Sabe o diabo o que o hábito pode fazer com uma pessoa. Exagero tudo e é aí que eu me complico. Ou herói ou lixo, não há meio termo para mim. Foi isso que me arruinou, pois, no lixo eu me consolava por ter sido herói em outra época. Embora a vida resulte, amiúde, em porcaria, mesmo assim é vida, e não apenas extração de raiz quadrada. Ela não cabe, portanto, em fórmulas simples e sistemas prontos.
Assim, o que se pode esperar de um homem, essa criatura dotada de qualidades tão estranhas?
O homem adora criar e abrir estradas, e não só no sentido literal.
Suponhamos que o homem sacrifique a vida em busca da verdade, mas meu Deus, como ele teme encontrá-la.
No que tange à minha opinião pessoal, gostar só da prosperidade chega a ser indecoroso. Aniquilem meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me algo melhor e os seguirei. Não me envergonho da minha pobreza. Pelo contrário, encaro-a com orgulho. Um romance, filme, ou novela, precisa de heróis; trago em mim deliberadamente reunidos todos os traços do anti-herói. Por causa deles, muitos dos meus pecados serão perdoados.
Juro-lhes que ser consciente demais é uma doença. Por mais que rumine, sou sempre o primeiro entre os culpados e, ainda mais, culpado sem culpa. Em primeiro lugar, sou culpado por ser o mais inteligente entre todos que me rodeiam. Porém, é muito melhor compreender tudo, reconhecer tudo, todas as impossibilidades e muros de pedra.
Claro que minhas piadas são de mau gosto, irregulares, atabalhoadas, sem confiança. Mas isso é por que não tenho respeito por mim mesmo. Por acaso uma pessoa consciente pode ter algum respeito por si mesma?
Vivo no meu canto, provocando-me com o consolo raivoso e sem serventia nenhuma de que um homem inteligente não pode se tornar nada a sério, e que só o estúpido vira alguma coisa. É possível que eu só me considere uma pessoa inteligente por, durante a vida inteira, não ter conseguido nem começar, nem terminar nada. Mas o que fazer, se o destino patente e único de todo homem inteligente é a transferência intencional do deserto para o vazio?
Ao terminar os estudos mudei de cidade e obviamente não mantive amizades. Além da leitura, não havia para onde ir, ou seja, não havia nada ao meu redor que eu pudesse admirar e que me atraísse. Já então eu trazia o subsolo na alma. Outra circunstância ainda me atormentava: justamente que ninguém parecia comigo, e eu não me parecia com ninguém. Sou sozinho e eles são todos; pensava.
Tinha um medo doentio de ser ridículo. Eu me acostumava a tudo, ou seja, não exatamente acostumava, mas como que concordava de bom grado a suportar. Desejava tranquilidade, desejava ficar sozinho no subsolo. Do que tinha vergonha? Não sei, mas tinha vergonha. Como se levasse algum crime na alma. E para que me deixassem só, seria capaz de vender o mundo todo por um copeque.
Versão compacta de Memórias do Subsolo de Fiódor Dostoiévski
Texto criado com frases tiradas do livro