Logo depois de um jantar em sua casa, com a presença do Fúria, veio a mudança para o interior.
A nova casa ficava no meio de lugar nenhum, não havia nenhuma outra casa à vista, não havia outras ruas, só a estrada e ninguém caminhando por ela.
Bruno não conseguia compreender como tudo acontecera. Num dia ele estava em Berlim, brincando com os três melhores amigos da vida toda, e agora estava encalhado nesta casa desagradável.
De sua janela, conseguia ver, ao longe, um lugar chamado Haja-vista, também conhecido por "campo". Mas o que seria aquilo, afinal? Quem eram todas aquelas pessoas e o que estavam fazendo lá, perguntou-se. Os meninos pequenos, os grandes, os jovens, os velhos, pareciam pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida. e usavam as mesmas roupas: um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça.
Em mais um dia de tédio, Bruno começou a pensar em todas as coisas que gostava de fazer e que ainda não havia feito desde que chegara a Haja-Vista. A maioria delas não era sequer possível de ser feita, já que não havia amigos com quem brincar. Mas havia algo que ele podia fazer sozinho e que fazia o tempo todo lá em Berlim: explorar.
A caminhada ao longo da cerca, que parecia se estender por quilômetros e quilômetros, demorou muito mais do que Bruno havia imaginado. Ele andou e andou, e, quando olhava para trás a casa em que estava morando parecia cada vez menor.
Bruno já havia lido muitos livros sobre exploradores, o suficiente para saber que nunca se sabia o que se poderia encontrar. No seu caso, encontrou Shmuel.
Shmuel estava sentado no chão com uma expressão de desamparo. Vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca. No braço trazia uma braçadeira com uma estrela desenhada.
Bruno olhou para Shmuel e pensou em perguntar por que ele estava tão triste, porém hesitou. Bruno sabia que, às vezes, quando a pessoa está triste, não gosta de falar a respeito.
E assim, todas as tardes, Bruno caminhava o longo percurso acompanhando a cerca e se sentava para conversar com o novo amigo Smuel, e aquilo começou a valer por todo o tempo que ele passara sentindo saudades de Berlim.
Bruno começou a pensar mais e mais sobre os dois lados da cerca e o motivo de sua existência, mas não teve coragem de perguntar ao pai o significado dela. Sempre que perguntava a Shmuel se podia rastejar sob o arame para que pudessem brincar juntos do outro lado da cerca, Shmuel respondia que não era uma boa ideia.
Quando soube que voltariam a Berlim, Bruno foi despedir-se de Shmuel e finalmente o convenceu para que o deixasse passar para o seu lado da cerca.
Bruno sentiu um impulso de abraçá-lo, apenas para mostrar-lhe o quanto gostava dele e como fora bom conversar com ele durante o ano que passara ali.
No entanto, nenhum deles abraçou o outro; em vez disso, começaram a caminhada desde a cerca até o campo, numa caminhada que Shmuel fizera quase todos os dias, quando escapava dos olhares dos soldados e conseguia chegar até a única parte de Haja-Vista que parecia não estar sob vigilância constante, um lugar no qual ele tivera a sorte de encontrar um amigo como Bruno.
Versão compacta de O menino do pijama listrado de John Boyne
Texto criado com frases tiradas do livro