Kacki Aléssio, 50,autor de rádio-novelas mais popular no Sul do país, dizia-se alimentar pela morbidez do vulgo. Humorista sutil, zombava dos seus ouvintes pelas falas de seus personagens. Que eram muitos. Tinha cinco novelas no ar e nenhum ajudante, dezesseis horas por dia entre textos e ensaios. Esgotou-se, começou a misturar os personagens. Um personagem morria na novela das dez; reaparecia na das onze. A mocinha da novela das duas casava com o galã da novela das três e assim por diante. O campeão de audiência precisou de um longo intervalo no Rio Maina.
Zenaide de Tal, 32, separada, queria arranjar um novo marido. Romântica, sonhava se apaixonar por um mocinho tímido, que não a apalpasse, que a tratasse como uma menina de primeira comunhão. Gostava dos dramalhões cheios de proparoxítonas e gerúndios de Kacki Aléssio, não perdia um capítulo.
***
Pedem que eu diga quem sou. Reconheço que sou burro e desgraçado. Melhor que pedante e sem graça. Mas não sou Kacki Aléssio, o personagem mais famoso de seu autor.Nunca, nem nas situações mais bizarras, perdi o senso de humor. Mas alguém estava me sacaneando.
Em outras palavras, minha vida ao entrar no reino do obscuro ficou, paradoxalmente, mais divertida.
Lembro que comecei a tomar gosto pela rua, me tornei um vagabundo interessante que fingia estar louco, o que me era muito rentável já que as pessoas se apiedavam de mim e me davam dinheiro.
Minha loucura consistia em ir por toda a cidade com uma vareta açoitando o chão em ritmo frenético. Era fantástico poder ganhar a vida com o teatro da rua.
Levei um susto quando vi em uma banca a minha foto embaixo da manchete:
Homem morre quando se preparava para o suicídio.
***
Sou Kacki Aléssio. Matei Zenaide de Tal. Depois sonhei que caminhava pelo telhado sem fim de uma catedral. Minha cabeça é um labirinto escuro. Às vezes, há raios que iluminam alguns corredores. Em outros momentos o luar atravessa as nuvens negras. Sente-se o calor estático e ameaçador que precede as violentas tempestades de verão. A tormenta vive sobre mim rasgada por relâmpagos e trovões. E eu me vejo numa cidadezinha do Sul e era como se eu e Zenaide vivêssemos em corredores ou túneis paralelos, sem saber que íamos um ao lado do outro.
Deixemos de lado as considerações de forma, o que me interessa é o conteúdo.
Direi, antes de mais nada, que o amor anônimo que alimentara durante anos de solidão se concentrara em Zenaide. Ela fora o último barco que podia me resgatar de minha ilha deserta, mas passou ao largo sem avistar meus sinais de desamparo.
_ O que você vai fazer?
_ tenho que matar você, Zenaide. Você me deixou sozinho.
… em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu.
***
Como o coronel de Passo do Sertão aguardo notícias que nunca chegarão. Distraio-me observando aos outros e assim vivo sem originalidade, resignando-me a uma poesia ocasional; equilibrando-me, sem sombrinha, no arame da minha vida perante um público indiferente. Estou num desses momentos em que tudo se torna obsoleto, uma espécie de extrema-unção antecipada.
Entre perífrases e hipérboles invento angústias e personagens. Não é o melhor dos mundos, mas é melhor que ficar preso num intelecto de dois cômodos. Há travessias que só se podem efetuar sozinho. Se calhar, isto é a vida. Mas não penso em ti. Palavra de honra que não penso em ti.
***
Este mundo se divide em moscas e aranhas. Tratemos de ser aranhas que comem as moscas enquanto na surpresa final do conto o demônio toca violino para os condenados. Como sempre ocorre, nos encontramos atores e espectadores, no meio da tragédia, atordoados como morcegos batendo contra paredes.
*Trechos do livro Figueira Torta(inédito) no capítulo de plágios, sobre livros e autores diversos