A pensão Vauqer
Ali reina a miséria sem poesia; quase todos apresentam rostos frios, duros, apagados como as de moedas antigas, fora de circulação. Fazem pressentir dramas vivos e mudos, dramas sem intervalo; parecem arbustos de folhas amareladas e secas, plantados em terreno impróprio, sem nenhuma chance de vingar. Comunicam-se apenas entre si, dizendo-se esses nadas no qual a bobagem entra como elemento principal. Só lhes resta então a vida mecânica, o jogo de engrenagens sem óleo, a desempenhar o papel de burros de carga do grande moinho social. Pela lógica dessas cabeças ocas, que tagarelam ninharias o tempo todo, quem não fala de suas vidas devem ter algo a esconder. Um dos mais detestáveis hábitos humanos é o de supor suas mesquinharias nos outros. Estas pessoas adotam uma ideia e não desistem dela. Só tem sede de água de uma determinada fonte e, muitas vezes, estagnada, vivem num lamaçal. Um dos traços característicos da estreiteza doente dessa gente subalterna é uma espécie de respeito involuntário, maquinal, instintivo, por qualquer senhor de castelo. O que essa pobre gente não faria em seu próprio interesse, apressa-se em cumprir assim que as palavras "sua excelência" são pronunciadas. Tais naturezas se parecem quase todas. Podem não ter dinheiro para as necessidades da vida, mas sempre encontram algum para seus caprichos. Poetizam sua existência pelo simples jogo de sua imaginação e ficam infelizes ou tristes pelo fracasso de seus projetos que só viviam em seus desejos. Quem decidirá o que é mais horrível de ver, corações ressecados ou crânios vazios?
Rastignac
No instante em que o dinheiro se introduz no bolso de um rapaz, ele constrói em si mesmo uma coluna fantástica na qual se apoia. Caminha melhor do que antes, tem o olhar firme, direto, tem movimentos ágeis, fica espirituoso, tem respostas para todas as perguntas. Nos seus vinte e poucos anos, ainda está sob o encanto das crenças; segue sua particular tradução livre de Virgílio, dá a tudo um preço novo. Orgulhoso como um leão e doce como uma moça, torna-se uma bela presa para o diabo. Sua família continua assoprando os dedos no inverno por falta de lenha, mas Rastignac não se parece mais com ele. Seria preciso um milagre para tirá-lo do abismo em que já colocou os dois pés. A alguns dá horror, a outros piedade. Soube, então, o que é o mundo, uma reunião de simplórios e canalhas.
Vautrin
Via a sociedade como um oceano de lama no qual um homem mergulharia até o pescoço se afundasse o pé. Em poucas palavras dizia mais sobre a virtude, ou a falta dela, do que dizem os homens e os livros. Só há dois caminhos a tomar, dizia: ou uma estúpida obediência ou a revolta. Não estou acusando os ricos em favor do povo: o homem é o mesmo em cima, embaixo, no meio. Todo mundo acredita na virtude; mas quem é virtuoso? A virtude não se fraciona; ela é ou não é. Não há princípios; há apenas acontecimentos; não há leis, há apenas circunstâncias: o homem superior soma acontecimentos e circunstâncias para conduzi-los. O sistema que sufoca a consciência, aniquila o homem e acaba,com o tempo, por adaptá-lo, como um parafuso ou uma porca, ao carrilhão da ordem social e ao jogo da máquina. Uma vez bem espremido o limão jogam a casca pela janela.
Goriot
Nunca souberam seus parentes e alguns poucos conhecidos adivinhar nada de seus desgostos, de suas dores, suas necessidades, portanto, não adivinharam melhor a sua morte. Talvez seja até um privilégio nascer, viver e morrer sem que ninguém preste atenção na gente. De qualquer forma, preferia o seu abandono e a sua miséria a ser um destes homens fabricados pelo inferno que passam pela vida queimando os outros em fogo baixo. Seu corpo foi disposto num catre entre duas velas, naquele quarto vazio; nenhum parente, vizinho, conhecido ou padre veio juntar-se a ele. O funcionário da prefeitura se encarregou então de colocar o cadáver em um caixão de indigente. Era o enterro dos sozinhos, dos que não tem nada, nem parentes, nem amigos, nem Deus.
Versão compacta de O Pai Goriot de Honoré de Balzac
Texto criado com frases tiras do livro