José Claisson Aléssio

  Pyle, por várias vezes, parecia se encolher dentro de si mesmo. Pertencia a um mundo psicológico de grande simplicidade, sua conversa nunca dobrava uma esquina; expressar-se não era um dos seus dons. Nossas conversas sempre tomavam direções bizarras.

 Sua armadura de boas intenções e ignorância era inexpugnável. Era de se apegar a uma ideia e então alterar toda situação para se adequar a ela; teria dado um bom padre. Peguei-me, algumas vezes, invejando seu mundo esterilizado, tão diferente daquele que eu habitava.

 Talvez eu devesse ter percebido o brilho do fanatismo, quem sabe teria poupado todos nós de um bocado de problemas. Deus nos livre, sempre, dos inocentes e dos bons.

  Pyle tinha passagem de ida e volta. Com uma passagem dessas a coragem se torna um exercício intelectual, como um monge se flagelando. "Quantas eu aguento"? Esses pobres diabos, que lutam por seus senhores, não podem pegar um avião e voltar para casa.

 A Indochina é como a Europa na Idade-Média; uma terra de barões rebeldes (em cada canto um exército particular), às sombras são teatrais, podem ser confundidos com companhias de atores mambembes; exceto pela selvageria

. Isso tem sido um artigo de meu credo. Sendo a condição humana como é, deixe que lutem, deixe que se matem.

  De repente me vi como Pyle me via, um homem quase velho; quando dez anos se tornam uma grande proporção do que resta.

 Pensei, depois que se virou e partiu, que me olhava com certa compaixão, como teria olhado para um prisioneiro, por cuja captura tivesse sido o responsável, um prisioneiro que cumprisse sua pena perpétua.

 Era estranho aquele primeiro regresso a Saigon sem ninguém para me dar as boas-vindas. Disse a mim mesmo que não faria a menor diferença, afinal. Subi a escada com destino a meu quarto vazio e a torneira pingando. Toda vez que voltava era com a expectativa de um desastre. Dava a sensação que ficaria ali por poucas horas, que estava de passagem, sem pertencer ao lugar; como uma borboleta em um quarto.

 Mesa para um? Foi então, pela primeira vez, que pensei no futuro e nas perguntas que teria de responder. Só um eu disse, e foi quase como se dissesse, estou morto. ou será que eu - logo eu!- esperava algum tipo de milagre?

 Não era minha guerra, mas eu queria que aqueles sujeitos nos arrozais à beira da estrada acertassem o alvo. Prendi a respiração e rezei para um Deus em que não acreditava: Permita que eu morra. ,Se ao menos Pyle tivesse me abandonado, eu seria responsável só por minha própria vida - não pela dele e ele queria viver.

 "Não banque a droga do herói, Pyle. Com os diabos, quem foi que pediu para salvar minha vida? Não somos fuzileiros americanos e você não vai ganhar uma condecoração de guerra".

 Fechei os olhos e tentei me imaginar em outro lugar. Imaginei se haveria uma carta à minha espera. Mas minha razão me diz que é melhor morrer assim. Foi pra isso que vim pro Oriente.

 Acha que o camponês fica sentado pensando em Deus quando entra em sua cabana de barro à noite? Ele será levado a acreditar no que lhe for dito, não terá liberdade de pensar por si mesmo; pensar é um luxo. Há um bocado de auto-hipnose em torno do assunto. O raciocínio humano opera da seguinte forma: Pesemos o ganho e a perda. Apostando na crença de que Deus exista estimamos as duas possibilidades - "Se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis".

 Talvez se eu quisesse ser entendido, ou entender, eu me iludisse com alguma crença, mas sou um repórter. A função do repórter é registrar e expor. Nunca em minha carreira constatei o inexplicável; não há visões ou milagres em meu repertório de recordações. A morte é o único valor absoluto em meu mundo. Perca-se a vida e nada mais haverá para ser perdido, por todo o sempre. Deus existe apenas para editorialistas.

 Versão compacta de O americano tranquilo de Graham Greene

  Texto criado com frases tiradas do livro