presente que seríamos fracos o bastante para aceitar.
     Depois de algum tempo, pudemos falar sobre ele num tom normal, como um ser querido com quem convivemos por alguns anos, mas que Deus chamara a si.
     Escrevo Deus, mas não acreditávamos em Deus. Já era uma dádiva naquelas circunstâncias acreditar em acidente.


       Versão bem compacta de Bom dia tristeza de Françoise Sagan
       Texto criado com frases tiradas do livro                 

José Claisson Aléssio

Todo o Sul estava em festa naquele verão e em nós cabia toda a ilusão do mundo.
E no fim tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances: sem aviso, sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar.
Minha vida sem ti tem sido um excesso permanente, uma avalanche montanha abaixo. Não tem havido vício que não me seduza; pecado que não me manche.
Desde então os anos passam por mim e eu não os vejo. Fico à noite a olhar estrelas e sei que tu me guardas, que perdoas os anos de ausência; todos os medos.

***

A realidade é sempre traidora; o melhor é não dar-lhe tempo e traí-la antes. Assim, o que vou relatar não é o que realmente aconteceu, mas o que parece verossímil que tenha acontecido.
 Não ofereço fatos comprovados, apenas conjecturas razoáveis.
Naquele ano sua mulher o abandonara e ele abandonara sua carreira de escritor.
Os anos que se seguiram foram confusos, as versões do que se passa a seguir diferem. O fato é que nunca conseguiu acabar nada neste mundo e, deste modo melancólico e sem futuro, sempre gostou de prever a si mesmo.
É possível que a essas alturas já não acreditasse em nada. Também é possível que, em seu foro íntimo, jamais, em sua vida tenha acreditado em algo.
Hoje pouca gente se lembra dele e quem sabe ele mereça esse destino.
 Deixou um punhado de bons poemas e um punhado de boas crônicas, mas também muito menos do que exigia seu talento, que sempre foi superior à sua obra.
 Pouca gente compareceu a seus funerais.

***

Desta vez não quero contar certas pesadas amarguras, só quero tomar um trago sem dizer nada.
 Meu cachorro e eu farejamos o mundo.
 Cruzamos ao longo da vida muitas ruas e muitas distâncias, sentamos sozinhos em praças lotadas. Agora regresso e bato à porta do passado.
 Sempre souberam que eu voltaria, só eu não soube.
 E não esqueci, nem morri, tudo foi crônica perdida, sonata dispersa.

Trechos do livro Figueira Torta(inédito) no capítulo sobre livros lidos num tempo em que ainda se tinha alguma ilusão. São leituras muito antigas, não lembro os nomes dos livros, nem seus autores. O modus operandi para as versões é sempre o mesmo: leitura, escolha das frases, montagem do texto.

José Claisson Aléssio

Escrever tudo isso agora parece mentira, mas era assim mesmo. Kacki sempre parecia estar chegando de algum temporal entre a glória e o mundo; sem glória e sem mundo.Vivia à beira do abismo e não sabia ou, então, dissimulava com rara perfeição. Sua pequena lenda nunca mereceu quem a contasse. Sua indiferença e inteligência foram sua ruína; o amor perfeito e breve de um soneto o seu ideal.

Escrevia, enquanto se embebedava, nem sempre nesta ordem. Dizia que só publicaria quando não encontrasse gerúndios em seus textos. Tornou-se celebridade no verão em que arrendou o TUPAMAROS BAR no Arroio do Silva.

O verão de 1978 tornou-se lenda para a nossa geração. Todos inventamos variadas histórias para nós mesmos para imaginar que nos aconteceu alguma coisa. Sonhava com o homem de valor, ou algo que o valha, que esteve muito longe de ser. Dessas ilusões somos feitos´.

        Versão compacta de Estrela da Manhã de Roberto Bolanõ
 
                 Texto criado com frases tiradas do livro e pequenos cacos do Kacki

José Claisson Aléssio

Sabed que yo me lhamo Don Quijote de la Mancha, caballero andante y aventurero? Usted conecce el poema? E Sandrita?
Chegara na tarde abafada de fim de primavera. A cesta com flores compradas na feira era seu único adorno. Ao segurá-la, apertava com força suas alças, como se apertasse um feixe de prazeres.
Ao vê-la atravessando a rua em sua direção, ele sorriu como quem precisa disfarçar um pensamento ou uma ansiedade.

Sim, foi só em pensamento, foi só em seus desejos. Se uma vida mais intensa se passa no sonho; desperto, atravessou o velório de sua ilusão.
Com o passar do tempo S. o achou cruel, como só os covardes podem sê-lo. A falta de fé o conduziu ao final inesperado; o estupor do ateu diante do milagre.
***
Não me lembro de ti sem ter saudade
e é a ti que me refiro nesta quadra,
nesta ode,
cada qual se defende como pode.
Hoje; sou carteiro de uma carta que nunca foi mandada,
e o mensageiro de uma resposta ainda mais desesperada.
Hoje; sopra sobre o tempo suplicante
as velas de saudades navegantes
e barcos no meu cais à ventoleste.
E, se a solidão for tanta,
de me lembrar que mata,
o mar é uma esperança,
teus olhos a fragata.
Quem te pode colher como camélia?
Quem te pode acender como alvorada?

Versão compacta de À Bela Ausente e Campo de Flechas de Marcos Konder Reis
Texto criado com frases tiradas dos livros

José Claisson Aléssio

 Sombra: - Faz tanto tempo que não te ouço falar

Viajante: -  Por todas as coisas em que não creio, minha sombra fala!

Sombra: - Algumas centenas de perguntas pesam sobre a tua alma, repousa um pouco, pobre espírito atormentado

Viajante: - Eu pensava que a sombra do homem fosse a sua vaidade, pois sabe-se que a palavra homem significa aquele que mede

Sombra: - Não te reconheces?

Viajante: - Não me sinto bem comigo mesmo. O estômago da sociedade é melhor que o meu, pois me suporta

Sombra: - Homens práticos não gostam do homem circunspecto e o consideram perigoso

Viajante: - Que me importam os homens! Que o diabo os carregue!

Sombra: - Deve-se também ser honesto com o diabo e pagar as próprias dívidas

Viajante: - Esse viajante não tem necessidade de ninguém pra refutá-lo: ele mesmo se encarrega disso

Sombra: - Prometes demais, não poderás carregar esse fardo

Viajante: - Desde toda a antiguidade se imaginou temerariamente que lá onde nada se podia garantir seria o caso de persuadir a própria descendência a admitir essas imaginações como coisa séria e verdade, usando como último triunfo dessa proposição execrável: que acreditar vale mais que saber. A fé na autoridade é a fonte da consciência: esta não é portanto, a voz de Deus no peito do homem, mas a voz de alguns homens no homem. É necessário servir-se aqui dos meios de intimidação mais espantosos, uma vez que os mais benignos não fazem efeito algum, um desses meios mais violentos é a invenção de um além como um inferno eterno. Sente-se necessidade das torturas da alma e de carrascos para executar essas torturas. O mundo não é o substrato de uma razão eterna pelo fato de a razão humana não ser muito racional. Singulares farmacêuticos da alma, tornaram a vida um veneno infecto e repugnante. 

Sombra: - A alma também deve ter suas cloacas particulares por onde escorre suas imundícies

Viajante: - Muitas coisas podem servir para isso: pessoas, relações, classes sociais, pátria ou o bom Deus. Os direitos remontam geralmente a um costume, o costume a uma convenção momentaneamente estabelecida. O costume se tornou então uma coação, mesmo quando não tivesse mais a utilidade que se via primitivamente. Nisso os fracos encontraram desde sempre, sua sólida fortaleza: estão inclinados a eternizar o privilégio que lhes foi transmitido. Entreter-se com Deus, pedir-lhe mil coisas agradáveis, brincar um pouco consigo mesmo ao perceber que ainda se podia ter desejos, apesar de um pai tão perfeito. O cristianismo foi o primeiro a pintar o diabo no edifício do mundo; o cristianismo foi o primeiro a introduzir o pecado no mundo.

Sombra: - Amigo, amigo! tuas palavras, elas próprias, são palavras de um fanático!


Versão compacta de O viajante e sua sombra de Friederich Nietzche

Texto criado com frases tiradas do livro





José Claisson Aléssio

 Um dia o sujeito acorda e leva um susto. Não porque já está fazendo 60 anos. Ele se assusta porque abre os olhos e encontra sua casa completamente vazia. Ele salta da cama e corre atrás de suas coisas. Seu remédio para os tremores, sua escova de dentes, sua garrafa de água! Até a tampa da privada, fria, branca, limpa, esperando ser levantada todas as manhãs com a dignidade de quem sabe a importância de seu trabalho, não estava mais ali!

Cadê os livros? Cadê as roupas? Onde estão seus documentos e suas fotos? Alguém por favor pare com a brincadeira e devolva já a geladeira e todos os seus imãs de pizzaria.

Na sala de sua casa agora há só as quatro paredes brancas, lisas, sem os quadros e os poucos móveis que ali moravam. Ele olha num canto e não enxerga o velho sofá que teve como último hóspede um velho amigo que o visitara, eles se sentaram ali e beberam a cerveja fresca e a saudade morna de tempos vencidos. 

Não há mais nada na casa. Ela foi violentamente esvaziada. O homem respira fundo e se dá conta de que, assim como sumira tudo que ali havia, desapareceram também as coisas que moravam dentro dele próprio. Ele se pergunta onde está sua família.

Onde estão os guapecas da casa da infância, onde estão os canteiros e as flores de suas irmãs? Será que o pai já consertou sua bicicleta? Para onde foram todos, suas tias, seus primos? E por que diabos a sua mãe não responde quando ele a chama?

Ele abre a porta e sai para a rua. Mas a rua está vazia. Nenhum som, nenhum vizinho, nenhum vira-lata. Nada. Ele caminha meia dúzia de passos, olha para trás e sua velha casa também não está mais ali. Acabou. Ele fecha os olhos, segura o frio em suas entranhas, respira fundo e espera desaparecer também.

Sobre crônica publicada em www.revistabula.com

José Claisson Aléssio

Não, ninguém lhe veio abrir a porta, não havia ninguém naquela casa a que viera dar com o que restara de si, casa da qual, na verdade, nunca saíra, como se tivesse percebido a impossibilidade de transpor a parede.

 A porta da frente e as janelas davam para o potreiro onde, aos domingos, à sombra da figueira, costumavam sentar-se, os três, antes do banho, voltados para o pequeno rio que corria diante deles. Lembrou-se das procissões dos tempos de menino, surpreendeu-se brincando com as irmãs numa lembrança de quase nuvem. A tarde tornara-se melancolia.

 Se tudo não passava de uma parábola, perguntou-se daquelas portas trancadas.

 **********

 Todo mundo acaba dando consigo fora do paraíso; a vida de cada um não deixa de ser essa caminhada para longe. Apenas a ponte de arame o separava do mundo.

 O motivo da travessia? Será que ninguém percebeu que Kacki estava desmoronando?
 De outro jeito não saberia explicar os motivos que o obrigaram, de repente, a dar as costas a tudo que amava.

 E começou a andar pela terra num passo apressado de foragido. Quando se via refletido nas poças d'água, enxergava, ao fundo, duas meninas, que num tempo distante, foram suas irmãs, lhe sorrindo, um sorriso de órfãs.

 É possível que os mais espertos continuem fazendo de conta que a morada do carcereiro fica por fora dos muros. Os menos tolos percebem que os muros são construídos de dentro para fora.

 Não será que, no avesso da vida, por alguma coisa, Kacki se julgava usurpador e alimentava um desejo secreto de que o livrassem do peso?

 ***********

 Não, não queria vê-lo de jeito nenhum a poucos quarteirões de sua queda.

 Quando dei com ele naquela manhã de cerração, Kacki estava batendo o queixo com as mãos enfiadas nos bolsos de uma japona sem cor.
 Por mais que tivesse vontade, não pude fugir. Não que não desejasse encontrá-lo. Mas não queria encontrá-lo, ali, naquela situação.

 Ficara sem dizer palavra, envergonhado e silencioso. Era como se jogasse sua alma desnorteada sobre o meu rosto. O que o fizera viver como um sentenciado?
 Seu gesto não dizia, por ventura, da perda de uma fé, do abandono de uma ilusão?

 Como adivinhar que a morte estava a ponto de puxar o gatilho?
 Olhei para os canteiros e percebi que não havia flores para o velório.


        Versão compacta de A bola encantada de Marcos Konder Reis
         Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

Seu quarto permanecera idêntico, assim como o deixara, nem um livro fora deslocado. Porém, pareceu-lhe alheio. Sentou-se na poltrona, escutou os rumores dos carros na rua. Deixou-se ficar só no quarto, todo mundo vivia então sem ter necessidade nenhuma de sua presença. Procurou numa gaveta os velhos cadernos de escola, um diário que mantivera por anos, algumas cartas; espantou-se por ter escrito aquelas coisas, nem se lembrava delas, tudo se referia a fatos estranhos e esquecidos. 'E agora?', perguntava-se.

Estrangeiro, perambulou pela cidade, à procura dos velhos amigos, soube que estavam ocupadíssimos com seus negócios, em grandes empresas, na carreira política. Falaram-lhe de coisas sérias e importantes, fábricas, estradas de ferro, hospitais. Um deles convidou-o para almoçar, outro tinha se casado, todos haviam tomado caminhos diferentes e, em quatro anos, já se haviam distanciado. Por mais que tentasse (mas também ele talvez não fosse mais capaz), não conseguia fazer renascer as conversas de antigamente, as brincadeiras, os modos de falar. Perambulava pela cidade à procura dos velhos amigos – e tinham sido muitos –, mas acabava por achar-se sozinho numa calçada, com muitas horas vazias antes de a noite chegar.

 É difícil acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Kacki deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, e é isso o que causa a solidão da vida.

Já pairava na sala o sentimento da noite, quando os medos saem das decrépitas paredes e a infelicidade se torna suave, quando a alma bate as asas sobre a humanidade adormecida.

Agora sentia até uma sombra de opaca amargura, como quando as graves horas do destino passam ao nosso lado sem nos tocar e seu ruído se perde ao longe, enquanto continuamos solitários, entre redemoinhos de folhas secas, a sentir saudade da terrível mas grande ocasião perdida.

 'Que triste engano', pensou, 'talvez tudo seja assim; acreditamos que ao redor haja criaturas semelhantes a nós e, ao contrário, só há gelo, pedras que falam uma língua estrangeira; preparamo-nos para cumprimentar o amigo, mas o braço cai inerte, o sorriso se apaga, porque percebemos que estamos completamente sós.'

Pareceu-lhe que a fuga do tempo havia parado, como se o encanto tivesse rompido. O vórtice tornara-se cada vez mais intenso nos últimos tempos, em seguida, repentinamente, mais nada, o mundo pairava estagnado numa apatia horizontal e os relógios andavam inutilmente.

Foi aí então que dos fundos recessos saiu, límpido e tremulante, um novo pensamento: a morte.
A estrada de Kacki estava terminada; lá está ele agora sobre a solitária orla de um mar cinzento e uniforme, e ao redor nem uma casa, nem uma árvore, nem um homem.


     Versão compacta de O deserto dos tártaros de Dino Buzzati
      Texto criado com frases tiradas do livro



José Claisson Aléssio

      Kackynstown localiza-se numa região inglesa próxima às terras baixas da Escócia que os habitantes do lugar jocosamente denominam de "uma vila no meio do nada, ao caminho do fim de tudo". Por inóspito que seja o lugar, viajantes e funcionários do governo dirigindo-se às terras altas tem passagem obrigatória por lá, posto que a estrada que passa pelo vilarejo é a única da região.

     Quando há tempestades de neve ou até mesmo nevascas fortes é comum a estrada ficar parcialmente, ou até mesmo totalmente obstruída. Nesses casos as pessoas em trânsito são abrigadas por moradores em suas próprias casas por dias e até mesmo semanas.

     Diante disso, Molly Daves, recém-casada com Giles, tendo herdado uma propriedade de seu tio que morrera na guerra, pensou em abrir uma hospedaria.

                            I - Introdução

                           II - Sobre os livros policiais

                           III - Perfil do suspeito número um(fortemente suspeito)

                           IV - Perfil do suspeito número dois(ligeiramente suspeito)

                           V - O detetive perspicaz

                            VI - O desfecho surpreendente 

                                                            I

      O livro é composto por nove contos, eu diria que banais, comuns. Por óbvio, em todos há pelo menos um crime, surgem alguns suspeitos, ou com atitudes suspeitas, e na sequência o detetive sagaz. Sendo assim, transformei o livro num único conto, selecionando frases de todos eles. Se o resultado ficar muito longe do que se costuma ler em livros deste gênero, declaro desde já a inocência da autora e nem precisaremos de muita argúcia para encontrarmos o culpado de tamanha incúria.

                                                           II

     A psicologia do medo deve ser totalmente compreendida. Suponhamos que você está sozinha numa sala. Uma porta se abre  às suas costas. E, de repente, morte. Assassinato? Em nome de Deus, porque?  A vida é muito incerta. Não se pode ter um assassinato, ou mesmo morte natural, sem um motivo. 

    Foi o começo de um capítulo de catástrofes. Revelações interessantes se seguiram. É curioso como a pessoa mais inteligente não atenta para detalhes. É difícil de explicar, mas quando a gente tropeça em uma coisa peculiar a gente nota, embora, com frequência, as coisas peculiares possam ser as mais banais.  Não foi nenhuma particular esperteza de minha parte. 

    As pistas são como tiros no escuro, que muitas vezes não acertarão o alvo.  Há sempre uma pegadinha em algum lugar. Na verdade, há uma encenação deliberada de farsa, é tudo uma enfiada de mentiras. E linguagem refinada  em demasia também. A linguagem refinada ajuda a ocultar a confusão. Como um molho bem condimentado ajuda a ocultar o fato de que o peixe embaixo dele já esteve em melhor forma. 

     O fato é que a mulher havia morrido. E estava limpa e ordeiramente morta. Em outras palavras, o peixe estragado fora coberto com molho! Era molho demais, mal dava para enxergar o peixe.

                                                             III 

    Quando o recebeu em sua hospedaria, Molly Daves não gostou do modo como ele a olhou, um demorado olhar de avaliação. Havia algo de incômodo, incomum naquele olhar. Ele a fitava lubricamente, como um velho sátiro. Ele põe coisas na cabeça da gente, pensou; sugerindo coisas, insinuando coisas, pondo pensamentos horríveis em nossa mente, pensamentos que não estavam lá, coisas que não são verdade, que não podem ser verdade.  "É isso que o torna tão deliciosamente macabro. Uma mentalidade esquizofrênica é muito interessante. É exatamente o que ele é. Uma piada de louco". Fez uma pausa como se tivesse feito uma consideração sutil. 

                                                            IV

     O vizinho mais próximo da hospedaria é um velhote excêntrico que vivia sozinho em uma velha casa. Suas roupas são um tanto horríveis, antiquadas e vestidas de qualquer jeito, e mesmo assim ele tem uma espécie de empáfia, como se fosse alguém! É quieto, até mesmo taciturno, nunca vai além do bom dia, ou boa noite, fazendo o melhor que pode para ser cordial. Parece um visitante de outro mundo carregando seus próprios e indefinidos sofrimentos.

                                                            V

    Todos os homens se parecem em seus uniformes de civilização.   Tenho a mania, eu sei, de sair pela tangente. Ocorre que vivendo numa cidadezinha como esta, a gente acaba conhecendo bem a natureza humana. Eu sempre acho que as explicações devem ser deixadas para o fim, aquele excitante capítulo final, vocês sabem.

     Boas aparências são propensas a influenciar mais do que deveriam e a fortuna costuma impedir a pessoa de ter contato com a realidade. É preciso ser ágil como um gato escaldado verificando tudo ao mesmo tempo.

     De um modo geral as pessoas tem mentalidade abjeta. Quando se  fala com elas, sente-se que não se pode confiar em ninguém, ninguém mesmo. Boa parte da lama que falam eles simplesmente inventam. Há nelas algo de astuto e dissimulado, mas suas histórias são bastante simples. É preciso ser firme com esse tipo de gente. 

    A verdade  é que ele se parecia com qualquer um. Exatamente com qualquer um. Ele tinha voz aguda, quase lamurienta e olhos irrequietos, não era um homem fácil de classificar. Ria de maneira desagradável. Ingressou no exército aos dezoito anos, logo depois desertou. Foi dado como desaparecido, perambulou por vários países. Voluntarioso, o típico lunático sussurrante que causa um peculiar fascínio nas mulheres.  Basta olhar para ele. Culpado até os ossos.

                                                           VI

     O noticiário consistia principalmente de previsões sombrias sobre o tempo. A neve havia se acumulado até a altura de um metro e meio, bloqueando portas e janelas. E aí, de repente, ficou tudo escuro. Sua vida inteira naquele momento parecia irreal.  Molly Daves se lembrou de vários rumores, insinuações, fofocas estranhas. Fragmentos de conversas chegaram até ela, ( é por isso que temos um sentimento permanente de culpa).  Mas por que? Qual seria a razão de tudo aquilo? Onde estava a armadilha? Pois havia uma armadilha, disso eu tinha certeza.

     Os hóspedes tinham relações muito distantes entre si porque não tinham nada em comum. Eles marcharam quase como numa procissão para a porta da sala de estar. Houve um silêncio. Foi, de certo modo, um silêncio incômodo. Parecia haver três pessoas culpadas na sala, em vez de uma culpada e duas inocentes.

     Não seria bom assobiar aquela melodia naquele momento. A melodia continha um significado muito preciso, "três ratos cegos"... era essa! A melodia entrou na minha cabeça. Era uma cantiga estranhamente assustadora e repulsiva. Pensando bem, é uma cantiga sinistra.

     Quer mais tempo para pensar numa boa história?


    Versão compacta de Três ratos cegos e outros contos de Agatha Christie

     Texto criado com frases tiradas do livro e alguns cacos do versionista

José Claisson Aléssio

  Pyle, por várias vezes, parecia se encolher dentro de si mesmo. Pertencia a um mundo psicológico de grande simplicidade, sua conversa nunca dobrava uma esquina; expressar-se não era um dos seus dons. Nossas conversas sempre tomavam direções bizarras.

 Sua armadura de boas intenções e ignorância era inexpugnável. Era de se apegar a uma ideia e então alterar toda situação para se adequar a ela; teria dado um bom padre. Peguei-me, algumas vezes, invejando seu mundo esterilizado, tão diferente daquele que eu habitava.

 Talvez eu devesse ter percebido o brilho do fanatismo, quem sabe teria poupado todos nós de um bocado de problemas. Deus nos livre, sempre, dos inocentes e dos bons.

  Pyle tinha passagem de ida e volta. Com uma passagem dessas a coragem se torna um exercício intelectual, como um monge se flagelando. "Quantas eu aguento"? Esses pobres diabos, que lutam por seus senhores, não podem pegar um avião e voltar para casa.

 A Indochina é como a Europa na Idade-Média; uma terra de barões rebeldes (em cada canto um exército particular), às sombras são teatrais, podem ser confundidos com companhias de atores mambembes; exceto pela selvageria

. Isso tem sido um artigo de meu credo. Sendo a condição humana como é, deixe que lutem, deixe que se matem.

  De repente me vi como Pyle me via, um homem quase velho; quando dez anos se tornam uma grande proporção do que resta.

 Pensei, depois que se virou e partiu, que me olhava com certa compaixão, como teria olhado para um prisioneiro, por cuja captura tivesse sido o responsável, um prisioneiro que cumprisse sua pena perpétua.

 Era estranho aquele primeiro regresso a Saigon sem ninguém para me dar as boas-vindas. Disse a mim mesmo que não faria a menor diferença, afinal. Subi a escada com destino a meu quarto vazio e a torneira pingando. Toda vez que voltava era com a expectativa de um desastre. Dava a sensação que ficaria ali por poucas horas, que estava de passagem, sem pertencer ao lugar; como uma borboleta em um quarto.

 Mesa para um? Foi então, pela primeira vez, que pensei no futuro e nas perguntas que teria de responder. Só um eu disse, e foi quase como se dissesse, estou morto. ou será que eu - logo eu!- esperava algum tipo de milagre?

 Não era minha guerra, mas eu queria que aqueles sujeitos nos arrozais à beira da estrada acertassem o alvo. Prendi a respiração e rezei para um Deus em que não acreditava: Permita que eu morra. ,Se ao menos Pyle tivesse me abandonado, eu seria responsável só por minha própria vida - não pela dele e ele queria viver.

 "Não banque a droga do herói, Pyle. Com os diabos, quem foi que pediu para salvar minha vida? Não somos fuzileiros americanos e você não vai ganhar uma condecoração de guerra".

 Fechei os olhos e tentei me imaginar em outro lugar. Imaginei se haveria uma carta à minha espera. Mas minha razão me diz que é melhor morrer assim. Foi pra isso que vim pro Oriente.

 Acha que o camponês fica sentado pensando em Deus quando entra em sua cabana de barro à noite? Ele será levado a acreditar no que lhe for dito, não terá liberdade de pensar por si mesmo; pensar é um luxo. Há um bocado de auto-hipnose em torno do assunto. O raciocínio humano opera da seguinte forma: Pesemos o ganho e a perda. Apostando na crença de que Deus exista estimamos as duas possibilidades - "Se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis".

 Talvez se eu quisesse ser entendido, ou entender, eu me iludisse com alguma crença, mas sou um repórter. A função do repórter é registrar e expor. Nunca em minha carreira constatei o inexplicável; não há visões ou milagres em meu repertório de recordações. A morte é o único valor absoluto em meu mundo. Perca-se a vida e nada mais haverá para ser perdido, por todo o sempre. Deus existe apenas para editorialistas.

 Versão compacta de O americano tranquilo de Graham Greene

  Texto criado com frases tiradas do livro


José Claisson Aléssio

       Não foi a luta das opiniões que tornou a história tão violenta, mas a luta da fé nas opiniões, isto é, nas convicções. Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento, de posse da verdade absoluta. As convicções são inimigas das verdades, mais perigosas que as mentiras. Tal como não há verdades absolutas, não há realidades eternas. Quem vê pouco, sempre vê sempre muito pouco; quem ouve mal ouve sempre alguma coisa a mais. Uma só coisa é necessário ter: um espírito livre por natureza ou tornado livre pela arte e pela ciência. O "espírito livre" procura razões, os outros, uma crença.  Mas pode-se encontrar para cada um uma isca que queira morder. Passa-se com o crente o mesmo que ocorre com Don Quixote que subestima sua própria valentia porque tem em mente os feitos prodigiosos dos heróis de cavalaria.  

      A humanidade, ainda rudimentar, ao sonhar; julgou ter descoberto um segundo mundo real. Nele os mortos reaparecem vivos e a partir daí este cérebro em formação, passou a crer em espíritos, que evidente, não tinham esta denominação, e mais tarde, com a civilização um pouco mais avançada; em deuses. Em seu modo arcaico de raciocinar, o humano em formação, confunde as coisas em razão das mais fugazes semelhanças  A propósito de uma coisa inexplicada, se entusiasmam pela primeira fantasia que lhes passa pela cabeça e que se assemelha com uma explicação, e a partir daí os povos criaram as suas mitologias. Na base de toda crença encontra-se a sensação do agradável e desde a antiguidade a crença em coisas está incorporada em nosso ser. Na Índia, um carpinteiro costuma oferecer sacrifícios a seu martelo; um brâmane, trata de igual modo o lápis com que escreve; um trabalhador rural, seu arado. Em suma, o culto religioso reside na representação de magia dos homens entre si, e o feiticeiro é mais antigo que o sacerdote. A fome não prova que haja um alimento para saciá-la, mas deseja o alimento: assim o homem criou todos os deuses. 

      O que denominamos "vida" é o resultado de uma quantidade de erros e de fantasias que surgiram aos poucos na evolução, se entrelaçaram uns aos outros e nos foram transmitidos como herança. Somos por destino seres ilógicos e, por isso, esta é uma das maiores e das mais insolúveis desarmonias da existência. Pessoas para quem sua vida parece demasiado vazia e não encontram um sentido para ela, se tornam facilmente religiosas: isso é compreensível e perdoável.  Na mitologia grega, Zeus queria que o homem não rejeitasse a vida. Para isso lhe dá a esperança: na verdade ela prolonga o sofrimento dos homens.  O gnomo malvado da inquietude lhe salta as costas quando já tem outros pesos a carregar. Que Deus você frequenta? Parece que ele não está lhe fazendo bem. Qual é o ser pensante que ainda precisa  da hipótese de um Deus?

Versão compacta de Humano, demasiado humano de Friederich Nietzche

Texto criado com frases tiradas do livro

     

José Claisson Aléssio

      Em todos os tempos se quis "melhorar" os homens: é isso que antes de tudo, foi chamada moral. Mas sob esta mesma palavra "moral" se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano teve em todas as religiões uma grande aliada. A fórmula geral que serve de base a toda religião e a toda moral se exprime assim: Faça isto ou aquilo, não faça isto ou aquilo __ então serás feliz! Caso contrário...

     De onde tiramos nosso saber, ou melhor, a fé no nosso saber?  "O mundo interior" está repleto de fantasmas e de luzes enganosas: a vontade é um desses fantasmas. A inquietude se apodera de nós porque vemos nossa própria sombra balançar diante de nós. Falar de um "outro" mundo distinto deste não faz nenhum sentido, mas serve para nos "vingarmos" de nossa própria vida com a fantasmagoria de uma "outra" vida, de uma vida "melhor". 

     Primeiro princípio: uma explicação qualquer é preferível à falta de explicação. A maioria de nossos sentimentos vagos provocam nosso instinto de causalidade: queremos uma razão para nos encontrarmos neste ou naquele estado__ para nos sentirmos bem ou mal.

     A primeira consequência dessa necessidade é que se fixa como causa algo já conhecido, vivido, alguma coisa que está inscrita na memória. O novo, o imprevisto, o estranho está excluído das causas possíveis. Todo domínio da religião deve ser ligado a essa ideia das causas imaginárias. 

     "Explicação" dos sentimentos gerais agradáveis__ dependem, da fé, dos espíritos de luz, da confiança em Deus. "Explicação" dos sentimentos gerais desagradáveis__ dependem de seres que são nossos inimigos, maus espíritos, bruxarias, feitiços. Que tem de estranho que mais tarde tenha encontrado, sempre nas coisas, apenas aquilo que ele mesmo tinha colocado nelas? 

     Em todos os tempos os sábios fizeram o mesmo juízo da vida: ela não vale nada. Aquilo que justifica o homem é a sua realidade, ela o justificará eternamente. Morrer altivamente quando já não é possível viver altivamente. Isto é o que determina a verdadeira sabedoria.


     Versão compacta de Crepúsculo dos ídolos de Friederich Nietzche

     Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

Papai era um grande contador de histórias. Mamãe gostava de dizer que papai era capaz de falar sem parar contando histórias de empregos que nunca teve ou títulos universitários que nunca obteve. Embora ele tivesse o que mamãe chamava de "uma pequena questão com a bebida", na minha cabeça papai era perfeito. Quando papai  não estava nos contando todas as coisas impressionantes que já havia feito, contava sobre as coisas maravilhosas que iria fazer. Como construir o Castelo de Vidro.
     Enquanto isso  mamãe  passava o tempo todo datilografando romances, peças e livros infantis que ela mesma ilustrava. Nunca publicou nada do que escrevia, porém de tempos em tempos recebia uma carta encorajadora de alguma editora a quem mandara seus originais para avaliação.
     Nós nos mudávamos como nômades. Quanto mais desolado e isolado era um lugar, mais mamãe e papai gostavam dele. Normalmente não passavam de um minúsculo conjunto de barracos, um posto de gasolina, um armazém e um ou dois bares. Nós contamos onze lugares onde tínhamos morado, depois nos perdemos. Não conseguíamos lembrar os nomes de algumas das cidades ou como eram as casas onde havíamos morado.
     Minha primeira memória afetiva está ligada a Batle Mountain onde nada era grande, a não ser o céu vazio e a distância de  qualquer lugar civilizado. Em vez de camas, nós, crianças, dormíamos em grandes caixas de papelão, como as que envolvem geladeiras. Gostávamos de nossas caixas. Faziam parecer que ir para a cama era uma aventura. Lori, Brian e eu, e mesmo Maureen, podíamos ir a qualquer lugar e fazer quase tudo que quiséssemos. Mamãe acreditava que crianças não deveriam carregar o fardo de muitas regras e restrições.
     A segunda cidade de que me lembro é Welch. Embora fôssemos uma das famílias mais pobres do lugar, mamãe e papai sempre recusaram caridade e nunca se inscreveram em programas de amparo social. Uma de nossas regras não ditas: sempre deveríamos imaginar que nossa vida era uma longa aventura inacreditavelmente divertida. Vivíamos com o que papai conseguia fazendo biscates.
     Na escola as outras crianças debochavam de Brian e de mim por sermos tão magros. Na hora do recreio, quando outras crianças desembrulhavam seus lanches nós íamos à biblioteca e ficávamos lendo.
     Às vezes, papai desaparecia por dias seguidos. Quando eu perguntava onde tinha estado, suas explicações eram tão vagas ou tão improváveis que eu parei de perguntar. Não tinha ideia de como minha vida seria, mas jurei que nunca seria igual a de minha mãe, que não passaria minha vida em um barraco esquecido por Deus.

     Lori decidiu que iria embora e a cidade escolhida era nada menos que Nova York. Assim que se sentisse em condições viria nos buscar, ao Brian, a mim e a Maureen para morarmos com ela. Dizia que papai e mamãe com seu jeito errante de viver haviam causado um grande mal a todos, submetendo-nos a todo tipo de dificuldades e humilhações. Assim que pode Lori cumpriu sua promessa e nos resgatou de Welch.
     A pensão em que alugou um quarto para todos nós ficava num bairro ruim, mas isso não nos incomodava; sempre havíamos morado em lugares ruins. Aos poucos as coisas foram se ajeitando. Lori arrumou um emprego de garçonete para mim no mesmo restaurante em que trabalhava como caixa, Brian arrumou emprego numa loja e nos revezávamos nos cuidados a Maureen.
     De vez em quando recebíamos notícias de Welch através de um tio: papai vivia bêbado o tempo todo; mamãe se recolhera totalmente a seu próprio mundo, certa de que alguma editora publicaria seus livros.
     Três anos depois, mamãe e papai apareceram de surpresa e anunciaram que também tinham se mudado para Nova York. Estavam morando numa pensão a alguns quarteirões da nossa. Em pouco tempo foram despejados porque viviam brigando e principalmente por falta de pagamento. Viraram sem-teto.  Depois de algum tempo vagando pelas ruas engajaram-se a um grupo que invadia prédios desocupados e conseguiram que a ocupação fosse legalizada; voltaram a ter um teto "oficial'.
     Quando me formei na faculdade, Lori e Brian haviam casado e Maureen voltara a morar com mamãe e papai. Mudei da pensão para uma quitinete. Todos os meus pertences cabiam em dois engradados plásticos de leite e um saco de lixo. Convidei mamãe e papai para visitar o apartamento. Papai nunca apareceu, mamãe perguntou, sem ironia, se eu havia me tornado republicana.
     Certa noite recebi um telefonema de mamãe. Papai estava em estado terminal devido a problemas no fígado, por excesso de bebida, pediu que fôssemos vê-lo.
     _ Nada de fungar ou chorar pelo "pobre e velho Rex"_ disse papai
        Eu anuí.
     _Mas você sempre amou seu velho, não é?
     _Amei, papai _ E você me amou.
     _Nunca construímos o Castelo de Vidro.
     _Não. Mas nos divertimos planejando.
Conversamos um pouco sobre os velhos tempos, e finalmente chegou a hora de partir. Eu os beijei e, à porta, me virei para papai mais uma vez. Apesar de todo aquele inferno, destruição e caos que ele criara em nossa vida, eu não conseguia imaginar como minha vida seria sem ele.

   Versão compacta de Castelo de Vidro de Jeanette Walls
  
    Texto criado  com frases tiradas do livro.

José Claisson Aléssio


A pensão Vauqer
     Ali reina a miséria sem poesia; quase todos apresentam rostos frios, duros, apagados como as de moedas antigas, fora de circulação. Fazem pressentir dramas vivos e mudos, dramas sem intervalo; parecem arbustos de folhas amareladas e secas, plantados em terreno impróprio, sem nenhuma chance de vingar. Comunicam-se apenas entre si, dizendo-se esses nadas no qual a bobagem entra como elemento principal. Só lhes resta então a vida mecânica, o jogo de engrenagens sem óleo, a desempenhar o papel de burros de carga do grande moinho social. Pela lógica dessas cabeças ocas, que tagarelam ninharias o tempo todo, quem não fala de suas vidas devem ter algo a esconder. Um dos mais detestáveis hábitos humanos é o de supor suas mesquinharias nos outros. Estas pessoas adotam uma ideia e não desistem dela. Só tem sede de água de uma determinada fonte e, muitas vezes, estagnada, vivem num lamaçal. Um dos traços característicos da estreiteza doente dessa gente subalterna é uma espécie de respeito involuntário, maquinal, instintivo, por qualquer senhor de castelo. O que essa pobre gente não faria em seu próprio interesse, apressa-se em cumprir assim que as palavras "sua excelência" são pronunciadas. Tais naturezas se parecem quase todas. Podem não ter dinheiro para as necessidades da vida, mas sempre encontram algum para seus caprichos. Poetizam sua existência pelo simples jogo de sua imaginação e ficam infelizes ou tristes pelo fracasso de seus projetos que só viviam em seus desejos. Quem decidirá o que é mais horrível de ver, corações ressecados ou crânios vazios?

Rastignac
     No instante em que o dinheiro se introduz no bolso de um rapaz, ele constrói em si mesmo uma coluna fantástica na qual se apoia. Caminha melhor do que antes, tem o olhar firme, direto, tem movimentos ágeis, fica espirituoso, tem respostas para todas as perguntas. Nos seus vinte e poucos anos, ainda está sob o encanto das crenças; segue sua particular tradução livre de Virgílio, dá a tudo um preço novo. Orgulhoso como um leão e doce como uma moça, torna-se uma bela presa para o diabo. Sua família continua assoprando os dedos no inverno por falta de lenha, mas Rastignac não se parece mais com ele. Seria preciso um milagre para tirá-lo do abismo em que já colocou os dois pés. A alguns dá horror, a outros piedade. Soube, então, o que é o mundo, uma reunião de simplórios e canalhas.

Vautrin
     Via a sociedade como um oceano de lama no qual um homem mergulharia até o pescoço se afundasse o pé. Em poucas palavras dizia mais sobre a virtude, ou a falta dela, do que dizem os homens e os livros. Só há dois caminhos a tomar, dizia: ou uma estúpida obediência ou a revolta. Não estou acusando os ricos em favor do povo: o homem é o mesmo em cima, embaixo, no meio. Todo mundo acredita na virtude; mas quem é virtuoso? A virtude não se fraciona; ela é ou não é. Não há princípios; há apenas acontecimentos; não há leis, há apenas circunstâncias: o homem superior soma acontecimentos e circunstâncias para conduzi-los. O sistema que sufoca a consciência, aniquila o homem e acaba,com o tempo, por adaptá-lo, como um parafuso ou uma porca, ao carrilhão da ordem social e ao jogo da máquina. Uma vez bem espremido o limão jogam a casca pela janela.

Goriot
      Nunca souberam seus parentes e alguns poucos conhecidos adivinhar nada de seus desgostos, de suas dores, suas necessidades, portanto, não adivinharam melhor a sua morte. Talvez seja até um privilégio nascer, viver e morrer sem que ninguém preste atenção na gente. De qualquer forma, preferia o seu abandono e a sua miséria a ser um destes homens fabricados pelo inferno que passam pela vida queimando os outros em fogo baixo. Seu corpo foi disposto num catre entre duas velas, naquele quarto vazio; nenhum parente, vizinho, conhecido ou padre veio juntar-se a ele. O funcionário da prefeitura se encarregou então de colocar o cadáver em um caixão de indigente. Era o enterro dos sozinhos, dos que não tem nada, nem parentes, nem amigos, nem Deus.


 Versão compacta de O Pai Goriot de Honoré de Balzac
Texto criado com frases tiras do livro