José Claisson Aléssio

Todo o Sul estava em festa naquele verão e em nós cabia toda a ilusão do mundo.
E no fim tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances: sem aviso, sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar.
Minha vida sem ti tem sido um excesso permanente, uma avalanche montanha abaixo. Não tem havido vício que não me seduza; pecado que não me manche.
Desde então os anos passam por mim e eu não os vejo. Fico à noite a olhar estrelas e sei que tu me guardas, que perdoas os anos de ausência; todos os medos.

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A realidade é sempre traidora; o melhor é não dar-lhe tempo e traí-la antes. Assim, o que vou relatar não é o que realmente aconteceu, mas o que parece verossímil que tenha acontecido.
 Não ofereço fatos comprovados, apenas conjecturas razoáveis.
Naquele ano sua mulher o abandonara e ele abandonara sua carreira de escritor.
Os anos que se seguiram foram confusos, as versões do que se passa a seguir diferem. O fato é que nunca conseguiu acabar nada neste mundo e, deste modo melancólico e sem futuro, sempre gostou de prever a si mesmo.
É possível que a essas alturas já não acreditasse em nada. Também é possível que, em seu foro íntimo, jamais, em sua vida tenha acreditado em algo.
Hoje pouca gente se lembra dele e quem sabe ele mereça esse destino.
 Deixou um punhado de bons poemas e um punhado de boas crônicas, mas também muito menos do que exigia seu talento, que sempre foi superior à sua obra.
 Pouca gente compareceu a seus funerais.

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Desta vez não quero contar certas pesadas amarguras, só quero tomar um trago sem dizer nada.
 Meu cachorro e eu farejamos o mundo.
 Cruzamos ao longo da vida muitas ruas e muitas distâncias, sentamos sozinhos em praças lotadas. Agora regresso e bato à porta do passado.
 Sempre souberam que eu voltaria, só eu não soube.
 E não esqueci, nem morri, tudo foi crônica perdida, sonata dispersa.

Trechos do livro Figueira Torta(inédito) no capítulo sobre livros lidos num tempo em que ainda se tinha alguma ilusão. São leituras muito antigas, não lembro os nomes dos livros, nem seus autores. O modus operandi para as versões é sempre o mesmo: leitura, escolha das frases, montagem do texto.