Um dia em que tive um grande desgosto, deitei-me para dormir sem saber como seria a minha vida para diante. Quando acordei, olhei-me ao espelho e vi, espantado, que duas grandes rugas me tinham nascido nessa noite, junto aos olhos.
Não estavam lá antes de eu me ter deitado na véspera, mas agora estavam, nítidas e verdadeiras. E habituei-me às rugas, conformei-me com o tempo que passa. Às vezes, lá onde eu moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso.
E às vezes, nesse terraço onde vejo e oiço as estrelas, onde escuto e aceito a ampulheta da minha vida, acendo um lume, com os galhos e ramos secos que fui colhendo durante o dia, ao passear pela paisagem.
E, às vezes também, quando então percebo que tudo está em paz e faz sentido, falo com a tua estrela, sei que tu me guardas e vigias, que perdoas todos estes anos de silêncio e irreparáveis ausências.
Versão compacta de No teu deserto de Miguel Souza Tavares
Texto criado com frases tiradas do livro