Sombra: - Faz tanto tempo que não te ouço falar
Viajante: - Por todas as coisas em que não creio, minha sombra fala!
Sombra: - Algumas centenas de perguntas pesam sobre a tua alma, repousa um pouco, pobre espírito atormentado
Viajante: - Eu pensava que a sombra do homem fosse a sua vaidade, pois sabe-se que a palavra homem significa aquele que mede
Sombra: - Não te reconheces?
Viajante: - Não me sinto bem comigo mesmo. O estômago da sociedade é melhor que o meu, pois me suporta
Sombra: - Homens práticos não gostam do homem circunspecto e o consideram perigoso
Viajante: - Que me importam os homens! Que o diabo os carregue!
Sombra: - Deve-se também ser honesto com o diabo e pagar as próprias dívidas
Viajante: - Esse viajante não tem necessidade de ninguém pra refutá-lo: ele mesmo se encarrega disso
Sombra: - Prometes demais, não poderás carregar esse fardo
Viajante: - Desde toda a antiguidade se imaginou temerariamente que lá onde nada se podia garantir seria o caso de persuadir a própria descendência a admitir essas imaginações como coisa séria e verdade, usando como último triunfo dessa proposição execrável: que acreditar vale mais que saber. A fé na autoridade é a fonte da consciência: esta não é portanto, a voz de Deus no peito do homem, mas a voz de alguns homens no homem. É necessário servir-se aqui dos meios de intimidação mais espantosos, uma vez que os mais benignos não fazem efeito algum, um desses meios mais violentos é a invenção de um além como um inferno eterno. Sente-se necessidade das torturas da alma e de carrascos para executar essas torturas. O mundo não é o substrato de uma razão eterna pelo fato de a razão humana não ser muito racional. Singulares farmacêuticos da alma, tornaram a vida um veneno infecto e repugnante.
Sombra: - A alma também deve ter suas cloacas particulares por onde escorre suas imundícies
Viajante: - Muitas coisas podem servir para isso: pessoas, relações, classes sociais, pátria ou o bom Deus. Os direitos remontam geralmente a um costume, o costume a uma convenção momentaneamente estabelecida. O costume se tornou então uma coação, mesmo quando não tivesse mais a utilidade que se via primitivamente. Nisso os fracos encontraram desde sempre, sua sólida fortaleza: estão inclinados a eternizar o privilégio que lhes foi transmitido. Entreter-se com Deus, pedir-lhe mil coisas agradáveis, brincar um pouco consigo mesmo ao perceber que ainda se podia ter desejos, apesar de um pai tão perfeito. O cristianismo foi o primeiro a pintar o diabo no edifício do mundo; o cristianismo foi o primeiro a introduzir o pecado no mundo.
Sombra: - Amigo, amigo! tuas palavras, elas próprias, são palavras de um fanático!
Versão compacta de O viajante e sua sombra de Friederich Nietzche
Texto criado com frases tiradas do livro