A infância é o chão sobre o qual caminhamos o resto dos nossos dias. Ainda que as pessoas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja aquele. A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as paredes: haverá paredes frágeis, cálculos mal feitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço vai desabar.
Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, mas somos inocentes das fatalidades e acasos. As ferramentas para executarmos a tarefa de viver podem ser precárias. Escolhemos algo do roteiro, desenhamos alguma coisa nas margens. Podemos - tarefa ingrata - fazer nossos acréscimos, escrever uma "errata" sobre o texto daquele prefácio de nós. Somos nossa anistia ou nossa aniquilação; vestidos com nossas circunstâncias seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro.
Nisso reside nossa possível tragédia. Carregamos muito peso inútil, largamos no caminho objetos que poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Nosso patético reino da futilidade propõe a semeadura de uma vegetação rasteira de tolices. Não acredito em poses e posturas. Não acho que todos devêssemos ser filósofos, eremitas ou fanáticos de nenhuma religião.
Como invento histórias, gosto de fábulas - o essencial não tem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um. Somos a nossa ficção.
Versão compacta de Perdas e Danos de Lya Luft