José Claisson Aléssio

          Ainda trazendo nas sandálias a poeira da longa viagem no deserto, são muitos os personagens que frequentam a tenda de Ali Kacki. Abrindo a gaveta da imaginação, preenche os vazios interiores com os recursos ao seu alcance. Histórias de que não se livra e menos ainda esquece, como se os próprios personagens assumissem o comando da ação. Não lhes pode ser infiel ou expulsá-los do inferno ou paraíso das suas histórias.

         Ali Kacki carrega o fardo de representar os párias, os vencidos, pessoas errantes que estiveram em muitos lugares apontando-lhe o fracasso das ilusões.  Pessoas que comportam-se como os falsos profetas que, buscam adivinhar o mundo, mas são incapazes de entender suas próprias vidas.

          Ali Kacki sujeita-se ao jogo ilusório do enredo como se o medo ao acorrentar-lhe os pés, lhe roubasse o gosto de caminhar pela vida. Afinal, onde mais lhe resta ir sem a sensação de já haver ali estado anteriormente? Chega ao epílogo levando dentro de si o cadáver de um homem semelhante a ele quando jovem. Para onde partir, largando atrás seus restos mortais? Sua tentativa de salvação consiste em engendrar pausas, intervalos, em defesa de sua história; a interminável caminhada do solitário herói.

 Como ser herói do próprio terror? Sobretudo agora, quando o ocaso o introduz lentamente no ritual da própria morte. Ali Kacki avança levado pela fantasia de um dia voltar a partir e esquecer o caminho de volta. Para a sua natureza a religião não constitui vocação. Não vive na esfera da fé. À frente de sua caravana, jamais aceitou ser o cordeiro resignado no altar do sacrifício.


    Versão compacta de Vozes do Deserto de Nélida Pinõn
     Texto criado com frases tiradas do livro