Durante muito tempo, com descuido e com fabulações, recusou-se a se considerar adulto. Mal começava a se habituar a sua condição de adulto e já era lançado à de velho. E eis que o seu ciclo se fechava; nem o passado nem o futuro lhe ofereciam mais um álibi.
Era um sexagenário que não havia realizado nada. As pessoas consideravam-no inteligente, mas com o passar dos anos acostumaram-se a não esperar nada dele; um desperdício, em suma. Os pontos obscuros, as dificuldades e as contradições se multiplicavam ao seu redor.
Olhou a estante: havia lido quase todos os livros que comprara durante toda a vida; mas do que ainda se lembrava? Desde quando suas palavras se embaralhavam, seus gestos se atrapalhavam? Algo travou em sua mente. Como quando se leva um choque, turvando a vista, que faz perceber duas imagens do mundo, a duas alturas diferentes, sem poder situar o que está em cima e o que está embaixo.
As duas imagens que ele tem de sua vida, do passado, do presente, não se ajustam. Há um erro em algum lugar. Condenado a ter consciência da inutilidade de sua presença, a angústia de existir se tornou mais intolerável que a morte. Refletia sobre ela com indiferença; continuar vivendo lhe parecia mais árduo que morrer.
Versão compacta de Mal-entendido em Moscou de Simone de Beauvoir
Texto criado com frases tiradas do livro