José Claisson Aléssio

     Começo a história a partir do momento que me tornei inquilino de uma quitinete na sobreloja de um bar, num prédio baixo, sem elevador,  não muito deteriorado. Assim como o prédio, o bar é pequeno e decadente, não é como se tivesse algo a distingui-lo de centenas de outros: não tem. Os frequentadores são silenciosos e quase todos velhos, parecem ter vindo dos mesmos quartinhos escuros das pensões adjacentes. Sua clientela faz o tipo comum.  Mesmo assim este bar e seus personagens parecem tirados de algum romance de Dostoiévski. São como dadinhos que a vida decidira lançar e não esperam nada diferente.  Ou valises; jogadas para lá e para cá, achadas e perdidas, até que afinal o carregador as joga no último trem e elas vão embora chacoalhando aos solavancos, até a última estação.
   
                                                               **********

     A pessoa no espelho, na  parede  do bar, faz uma careta e desconcertado percebo como a vida é absurda, risível, simplesmente risível. Noto que me olham de modo curioso, como se houvesse algo engraçado em mim: ou como se esperassem que eu fizesse algo fora do tom. A respiração sobe e desce no meu peito como duas asas batendo; saio do bar e  cambaleio na calçada como um passarinho caído do ninho.

   
                                                               **********


     Havia momentos nos quais Kacki se atirava numa batalha onde não havia batalha. Estava num desses momentos. Como se saísse da água em busca da isca, havia se perdido em alguma de suas tangentes. Irrompeu no apartamento como se tivesse descoberto uma passagem na parede. Pendurou seu casaco e a calça no gancho da porta como um enforcado, ele próprio parecia um personagem de histórias em quadrinhos.
     Apanhou um livro, o seu falso eu ficou de pé ao seu lado, apoiou-se em seus ombros de propósito."Sonhar com besouros pretos, perto de um carro funerário significa má sorte. Sonhar com aranhas rastejando sobre você é bom, significa que ficarás rico." Bebia café e largou a xícara como se tivesse sido alvejado por um tiro: _ vou escrever um livro que simplesmente surpreenderá os críticos.
     Vou escrever sobre assuntos que nunca foram tratados antes. Vou fazer meu nome como escritor abordando o mundo submerso. Mas não como os outros fizeram antes de mim. Depois vou  adaptá-lo ao teatro. Será uma peça em um ato. Um personagem decide se matar. Dá todas as razões por que deve fazer isso e por que não deve fazer: cai o pano.



Versão compacta de Contos Escolhidos de Katherine Mansfield
Texto criado com frases tiradas do livro