Na ilha vivem os hóspedes de um manicômio abandonado. Por instantes sou o diretor, em outros seu único interno (não usarei o termo "louco"). Tento encontrar um modo de sair da ilha, mas encontro aquela resistência, como um peso, que nos impede de escapar durante os pesadelos. Quando consigo acordar estou, de fato, numa ilha; aparentemente sozinho. Os penhascos, o mar, parecem trêmulos. Ouço o mar com seu movimento de ruído e fadiga; a meu lado, como se tivesse vindo por-se a meu lado.
Minha vida teve momentos em que os heróis reconheceriam o medo. Acho que agora mesmo não estariam tranquilos. Por frestas de pensamentos, tive saudade de antes, de quando estava sem esperanças. Mas o que mais me apavora é a sensação de estar num lugar encantado e a confusa revelação de que a magia aparece aos incrédulos, para se vingar.
Agora a realidade se me apresenta alterada, irreal. Como um impostor que tivesse levado a farsa longe demais pensava ter feito a seguinte descoberta: minha vocação é o pranto e o suicídio. Considero que esse pensamento é um vício: se o escrevo, é para fixar seus limites, para ver que não tem encanto, para abandoná-lo. Talvez minha ideia, uma vez escrita, perca a força.
Tudo o que tenho escrito - com esperanças ou com temor, de brincadeira ou à sério - me mortifica. Penso que minha presença neste mundo aborrece a todos, como uma piada que já teve certa graça e que alguém teima em repetir. Tratarei de que não se repita. Estar morto! Resta este caminho.
Ou, então, seguir a tradição dos solitários, dar-se por morto para não morrer.
Versão compacta de A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares
Texto criado com frases tiradas do livro