Foi em plena cidade que dei com ele, sentado num banco. Está naquele instante em que se vaga no fundo de um mundo sem bordas, em que a luz não varia e os destroços não chegam às margens.
Não há nenhuma dúvida. Sim, sou eu mesmo!
É melhor adotar a explicação mais simples, mesmo que seja pouco, mesmo que não explique grande coisa. Não responderei mais perguntas. Tentarei também não fazê-las mais. A vida não tolera o excesso de circunstância. É aí que espreita o maligno, como na prega da próstata o gonococo.
Vou me contar histórias, se puder. Não será mais o tipo de histórias de antigamente, sou pouco inclinado à nostalgia.
Sinto acumular-se aquele escuro, acomodar-se aquela solidão, nos quais me reconheço. O silêncio de fato, às vezes, é tal que a terra parece desabitada.
Há uma espécie de noite aqui comigo, noites de trezentas horas; o escuro invencível. Não é uma questão de pálpebras, é como se a alma se devesse cegar, esta alma que em vão se nega, penetrante, espreitadora, inquieta, girando na sua janela como numa lanterna na noite sem portos nem barcos, nem matéria nem entendimento.
As ideias se parecem tanto quando as conhecemos; tantos arcos e nenhuma flecha. Aliás, pouco importa se estou morto ou simplesmente morrendo, sem saber qual deva ser a minha prece, nem para quem.
Há coelhos que morrem antes de os matarem, de simples pavor. Não vou entrar em detalhes. Uma pequena sombra, em si ali na hora, não é nada. Mas conheço as sombras, elas se acumulam, se tornam mais densas, depois afogam tudo. O que se vê, o que grita e se agita, são os restos.
Mas tudo isso está fora de questão, como tantas coisas. Tudo é pretexto. Pretexto para não chegar ao ponto. Há momentos em que tenho a sensação de estar aqui desde sempre. Ou de ter voltado para cá depois de uma longa ausência. E entretanto escrevo sobre mim, com o mesmo lápis, no mesmo caderno que sobre ele. É que não sou mais eu, já devo ter dito, mas um outro cuja vida apenas termina.
Pois então, vai ser uma espécie de inventário, não de coisas; mas de ideias. Nada de discutir ninharias. Vou contar-lhes o que considero fundamental. Considero-o como se tivesse sido punido por seus próprios méritos. Pois ninguém nunca veio em seu auxílio, para ajudá-lo a evitar os espinhos e armadilhas que se alastram na vida e nunca dispôs senão de suas próprias forças e meios para ir da manhã à noite da sua existência.
Me pergunto se não é ainda de mim que se trata. Aí está de fato o tipo de história que tenho contado a mim a vida inteira. Mas digo tantas coisas a mim mesmo, o que há de verdade nesse blá-blá-blá?
Conheço essas frasezinhas que não parecem de nada e que uma vez admitidas, podem empestar toda uma vida. Saem do abismo e não param até arrastarem você para lá. Mas desta vez saberei me defender delas. Daremos as costas a essa nuvenzinha, mas ficaremos de olho nela. Ela não vai cobrir o céu à nossa revelia.
A definição talvez seja ruim, mas sem ir tão longe, quem esperou bastante vai esperar sempre, e passado um certo prazo nada mais pode acontecer, nem ninguém vir, nem haver outra coisa que não a espera sabendo-se vã. E sem saber exatamente qual o pecado sente-se muito bem que viver não é pena suficiente.
Versão compacta de Malone Morre de Samuel Beckett
Texto criado com frases tiradas do livro