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No dia em que Elcana oferecia sacrifícios, dava porções à sua mulher Penina e a todos os filhos e filhas dela. Mas a Ana dava uma porção dupla, porque a amava, mesmo que eu a houvesse deixado estéril. E porque eu a tinha deixado estéril, sua rival a provocava continuamente, a fim de irritá-la. Isso acontecia ano após ano. Sempre que Ana subia à minha casa, sua rival a provocava e ela chorava e não comia. Elcana, seu marido, lhe perguntava: "Ana, por que você está chorando? Por que não come? Por que está triste? Será que eu não sou melhor para você do que dez filhos? "
Certa vez quando terminou de comer e beber em Siló, estando o sacerdote Eli sentado numa cadeira junto à entrada do santuário, Ana se levantou e, com a alma amargurada, chorou muito e orou a mim. E fez um voto, dizendo: "Ó criador dos Exércitos, se tu deres atenção à humilhação de tua serva, te lembrares de mim e não te esqueceres de tua serva, mas lhe deres um filho, então eu o dedicarei a ti por todos os dias de sua vida, e o seu cabelo e a sua barba nunca serão cortados".
Enquanto ela continuava a orar diante de mim, Eli observava sua boca. Como Ana orava silenciosamente, seus lábios se mexiam mas não se ouvia sua voz. Então Eli pensou que ela estivesse embriagada e lhe disse: "Até quando você continuará embriagada? Abandone o vinho! " Ana respondeu: "Não se trata disso, meu senhor. Sou uma mulher muito angustiada. Não bebi vinho nem bebida fermentada; eu estava derramando minha alma diante do criador. Não julgues tua serva uma mulher vadia; estou orando aqui até agora por causa de minha grande angústia e tristeza".
Eli respondeu: "Vá em paz, e que o criador de Israel lhe conceda o que você pediu". Ela disse: "Espero que sejas benevolente para com tua serva! " Então ela seguiu seu caminho, comeu, e seu rosto já não estava mais abatido. Na manhã seguinte, eles se levantaram e adoraram a mim; então voltaram para casa, em Ramá. Elcana teve relações com sua mulher Ana, e eu me lembrei dela.
Assim Ana engravidou e, no devido tempo, deu à luz um filho. E deu-lhe o nome de Samuel, dizendo: "Eu o pedi ao criador".
O menino Samuel ministrava perante mim, sob a direção de Eli; naqueles dias raramente eu falava, e as visões não eram freqüentes. Certa noite, Eli, cujos olhos estavam ficando tão fracos que já não conseguia mais enxergar, estava deitado em seu lugar de costume. A lâmpada ainda não havia se apagado, e Samuel estava deitado no santuário, onde se encontrava a arca. Então eu chamei Samuel. Samuel respondeu: "Estou aqui".
E correu até Eli e disse: "Estou aqui; o senhor me chamou? " Eli, porém, disse: "Não o chamei; volte e deite-se". Então, ele foi e se deitou. De novo eu o chamei: "Samuel! " E Samuel se levantou e foi até Eli e disse: "Estou aqui; o senhor me chamou? " Disse Eli: "Meu filho, não o chamei; volte e deite-se". Ora, Samuel ainda não me conhecia. A minha palavra ainda não lhe havia sido revelada. Eu o chamei pela terceira vez. Ele se levantou, foi até Eli e disse: "Estou aqui; o senhor me chamou? " Então Eli percebeu que eu estava chamando o menino e lhe disse: "Vá e deite-se; se ele chamá-lo, diga: ‘Fala, criador, pois o teu servo está ouvindo’ ".
Então Samuel foi se deitar. Eu voltei a chamá-lo como nas outras vezes: "Samuel, Samuel! " Então Samuel disse: "Fala, pois o teu servo está ouvindo". E eu disse a Samuel: "Vou realizar em Israel algo que fará tinir os ouvidos de todos os que ficarem sabendo. Nessa ocasião executarei contra Eli tudo o que falei contra sua família, do começo ao fim. Pois eu lhe disse que julgaria sua família para sempre, por causa do pecado dos seus filhos, do qual ele tinha consciência; seus filhos se fizeram desprezíveis, e ele não os repreendeu. Por isso jurei à família de Eli: ‘Jamais se fará propiciação pela culpa da família de Eli mediante sacrifício ou oferta’ ".
Samuel ficou deitado até de manhã e então abriu as portas da minha casa. Ele teve medo de contar a visão a Eli, mas este o chamou e disse: "Samuel, meu filho". "Estou aqui", respondeu Samuel. Eli perguntou: "O que o criador lhe disse? Não esconda de mim. O criador o castigue, e o faça com muita severidade, se você esconder de mim qualquer coisa que ele lhe falou". Então, Samuel lhe contou tudo, e nada escondeu. Então Eli disse: "Ele é o criador; que faça o que lhe parecer melhor".
Os filhos de Eli eram ímpios; não se importavam comigo nem cumpriam os deveres de sacerdotes para com o povo; sempre que alguém oferecia um sacrifício o auxiliar do sacerdote vinha com um garfo de três dentes, e, enquanto a carne estava cozinhando, ele enfiava o garfo na panela, ou travessa, ou caldeirão, ou caçarola, e o sacerdote pegava para si tudo o que vinha no garfo. Assim faziam com todos os israelitas que iam a Siló. Mas, antes mesmo de queimarem a gordura, vinha o auxiliar do sacerdote e dizia ao homem que estava oferecendo o sacrifício: "Dê um pedaço desta carne para o sacerdote assar; ele não aceitará de você carne cozida, somente crua".
Se o homem lhe dissesse: "Deixe primeiro a gordura se queimar e então pegue o que quiser", o auxiliar respondia: "Não. Entregue a carne agora. Se não, eu a tomarei à força". O pecado desses jovens era muito grande à minha vista, pois eles estavam tratando com desprezo a oferta do criador. Samuel, contudo, ainda menino, ministrava perante mim, vestindo uma túnica de linho.
Todos os anos sua mãe fazia uma pequena túnica e a levava para ele, quando subia a Siló com o marido para oferecer o sacrifício anual. Eli abençoava Elcana e sua mulher, dizendo: "O criador dê a você filhos desta mulher no lugar daquele por quem ela pediu e dedicou ao criador". Então voltavam para casa. Eu fui foi bondoso com Ana; ela engravidou e deu à luz três filhos e duas filhas.
Enquanto isso, o menino Samuel crescia na minha presença. Eli, já bem idoso, ficou sabendo de tudo que seus filhos faziam a todo o Israel e que eles se deitavam com as mulheres que serviam na entrada da Tenda do Encontro. Por isso lhes perguntou: "Por que vocês fazem estas coisas? De todo o povo ouço a respeito do mal que vocês fazem. Não, meus filhos; não é bom o que escuto se espalhando entre o povo do criador. Se um homem pecar contra outro homem, os juízes poderão intervir em seu favor; mas, se pecar contra o criador, quem intercederá por ele? " Seus filhos, contudo, não deram atenção à repreensão de seu pai, pois eu queria matá-los.
Para isso eu usei os filisteus que dispuseram suas forças em linha para enfrentar Israel, e, intensificando-se o combate, Israel foi derrotado pelos filisteus, que mataram cerca de quatro mil deles no campo de batalha. Quando os soldados voltaram ao acampamento, as autoridades de Israel perguntaram: "Por que o criador deixou que os filisteus nos derrotassem? Vamos a Siló buscar a arca da aliança, para que ele vá conosco e nos salve das mãos de nossos inimigos". Então mandaram trazer de Siló a arca da aliança, que tem o seu trono entre os querubins. E os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, acompanharam a arca.
Quando a arca da aliança entrou no acampamento, todos os israelitas gritaram tão alto que o chão estremeceu. Os filisteus, ouvindo os gritos, perguntaram: "O que significam todos esses gritos no acampamento dos hebreus? " Assim que souberam que a arca viera para o acampamento, os filisteus ficaram com medo e disseram: "Deuses chegaram ao acampamento. Ai de nós! Nunca nos aconteceu uma coisa dessas! Ai de nós! Quem nos livrará das mãos desses deuses poderosos? São os deuses que feriram os egípcios com toda espécie de pragas, no deserto.
Mesmo assim os filisteus lutaram e Israel foi derrotado; cada homem fugiu para sua tenda. O massacre foi muito grande: Israel perdeu trinta mil homens de infantaria. A arca foi tomada, e os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, morreram. Naquele mesmo dia um benjamita correu da linha de batalha até Siló, com as roupas rasgadas e terra na cabeça. Quando ele chegou, Eli estava sentado, observando sua cadeira, ao lado da estrada, pois seu coração temia pela arca. O homem entrou na cidade e contou o que havia acontecido, e a cidade começou a gritar. Eli ouviu os gritos e perguntou: "O que significa esse tumulto? " O homem correu para contar tudo a Eli.
Eli tinha noventa e oito anos de idade e seus olhos estavam imóveis, e ele já não conseguia enxergar.
O homem lhe disse: "Acabei de chegar da linha de batalha; fugi de lá hoje mesmo". Eli perguntou: "O que aconteceu, meu filho? " O mensageiro respondeu: "Israel fugiu dos filisteus, e houve uma grande matança entre os soldados. Também os seus dois filhos, Hofni e Finéias, estão mortos, e a arca do criador foi tomada". Quando ele mencionou a arca do criador, Eli caiu da cadeira para trás, ao lado do portão, quebrou o pescoço, e morreu, pois era velho e pesado. Ele liderou Israel durante quarenta anos.
*Domínio Público