José Claisson Aléssio

Minha bisavó faleceu muito cedo, dizem que não foi uma morte natural, que foi mesmo suicídio. Outras pessoas dizem  que foi algo diferente de suicídio, que foi mesmo assassinato. Depois da morte dela, meu bisavô casou-se imediatamente com outra mulher, que já tinha um filho de outro homem, e após o casamento com meu bisavô teve mais um filho, do qual as pessoas dizem que é de outro homem, e não do meu bisavô.
     Vovó tem cem canteiros cheios de papoulas na lembrança e todas as flores brancas que jamais existiram no jardim murcham sobre seu rosto e caem na terra com seu andar. E todas as sementes negras das papoulas caem de suas saias que estão tão pesadas de papoulas que mal consegue caminhar.
     Meu avô dizia: o capim  deixa a gente boba, a gente não deve comê-lo. Você não quer ficar boba, quer? Meu avô dizia: Quando uma abelha entra na boca de alguém, a pessoa morre. Ela pica o céu da boca. O céu da boca incha tanto que a pessoa sufoca com seu próprio céu da boca.
De onde veio a primeira borboleta, vovô?
Ninguém sabe, e pare de fazer tanta pergunta boba; vá brincar.

     Os cabelos de minha mãe ficaram grisalhos de repente e as pessoas da aldeia tinham finalmente a prova de que ela era uma feiticeira. Elas a ignoravam e a deixavam sozinha porque ela amarrava seu lenço de cabeça de modo diferente e dançava com a vassoura.
     Nas paredes estão pendurados os retratos de casamento da vovó e da mamãe. Elas tem lindas mãos finas sobre o ventre e jovens rostos tristes. No retrato papai parece ausente como se estivesse olhando o vazio. Em todas as fotos ele aparecia assim, como se não soubesse onde estava.
     Papai está embriagado de novo e canta a sua rude canção " três companheiros que se aventuraram pela vida afora. Aonde eles foram parar neste grande e amplo mundo?".
     Eu rezo para me livrar da culpa.  Sei que papai quebrou a perna do bezerro quando estava bêbado. Só eu vi. "Senhor, eu não sou digna".

     Deus está em toda parte, diz o cura nas aulas de catecismo. O cura disse no sermão de domingo que o batom é feito do sangue das pulgas. Perguntei ao cura porque a mãe de Deus que ficava no altar lateral tinha  os lábios vermelhos. Ele me bateu com a régua nas mãos até elas ficarem inchadas. Por muitos dias eu não conseguia dobrar os dedos. Acho que naqueles dias Deus não estava em toda parte.
     Os mortos da aldeia morreram de tanto comer, de tanto beber, o que na aldeia se chama morrer de trabalhar. Exceção feita aos heróis que, supostamente, morreram de tanto combater. Suicidas não há na aldeia. O pastor de ovelhas morreu de tédio, enforcou-se numa árvore.
     Meu tio é nossa alma morta. Inconformado, às vezes, passa voando pelos arredores das casas, entra no milharal e um ruído se faz atrás dele, ele próprio acredita que é o vento. Só a família pode vê-lo.
      Vou para o quintal dos fundos e me tranco na privada que a gente chama de casinha. Choro alto para mim mesma. Choro lá para ninguém me apanhar e, quando ouço passos se aproximando me calo imediatamente, pois sei que nesta casa não se pode chorar sem motivo.

     Às noites, os pesadelos entram na casa e sobem na cama. A casa toda se transforma num grande celeiro de feno. Mamãe sai com sua vassoura na rua e quando começa a varrer o cabo se transforma em uma cobra. Ela joga a vassoura e sai correndo, pedindo ajuda. Outras cobras começam a sair do decote de sua blusa. Não se vê nenhuma pessoa na aldeia.
     Estou no meio do feno e não sei o que fazer. Menina enrugada de olhos azuis, para onde você vai de manhã tão cedo sobre tanto asfalto?, me pergunta o homem com a caixa de fósforos. Eu ateei o fogo sobre a aldeia, respondo. Apenas os cachorros sabem disso. Todas as noites eles vagueiam pelo meu sonho. Dizem que não dirão nada, porém vão  latir até me matar.

     O que fazer quando não importa do que se fala, pois só se fala de perder?
     Não há lua sobre a aldeia.


  Versão compacta de Depressões de Herta Müller
  Texto criado com frases tiradas do livro