Em uma fantasia de uma noite escura e de vendaval cheguei à vida
Desabou sobre mim um forte vento, como se sobre minha alma houvesse bruxaria
Minhas horas de infância não foram assim como a dos outros
E tudo que eu amei, eu amei sozinho.
A lembrança que guardo dela é a de uma ilha distante em algum mar agitado
Cidades desabitadas de um deserto, também!
O que viram em meus olhos, porque me largaram à deriva? E triste fui-me embora.
Em menos de um dia muitos anos abandonei sentindo derreter a minha vida.
Tudo o que vejo ou suponho, não passa de um pesadelo dentro de um sonho?
De uma angústia repentina me cerquei
Como aquela que vem quando o primeiro sonho fica perdido
Nesses casos, o céu esperança não ousa oferecer.
Minha vida ordinária repousa hora a hora diante de mim
E o que me importa resta insólito, um retrato feito após a morte
Não durará muito minha queda
Não me resta nem tempo para enlouquecer.
Chego a meu lar, não mais meu lar, ninguém a espreitar meu momento singular
Memórias amargas do passado nessas inquietas sombras em que caminho
Ouço uma voz(deliro?) que da soleira proclama: Ancião, de tolo não te chamaria.
Visita numa hora dessas? (eu me disse!)
Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais
é só isto e nada mais
Abri então a porta, e eis que, entrou grave e nobre um corvo
Não fez nenhum cumprimento, mas com ar solene e lento, pousou e nada mais
Perguntei-lhe: Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais, diz-me qual teu nome
Disse o corvo, "Nunca mais"
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro
inda que pouco sentido tivessem palavras tais
Perdido, murmurei lento, todos já se foram amanhã também te vais
Disse o corvo"Nunca mais"
Sentei-me defronte dele, fez-se então o ar mais denso
Ave preta! Fosse o diabo ou a tempestade quem te trouxe aos meus umbrais
A este degredo, a esta noite, dize se há um bálsamo para esta alma a quem atrais
Disse o corvo"Nunca mais"
Eu disse: Parte! Torna à noite e a tempestade! Torna às trevas infernais!
E o corvo não move-se de meus umbrais
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais
E a minha alma dessa sombra libertar-se-a nunca mais.
Na noite em que eu me matei não houve nada de mais.
Versão compacta de O Corvo de Edgar Allan Poe a partir de uma tradução de Fernando Pessoa
Texto criado com frases tiradas do livro