José Claisson Aléssio

      Kackynstown localiza-se numa região inglesa próxima às terras baixas da Escócia que os habitantes do lugar jocosamente denominam de "uma vila no meio do nada, ao caminho do fim de tudo". Por inóspito que seja o lugar, viajantes e funcionários do governo dirigindo-se às terras altas tem passagem obrigatória por lá, posto que a estrada que passa pelo vilarejo é a única da região.

     Quando há tempestades de neve ou até mesmo nevascas fortes é comum a estrada ficar parcialmente, ou até mesmo totalmente obstruída. Nesses casos as pessoas em trânsito são abrigadas por moradores em suas próprias casas por dias e até mesmo semanas.

     Diante disso, Molly Daves, recém-casada com Giles, tendo herdado uma propriedade de seu tio que morrera na guerra, pensou em abrir uma hospedaria.

                            I - Introdução

                           II - Sobre os livros policiais

                           III - Perfil do suspeito número um(fortemente suspeito)

                           IV - Perfil do suspeito número dois(ligeiramente suspeito)

                           V - O detetive perspicaz

                            VI - O desfecho surpreendente 

                                                            I

      O livro é composto por nove contos, eu diria que banais, comuns. Por óbvio, em todos há pelo menos um crime, surgem alguns suspeitos, ou com atitudes suspeitas, e na sequência o detetive sagaz. Sendo assim, transformei o livro num único conto, selecionando frases de todos eles. Se o resultado ficar muito longe do que se costuma ler em livros deste gênero, declaro desde já a inocência da autora e nem precisaremos de muita argúcia para encontrarmos o culpado de tamanha incúria.

                                                           II

     A psicologia do medo deve ser totalmente compreendida. Suponhamos que você está sozinha numa sala. Uma porta se abre  às suas costas. E, de repente, morte. Assassinato? Em nome de Deus, porque?  A vida é muito incerta. Não se pode ter um assassinato, ou mesmo morte natural, sem um motivo. 

    Foi o começo de um capítulo de catástrofes. Revelações interessantes se seguiram. É curioso como a pessoa mais inteligente não atenta para detalhes. É difícil de explicar, mas quando a gente tropeça em uma coisa peculiar a gente nota, embora, com frequência, as coisas peculiares possam ser as mais banais.  Não foi nenhuma particular esperteza de minha parte. 

    As pistas são como tiros no escuro, que muitas vezes não acertarão o alvo.  Há sempre uma pegadinha em algum lugar. Na verdade, há uma encenação deliberada de farsa, é tudo uma enfiada de mentiras. E linguagem refinada  em demasia também. A linguagem refinada ajuda a ocultar a confusão. Como um molho bem condimentado ajuda a ocultar o fato de que o peixe embaixo dele já esteve em melhor forma. 

     O fato é que a mulher havia morrido. E estava limpa e ordeiramente morta. Em outras palavras, o peixe estragado fora coberto com molho! Era molho demais, mal dava para enxergar o peixe.

                                                             III 

    Quando o recebeu em sua hospedaria, Molly Daves não gostou do modo como ele a olhou, um demorado olhar de avaliação. Havia algo de incômodo, incomum naquele olhar. Ele a fitava lubricamente, como um velho sátiro. Ele põe coisas na cabeça da gente, pensou; sugerindo coisas, insinuando coisas, pondo pensamentos horríveis em nossa mente, pensamentos que não estavam lá, coisas que não são verdade, que não podem ser verdade.  "É isso que o torna tão deliciosamente macabro. Uma mentalidade esquizofrênica é muito interessante. É exatamente o que ele é. Uma piada de louco". Fez uma pausa como se tivesse feito uma consideração sutil. 

                                                            IV

     O vizinho mais próximo da hospedaria é um velhote excêntrico que vivia sozinho em uma velha casa. Suas roupas são um tanto horríveis, antiquadas e vestidas de qualquer jeito, e mesmo assim ele tem uma espécie de empáfia, como se fosse alguém! É quieto, até mesmo taciturno, nunca vai além do bom dia, ou boa noite, fazendo o melhor que pode para ser cordial. Parece um visitante de outro mundo carregando seus próprios e indefinidos sofrimentos.

                                                            V

    Todos os homens se parecem em seus uniformes de civilização.   Tenho a mania, eu sei, de sair pela tangente. Ocorre que vivendo numa cidadezinha como esta, a gente acaba conhecendo bem a natureza humana. Eu sempre acho que as explicações devem ser deixadas para o fim, aquele excitante capítulo final, vocês sabem.

     Boas aparências são propensas a influenciar mais do que deveriam e a fortuna costuma impedir a pessoa de ter contato com a realidade. É preciso ser ágil como um gato escaldado verificando tudo ao mesmo tempo.

     De um modo geral as pessoas tem mentalidade abjeta. Quando se  fala com elas, sente-se que não se pode confiar em ninguém, ninguém mesmo. Boa parte da lama que falam eles simplesmente inventam. Há nelas algo de astuto e dissimulado, mas suas histórias são bastante simples. É preciso ser firme com esse tipo de gente. 

    A verdade  é que ele se parecia com qualquer um. Exatamente com qualquer um. Ele tinha voz aguda, quase lamurienta e olhos irrequietos, não era um homem fácil de classificar. Ria de maneira desagradável. Ingressou no exército aos dezoito anos, logo depois desertou. Foi dado como desaparecido, perambulou por vários países. Voluntarioso, o típico lunático sussurrante que causa um peculiar fascínio nas mulheres.  Basta olhar para ele. Culpado até os ossos.

                                                           VI

     O noticiário consistia principalmente de previsões sombrias sobre o tempo. A neve havia se acumulado até a altura de um metro e meio, bloqueando portas e janelas. E aí, de repente, ficou tudo escuro. Sua vida inteira naquele momento parecia irreal.  Molly Daves se lembrou de vários rumores, insinuações, fofocas estranhas. Fragmentos de conversas chegaram até ela, ( é por isso que temos um sentimento permanente de culpa).  Mas por que? Qual seria a razão de tudo aquilo? Onde estava a armadilha? Pois havia uma armadilha, disso eu tinha certeza.

     Os hóspedes tinham relações muito distantes entre si porque não tinham nada em comum. Eles marcharam quase como numa procissão para a porta da sala de estar. Houve um silêncio. Foi, de certo modo, um silêncio incômodo. Parecia haver três pessoas culpadas na sala, em vez de uma culpada e duas inocentes.

     Não seria bom assobiar aquela melodia naquele momento. A melodia continha um significado muito preciso, "três ratos cegos"... era essa! A melodia entrou na minha cabeça. Era uma cantiga estranhamente assustadora e repulsiva. Pensando bem, é uma cantiga sinistra.

     Quer mais tempo para pensar numa boa história?


    Versão compacta de Três ratos cegos e outros contos de Agatha Christie

     Texto criado com frases tiradas do livro e alguns cacos do versionista