O autor deste erudito livro foi sempre ambiciosa pena. Depois de ter viajado com as minhas letras pelo interior do meu quarto, resolvi imortalizar-me ao torná-las públicas ao mundo neste ano da graça de 1893. Estas minhas letras pretendem ser uma obra-prima de pensamentos novos, uma obra digna do século. Estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro. Não concebem um escritor elegante, cheio de graça e de talento? Esse cara sou eu. Não chamem de exagero ao que vai escrito aqui. Eu darei sempre o primeiro lugar à modéstia. O que poderá haver é desacerto nas palavras. Sem perder a minha natureza de planta estrangeira quero contar-te a minha história: verás nela o que vale um homem. É a ti que escrevo.
Uma velha brízida que eu tive, quando era pequeno, era famosa cronista de histórias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Para tudo é preciso ter fé neste mundo, é preciso crer em alguma coisa para ser grande. O falso Deus adora o verdadeiro! Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com elas. A mim, pobre homem, o que lhe fica para crer? Eu, apesar dos críticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.
Falemos noutra coisa: fujamos depressa deste monturo. Acha-se desapontado o leitor com a prosaica sinceridade destas letras? Digo-lhe que o entusiasmo da multidão é sempre vazio. Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. É a literatura que é uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances, fé nos artigos de jornal. Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico? A minha opinião sincera é que o leitor deve saltar estas folhas.
O coração humano é como o estômago de todos os bichos, não pode estar vazio, precisa sempre de alimento. Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós somos. Todo drama e todo romance precisa de: uma ou duas damas; um pai; dois ou três filhos; um amigo; um monstro encarregado de fazer maldades; alguns tratantes; e várias pessoas da sociedade que servem apenas para aumentar o número de páginas. Forma-se com elas os grupos e situações que lhe parece, não importa que sejam mais ou menos disparatados. E aqui está como nós fazemos nossa literatura original.
O erudito e amável leitor escapará desta vez deste enredo. Não senhor, não é o meu gênero esse. Ora, eu filósofo seguramente não sou, já o disse, de poeta tenho o meu pouco. E sei que não me enganam poesias. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como as que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências.
Ó nação de bárbaros. Ó maldito povo de iconoclastas que é este. Ó gente cega a quem Deus quer perder.
E aonde irei eu? Ao inferno? Este capítulo não terá divagações, nem reflexões. Nem tampouco será feio como o pecado, elegante como o bugio. Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores deste mundo.
O homem é o animal mais absurdo, e mais disparatado e incongruente que habita a terra. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?
Dorme pois, e não despertes do belo ideal da tua lógica. Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando não sei explicar os fenômenos por outro modo. Porém, não há alma, não há gênio, não há espírito nas massas simplórias e sem elegância.
Por que será que aqui não sinto senão tristezas? Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam. Admirável condição da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe.
Lutam no ser de cada um o Sancho Pança da carne com o Dom Quixote do espírito. Quantas almas é preciso dar ao diabo? Não tenho esperanças de saber nada disso aqui. Só o eco morto da solidão responde tristemente às minhas perguntas. Sim, aqui tenho estado estendido no chão. E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Notável combinação do acaso! Infeliz do que chegou a esse estado!
Trata-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu diante de si, o que não a invocou ainda como único remédio de seu mal, ou, o que mais desesperado, como única saída de suas fatais perplexidades. E acabou a história.
Nota do editor: A seguir algumas frases soltas que não consegui encaixar no resumo :
Quem tem uma ideia fixa em tudo a mete.
Não foi porém senão um relâmpago.
A modéstia contudo quando é excessiva...
Não quero perder esta última ilusão, já não tenho outra.
Vês que confesso a dúvida, verás como a paguei.
Versão compacta de Viagens na minha terra de Almeida Garret
Texto criado com frases tiradas do livro.