José Claisson Aléssio

 Em uma fantasia de uma noite escura e de vendaval cheguei à vida

Desabou sobre mim um forte vento, como se sobre minha alma houvesse bruxaria 

Minhas horas de infância não foram assim como a dos outros

E tudo que eu amei, eu amei sozinho. 


A lembrança que guardo dela é a de uma ilha distante em algum mar agitado

Cidades desabitadas de um deserto, também!

O que viram em meus olhos, porque me largaram à deriva? E triste fui-me embora.

 Em menos de um dia muitos anos abandonei sentindo derreter a minha vida.


Tudo o que vejo ou suponho, não passa de um pesadelo dentro de um sonho?

De uma angústia repentina me cerquei 

Como aquela que vem quando o primeiro sonho fica perdido

Nesses casos, o céu esperança não ousa oferecer.


Minha vida ordinária repousa hora a hora diante de mim

E o que me importa resta insólito, um retrato feito após a morte

Não durará muito minha queda

Não me resta nem tempo para enlouquecer.


Chego a meu lar, não mais meu lar, ninguém a espreitar meu momento singular

Memórias amargas do passado nessas inquietas sombras em que caminho

Ouço uma voz(deliro?) que da soleira proclama: Ancião, de tolo não te chamaria. 

Visita numa hora dessas? (eu me disse!)


Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais

é só isto e nada mais

Abri então a porta, e eis que, entrou grave e nobre um corvo

Não fez nenhum cumprimento, mas com ar solene e lento, pousou e nada mais

Perguntei-lhe: Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais, diz-me qual teu nome

Disse o corvo, "Nunca mais"

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro

inda que pouco sentido tivessem palavras tais

Perdido, murmurei lento, todos já se foram amanhã também te vais

Disse o corvo"Nunca mais"

Sentei-me defronte dele, fez-se então o ar mais denso

Ave preta! Fosse o diabo ou a tempestade quem te trouxe aos meus umbrais

 A este degredo, a esta noite, dize se há um bálsamo para esta alma a quem atrais

Disse o corvo"Nunca mais"

Eu disse: Parte! Torna à noite e a tempestade! Torna às trevas infernais!

E o corvo não move-se de meus umbrais

Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais

E a minha alma dessa sombra libertar-se-a nunca mais.


Na noite em que eu me matei não houve nada de mais.



Versão compacta de O Corvo de Edgar Allan Poe a partir de uma tradução de Fernando Pessoa

Texto criado com frases tiradas do livro