José Claisson Aléssio

       Não foi a luta das opiniões que tornou a história tão violenta, mas a luta da fé nas opiniões, isto é, nas convicções. Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento, de posse da verdade absoluta. As convicções são inimigas das verdades, mais perigosas que as mentiras. Tal como não há verdades absolutas, não há realidades eternas. Quem vê pouco, sempre vê sempre muito pouco; quem ouve mal ouve sempre alguma coisa a mais. Uma só coisa é necessário ter: um espírito livre por natureza ou tornado livre pela arte e pela ciência. O "espírito livre" procura razões, os outros, uma crença.  Mas pode-se encontrar para cada um uma isca que queira morder. Passa-se com o crente o mesmo que ocorre com Don Quixote que subestima sua própria valentia porque tem em mente os feitos prodigiosos dos heróis de cavalaria.  

      A humanidade, ainda rudimentar, ao sonhar; julgou ter descoberto um segundo mundo real. Nele os mortos reaparecem vivos e a partir daí este cérebro em formação, passou a crer em espíritos, que evidente, não tinham esta denominação, e mais tarde, com a civilização um pouco mais avançada; em deuses. Em seu modo arcaico de raciocinar, o humano em formação, confunde as coisas em razão das mais fugazes semelhanças  A propósito de uma coisa inexplicada, se entusiasmam pela primeira fantasia que lhes passa pela cabeça e que se assemelha com uma explicação, e a partir daí os povos criaram as suas mitologias. Na base de toda crença encontra-se a sensação do agradável e desde a antiguidade a crença em coisas está incorporada em nosso ser. Na Índia, um carpinteiro costuma oferecer sacrifícios a seu martelo; um brâmane, trata de igual modo o lápis com que escreve; um trabalhador rural, seu arado. Em suma, o culto religioso reside na representação de magia dos homens entre si, e o feiticeiro é mais antigo que o sacerdote. A fome não prova que haja um alimento para saciá-la, mas deseja o alimento: assim o homem criou todos os deuses. 

      O que denominamos "vida" é o resultado de uma quantidade de erros e de fantasias que surgiram aos poucos na evolução, se entrelaçaram uns aos outros e nos foram transmitidos como herança. Somos por destino seres ilógicos e, por isso, esta é uma das maiores e das mais insolúveis desarmonias da existência. Pessoas para quem sua vida parece demasiado vazia e não encontram um sentido para ela, se tornam facilmente religiosas: isso é compreensível e perdoável.  Na mitologia grega, Zeus queria que o homem não rejeitasse a vida. Para isso lhe dá a esperança: na verdade ela prolonga o sofrimento dos homens.  O gnomo malvado da inquietude lhe salta as costas quando já tem outros pesos a carregar. Que Deus você frequenta? Parece que ele não está lhe fazendo bem. Qual é o ser pensante que ainda precisa  da hipótese de um Deus?

Versão compacta de Humano, demasiado humano de Friederich Nietzche

Texto criado com frases tiradas do livro