José Claisson Aléssio

Papai era um grande contador de histórias. Mamãe gostava de dizer que papai era capaz de falar sem parar contando histórias de empregos que nunca teve ou títulos universitários que nunca obteve. Embora ele tivesse o que mamãe chamava de "uma pequena questão com a bebida", na minha cabeça papai era perfeito. Quando papai  não estava nos contando todas as coisas impressionantes que já havia feito, contava sobre as coisas maravilhosas que iria fazer. Como construir o Castelo de Vidro.
     Enquanto isso  mamãe  passava o tempo todo datilografando romances, peças e livros infantis que ela mesma ilustrava. Nunca publicou nada do que escrevia, porém de tempos em tempos recebia uma carta encorajadora de alguma editora a quem mandara seus originais para avaliação.
     Nós nos mudávamos como nômades. Quanto mais desolado e isolado era um lugar, mais mamãe e papai gostavam dele. Normalmente não passavam de um minúsculo conjunto de barracos, um posto de gasolina, um armazém e um ou dois bares. Nós contamos onze lugares onde tínhamos morado, depois nos perdemos. Não conseguíamos lembrar os nomes de algumas das cidades ou como eram as casas onde havíamos morado.
     Minha primeira memória afetiva está ligada a Batle Mountain onde nada era grande, a não ser o céu vazio e a distância de  qualquer lugar civilizado. Em vez de camas, nós, crianças, dormíamos em grandes caixas de papelão, como as que envolvem geladeiras. Gostávamos de nossas caixas. Faziam parecer que ir para a cama era uma aventura. Lori, Brian e eu, e mesmo Maureen, podíamos ir a qualquer lugar e fazer quase tudo que quiséssemos. Mamãe acreditava que crianças não deveriam carregar o fardo de muitas regras e restrições.
     A segunda cidade de que me lembro é Welch. Embora fôssemos uma das famílias mais pobres do lugar, mamãe e papai sempre recusaram caridade e nunca se inscreveram em programas de amparo social. Uma de nossas regras não ditas: sempre deveríamos imaginar que nossa vida era uma longa aventura inacreditavelmente divertida. Vivíamos com o que papai conseguia fazendo biscates.
     Na escola as outras crianças debochavam de Brian e de mim por sermos tão magros. Na hora do recreio, quando outras crianças desembrulhavam seus lanches nós íamos à biblioteca e ficávamos lendo.
     Às vezes, papai desaparecia por dias seguidos. Quando eu perguntava onde tinha estado, suas explicações eram tão vagas ou tão improváveis que eu parei de perguntar. Não tinha ideia de como minha vida seria, mas jurei que nunca seria igual a de minha mãe, que não passaria minha vida em um barraco esquecido por Deus.

     Lori decidiu que iria embora e a cidade escolhida era nada menos que Nova York. Assim que se sentisse em condições viria nos buscar, ao Brian, a mim e a Maureen para morarmos com ela. Dizia que papai e mamãe com seu jeito errante de viver haviam causado um grande mal a todos, submetendo-nos a todo tipo de dificuldades e humilhações. Assim que pode Lori cumpriu sua promessa e nos resgatou de Welch.
     A pensão em que alugou um quarto para todos nós ficava num bairro ruim, mas isso não nos incomodava; sempre havíamos morado em lugares ruins. Aos poucos as coisas foram se ajeitando. Lori arrumou um emprego de garçonete para mim no mesmo restaurante em que trabalhava como caixa, Brian arrumou emprego numa loja e nos revezávamos nos cuidados a Maureen.
     De vez em quando recebíamos notícias de Welch através de um tio: papai vivia bêbado o tempo todo; mamãe se recolhera totalmente a seu próprio mundo, certa de que alguma editora publicaria seus livros.
     Três anos depois, mamãe e papai apareceram de surpresa e anunciaram que também tinham se mudado para Nova York. Estavam morando numa pensão a alguns quarteirões da nossa. Em pouco tempo foram despejados porque viviam brigando e principalmente por falta de pagamento. Viraram sem-teto.  Depois de algum tempo vagando pelas ruas engajaram-se a um grupo que invadia prédios desocupados e conseguiram que a ocupação fosse legalizada; voltaram a ter um teto "oficial'.
     Quando me formei na faculdade, Lori e Brian haviam casado e Maureen voltara a morar com mamãe e papai. Mudei da pensão para uma quitinete. Todos os meus pertences cabiam em dois engradados plásticos de leite e um saco de lixo. Convidei mamãe e papai para visitar o apartamento. Papai nunca apareceu, mamãe perguntou, sem ironia, se eu havia me tornado republicana.
     Certa noite recebi um telefonema de mamãe. Papai estava em estado terminal devido a problemas no fígado, por excesso de bebida, pediu que fôssemos vê-lo.
     _ Nada de fungar ou chorar pelo "pobre e velho Rex"_ disse papai
        Eu anuí.
     _Mas você sempre amou seu velho, não é?
     _Amei, papai _ E você me amou.
     _Nunca construímos o Castelo de Vidro.
     _Não. Mas nos divertimos planejando.
Conversamos um pouco sobre os velhos tempos, e finalmente chegou a hora de partir. Eu os beijei e, à porta, me virei para papai mais uma vez. Apesar de todo aquele inferno, destruição e caos que ele criara em nossa vida, eu não conseguia imaginar como minha vida seria sem ele.

   Versão compacta de Castelo de Vidro de Jeanette Walls
  
    Texto criado  com frases tiradas do livro.