José Claisson Aléssio

Minha bisavó faleceu muito cedo, dizem que não foi uma morte natural, que foi mesmo suicídio. Outras pessoas dizem  que foi algo diferente de suicídio, que foi mesmo assassinato. Depois da morte dela, meu bisavô casou-se imediatamente com outra mulher, que já tinha um filho de outro homem, e após o casamento com meu bisavô teve mais um filho, do qual as pessoas dizem que é de outro homem, e não do meu bisavô.
     Vovó tem cem canteiros cheios de papoulas na lembrança e todas as flores brancas que jamais existiram no jardim murcham sobre seu rosto e caem na terra com seu andar. E todas as sementes negras das papoulas caem de suas saias que estão tão pesadas de papoulas que mal consegue caminhar.
     Meu avô dizia: o capim  deixa a gente boba, a gente não deve comê-lo. Você não quer ficar boba, quer? Meu avô dizia: Quando uma abelha entra na boca de alguém, a pessoa morre. Ela pica o céu da boca. O céu da boca incha tanto que a pessoa sufoca com seu próprio céu da boca.
De onde veio a primeira borboleta, vovô?
Ninguém sabe, e pare de fazer tanta pergunta boba; vá brincar.

     Os cabelos de minha mãe ficaram grisalhos de repente e as pessoas da aldeia tinham finalmente a prova de que ela era uma feiticeira. Elas a ignoravam e a deixavam sozinha porque ela amarrava seu lenço de cabeça de modo diferente e dançava com a vassoura.
     Nas paredes estão pendurados os retratos de casamento da vovó e da mamãe. Elas tem lindas mãos finas sobre o ventre e jovens rostos tristes. No retrato papai parece ausente como se estivesse olhando o vazio. Em todas as fotos ele aparecia assim, como se não soubesse onde estava.
     Papai está embriagado de novo e canta a sua rude canção " três companheiros que se aventuraram pela vida afora. Aonde eles foram parar neste grande e amplo mundo?".
     Eu rezo para me livrar da culpa.  Sei que papai quebrou a perna do bezerro quando estava bêbado. Só eu vi. "Senhor, eu não sou digna".

     Deus está em toda parte, diz o cura nas aulas de catecismo. O cura disse no sermão de domingo que o batom é feito do sangue das pulgas. Perguntei ao cura porque a mãe de Deus que ficava no altar lateral tinha  os lábios vermelhos. Ele me bateu com a régua nas mãos até elas ficarem inchadas. Por muitos dias eu não conseguia dobrar os dedos. Acho que naqueles dias Deus não estava em toda parte.
     Os mortos da aldeia morreram de tanto comer, de tanto beber, o que na aldeia se chama morrer de trabalhar. Exceção feita aos heróis que, supostamente, morreram de tanto combater. Suicidas não há na aldeia. O pastor de ovelhas morreu de tédio, enforcou-se numa árvore.
     Meu tio é nossa alma morta. Inconformado, às vezes, passa voando pelos arredores das casas, entra no milharal e um ruído se faz atrás dele, ele próprio acredita que é o vento. Só a família pode vê-lo.
      Vou para o quintal dos fundos e me tranco na privada que a gente chama de casinha. Choro alto para mim mesma. Choro lá para ninguém me apanhar e, quando ouço passos se aproximando me calo imediatamente, pois sei que nesta casa não se pode chorar sem motivo.

     Às noites, os pesadelos entram na casa e sobem na cama. A casa toda se transforma num grande celeiro de feno. Mamãe sai com sua vassoura na rua e quando começa a varrer o cabo se transforma em uma cobra. Ela joga a vassoura e sai correndo, pedindo ajuda. Outras cobras começam a sair do decote de sua blusa. Não se vê nenhuma pessoa na aldeia.
     Estou no meio do feno e não sei o que fazer. Menina enrugada de olhos azuis, para onde você vai de manhã tão cedo sobre tanto asfalto?, me pergunta o homem com a caixa de fósforos. Eu ateei o fogo sobre a aldeia, respondo. Apenas os cachorros sabem disso. Todas as noites eles vagueiam pelo meu sonho. Dizem que não dirão nada, porém vão  latir até me matar.

     O que fazer quando não importa do que se fala, pois só se fala de perder?
     Não há lua sobre a aldeia.


  Versão compacta de Depressões de Herta Müller
  Texto criado com frases tiradas do livro                             

José Claisson Aléssio

Quando, na escola, perguntaram a Bruno o que o seu pai fazia, ele abriu a boca para dizer-lhes e então percebeu que não sabia. Só era capaz de dizer que o Fúria tinha grandes planos para ele e que seu pai usava um uniforme fantástico.
      Logo depois de um jantar em sua casa, com a presença do Fúria, veio a mudança para o interior.
A nova casa ficava no meio de lugar nenhum, não havia nenhuma outra casa à vista, não havia outras ruas, só a estrada e ninguém caminhando por ela.
      Bruno não conseguia compreender como tudo acontecera. Num dia ele estava em Berlim, brincando com os três melhores amigos da vida toda, e agora estava encalhado nesta casa desagradável.
      De sua janela, conseguia ver, ao longe, um lugar chamado Haja-vista, também conhecido por "campo". Mas o que seria aquilo, afinal? Quem eram todas aquelas pessoas e o que estavam fazendo lá, perguntou-se. Os meninos pequenos, os grandes, os jovens, os velhos, pareciam pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida. e usavam as mesmas roupas: um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça.
    Em mais um dia de tédio, Bruno começou a pensar em todas as coisas que gostava de fazer e que ainda não havia feito desde que chegara a Haja-Vista. A maioria delas não era sequer possível de ser feita, já que não havia amigos com quem brincar. Mas havia algo que ele podia fazer sozinho e que fazia o tempo todo lá em Berlim: explorar.
     A caminhada ao longo da cerca, que parecia se estender por quilômetros e quilômetros,  demorou muito mais do que Bruno havia imaginado. Ele andou e andou, e, quando olhava para trás a casa em que estava morando parecia cada vez menor.
     Bruno já havia lido muitos livros sobre exploradores, o suficiente para saber que nunca se sabia o que se poderia encontrar. No seu caso, encontrou Shmuel.
     Shmuel estava sentado no chão com uma expressão de desamparo. Vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca. No braço trazia uma braçadeira com uma estrela desenhada.
     Bruno olhou para Shmuel e pensou em perguntar por que ele estava tão triste, porém hesitou. Bruno sabia que, às vezes, quando a pessoa está triste, não gosta de falar a respeito.
     E assim, todas as tardes, Bruno caminhava o longo percurso acompanhando a cerca e se sentava para conversar com o novo amigo Smuel, e aquilo começou a valer por todo o tempo que ele passara sentindo saudades de Berlim.
     Bruno começou a pensar mais e mais sobre os dois lados da cerca e o motivo de sua existência, mas não teve coragem de perguntar ao pai o significado dela. Sempre que perguntava a Shmuel se podia rastejar sob o arame para que pudessem brincar juntos do outro lado da cerca, Shmuel respondia que não era uma boa ideia.
     Quando soube que voltariam a Berlim, Bruno foi despedir-se de Shmuel e finalmente o convenceu para que o deixasse passar para o seu lado da cerca.
      Bruno sentiu um impulso de abraçá-lo, apenas para mostrar-lhe o quanto gostava dele e como fora bom conversar com ele durante o ano que passara ali.
      No entanto, nenhum deles abraçou o outro; em vez disso, começaram a caminhada desde a cerca até o campo, numa caminhada que Shmuel fizera quase todos os dias, quando escapava dos olhares dos soldados e conseguia chegar até a única parte de Haja-Vista que parecia não estar sob vigilância constante, um lugar no qual ele tivera a sorte de encontrar um amigo como Bruno.


Versão compacta de O menino do pijama listrado de John Boyne
Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

   Como isso se deu, não sei bem, mas um dia pareceu-me claro que eu deveria ser artista, pintor. Tendo na mão uma pequena mala de roupa e, no coração, uma vontade imperturbável, viajei para Viena. Em pouco tempo percebi que não seria possível a realização do meu sonho. Creio que os que conviviam comigo naquele tempo tinham-me por um tipo esquisito. O fato se ser pobre, de não possuir recursos financeiros, parecia o menos; mais difícil era a circunstância de pertencer a categoria dos desconhecidos, um entre milhões, que o acaso deixa viver ou arranca da vida sem que o mundo tome o menor conhecimento. A tudo isso se juntava a dificuldade proveniente da minha falta de instrução. A chamada intelectualidade vê com infinito desdém todo aquele que não passou pelas escolas oficiais. Nunca se pergunta: que sabe o indivíduo?, mas, sim, que estudou ele? Para essas criaturas "cultas" mais vale a cabeça oca, que vem protegida por diplomas. Viena vale para mim, infelizmente, como uma viva lembrança dos mais tristes tempos da minha vida. Ainda hoje, essa capital só desperta em mim pensamentos sombrios. cinco anos de miséria e sofrimento, eis o que significa a minha estadia nessa cidade. Cinco anos em que, primeiro como ajudante de operário, depois como aprendiz de pintor, vi-me forçado a trabalhar pelo pão cotidiano, mesquinho pão que nunca bastava para saciar a minha fome habitual.  

     Eu não sei naqueles tempos o que mais me horrorizava, se a miséria econômica dos meus camaradas, se sua grosseria espiritual e moral ou o nível baixo de sua cultura. Quanto mais tempo eu permanecia em Viena, mais aumentava em mim o ódio contra a estranha mistura de raças que começava a corroer aquele velho centro cultural alemão. Odiava o conglomerado de raças e acima de tudo aquela excrecência desses cogumelos presentes em toda parte -- judeus e mais judeus.

     Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia: marxismo e judaísmo.

    Levado pelas lições da experiência de todos os dias, comecei a pesquisar as fontes da doutrina marxista. A atual democracia do ocidente é a precursora do marxismo. Ela ofereceu um terreno propício no qual consegue desenvolver--se a epidemia. Ninguém, a não ser um  judeu, pode estimar uma instituição que é tão suja e falsa quanto ele próprio. A lei da democracia parece mais sagrada para esses doutrineiros do que o bem  de uma nação. Seu objetivo real não está expresso nas linhas, mas oculto nas entrelinhas. A finalidade última do marxismo é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas. Com uma grande habilidade preparam a opinião pública, formando dela o instrumento de combate para o futuro da sua causa. Não precisamos dizer mais nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação. Nisso está  a diferença entre a imprensa marxista e a burguesa. Os jornais marxistas são redigidos por agitadores, enquanto a imprensa burguesa é redigida por intelectuais. O marxismo aparece como a tentativa dos judeus para enfraquecer o princípio da personalidade e substituí-lo pelo prestígio das massas

     Em Linz havia muito poucos judeus. Com o decorrer dos séculos, o aspecto dos judeus se havia europeizado e ele se tornara parecido com gente. Eu não pensava absolutamente na existência de um plano regular de combate aos judeus.  Que eles não eram amantes de banhos podia-se assegurar pela simples aparência. Infelizmente não raro se chegava a essa conclusão até de olhos fechados. Muitas vezes senti náuseas ante  o odor deses indivíduos vestidos de caftan. A isso se acrescentem as roupas sujas e a aparência acovardada e tem-se o retrato fiel da raça. O judaísmo provocou forte repulsa quando consegui conhecer suas atividades na imprensa, na arte, na literatura e no teatro. O sentido geral dos seus escritos era tão evidentemente depreciador de tudo quanto era alemão, que não se podia deixar de ver nisso uma intenção deliberada. O judeu é que apresenta maior contraste com o ariano. Nenhum outro povo do mundo possui um instinto de conservação mais poderoso do que o chamado "povo eleito". O judeu é um parasita incorporado ao organismo dos outros povos. O fato de ele continuar a se espalhar pelo mundo é um fenômeno próprio a todo parasita; este anda sempre à procura de novos hospedeiros para fazer prosperar sua raça. Torna-se tão ordinário na sua vulgaridade que ninguém se deve admirar que entre o nosso povo a personificação do diabo como o símbolo de todo o mal tome a forma do judeu em carne e osso. O Estado judaico nunca teve fronteiras, mas era unido pela raça. Por isso aquele povo sempre foi um Estado dentro do Estado. A religião mosaica nada mais é que uma doutrina para a conservação da raça judaica. Os maiores conhecedores das possibilidades do emprego da mentira e da calúnia foram, em todos os tempos, os judeus. Por meio de  uma propaganda inteligente e constante, fazem crer que o céu é inferno e, inversamente, que a vida mais miserável é o paraíso.

    Eu via nessa propaganda um instrumento manejado, com grande habilidade, justamente pelas organizações sociais comunistas. Compreendi que a aplicação adequada de uma propaganda é uma verdadeira arte. Comecei então a refletir sobre a propaganda e sobre as suas formas mais úteis. Esse falseamento certamente tinha suas vantagens para aqueles que o propagavam. A propaganda sempre terá de ser dirigida à massa. O fim da propaganda é chamar a atenção sobre determinados fatos, necessidades. Toda propaganda deve ser popular, seu alcance consiste na compreensão da mentalidade e dos sentimentos do povo. A capacidade de compreensão do povo é muito limitada, a capacidade de esquecer é grande. Assim a propaganda deve se restringir a poucos pontos. Esses devem ser valorizados com estribilhos, até que o último indivíduo consiga saber exatamente o que representa esse estribilho. A persistência é a primeira e mais importante condição para o êxito. Quem quiser conquistar as massas deve conhecer a chave que abre as portas para o seu coração. Essa chave não se chama objetividade. O que ela quer é a vitória do mais forte e o aniquilamento doo fraco ou a sua rendição incondicional. A disposição do povo nada mais é do que  o resultado daquilo que de cima se despeja na opinião pública. Para que uma propaganda seja eficiente é preciso que ela tenha um objetivo definido e que se dirija a um determinado grupo. A vitória de uma ideia será mais fácil quanto mais intensa for a propaganda. O primeiro dever da propaganda consiste em conquistar adeptos, o segundo é a destruição  do atual estado de coisas e a disseminação da nova doutrina. Ninguém morre por aquilo que não crê. Da regra geral quase ninguém escapa. 

   A psique das massas é de natureza a não se deixar influenciar por meias-medidas, por atos de fraqueza. Assim como as mulheres, também as massas gostam mais dos que mandam do que dos que pedem e sentem-se mais satisfeitas com uma doutrina que não tolera nenhuma outra do que com a tolerante largueza do liberalismo.  É preciso que se diga às naturezas fracas que se trata de uma luta de vida ou de morte. A opinião pública da massa é o resultado final do trabalho, às vezes incrivelmente árduo e intenso, da inteligência humana. O povo na sua grande maioria, é de índole feminina tão acentuada, que se deixa guiar, no modo de pensar e agir, menos pela reflexão do que pelo sentimento. Esses sentimentos, porém, não são complicados, mas, simples e consistentes. Não há grandes diferenciações. São ou positivos ou negativos: amor ou ódio, verdade ou mentira. Nunca o meio termo. As massas nunca inventem, nunca organizam, ou pensam por si. No início de tudo está sempre uma atividade individual. elas são naturalmente preguiçosas e, por isso,  inclinadas a conservar os seus hábitos antigos. Assim, um escrito que visa um determinado fim, na maioria dos casos, só é lido por aqueles que já possuem a mesma orientação do autor. Essa situação mental é sempre a consequência da incerteza das coisas. As grandes massas da nação não consistem de filósofos. A fé para elas é a única base para a sua vida moral. 

   Uma doutrina universal é sempre intolerante. por esse motivo, não se pode tolerar a continuação de uma força representando a situação anterior. O mesmo acontece com as religiões. O cristianismo não se satisfez em erigir os seus altares, mas viu-se na contingência de proceder à destruição dos altares dos pagãos. Na realidade, não se pode servir a dois senhores, sendo que eu considero a fundação ou destruição de uma religião muito mais importante do que a fundação ou destruição de um Estado, quanto mais de um partido. Não raramente surge o caso da existência de poderosos preconceitos, que não vem da razão, mas ao contrário, são na maior parte inconscientes e com base apenas nos sentimentos. A ignorância, falsas concepções, podem ser removidas por argumentos, a obstrução oriunda do sentimento; nunca. O mais lastimável, porém, é o prejuízo ocasionado pela utilização das convicções religiosas para fins políticos. Dessa e de outras causas surge a pusilaminidade como consequência fatal. Quem conhece os homens, compreende que em sociedade ninguém quer ser o mais tolo e, em certos círculos, honestidade é sempre sinônimo de estupidez.

   Mas é do destino dos tolos nunca alcançarem sossego. O jogo recomeça e repete-se inúmeras vezes, até que o pavor ante os monstros selvagens provocam uma significativa imobilidade. A arte de todos os grandes condutores de povos consiste em não dispersar sua atenção, mas em concentrá-la em um único adversário. Isso fortalece´a fé no próprio direito e a irritação contra o inimigo.

     Não se deve misturar com o mais fraco sacrificando assim a grandeza própria.

   O ariano sacrificou a pureza do sangue, perdendo assim o lugar no Paraíso que ele mesmo tinha preparado. A história do mundo é feita pelas minorias. O mundo pertence aos fortes, aos decididos, não aos tímidos. a liberdade individual deve ceder lugar à conservação da raça. Uma coisa não se deve e não se pode esquecer: a maioria jamais pode substituir o homem. Ela é sempre a advogada não só da estupidez, mas também da covardia, e, assim como, cem tolos reunidos não formam um sábio, uma decisão heroica não é provável que surja de um cento de covardes. Está também no interesse da nação que se chegue à formação de corpos perfeitos, a fim de se criar um novo ideal de beleza. Deve-se providenciar que só pais sadios possam ter filhos. Só há uma coisa vergonhosa: é que pessoas doentes ou com certos defeitos possam procriar, e deve ser considerada uma grande honra impedir que isso aconteça. A preocupação principal na educação das mulheres é formar futuras mães. Só em segundo plano o Estado nacionalista tem de promover a formação do caráter.




Versão compacta de Mein Kampft de Adolf Hitler

Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

 Junho/1942

Gosto de escrever e quero aliviar o meu coração de todos os pesos. O papel é mais paciente do que as pessoas. Era nisso que eu pensava muitas vezes quando, nos meus dias melancólicos, punha a cabeça entre as mãos sem saber o que fazer comigo.

Vou começar pela história da minha família. Quando os meus pais se casaram, o meu pai tinha 36 anos e a minha mãe 25. Minha irmã Margot nasceu em 1926 em Frankfurt. Em 12 de junho de 1929 eu nasci. Como somos judeus, emigramos, em 1933, para a Holanda.

A nossa vida corria com as aflições de costume, pois as pessoas da família que ficaram na Alemanha não escaparam às perseguições de Hitler. Depois dos Progroms de 1938 os dois irmãos da minha mãe fugiram para a América.  Minha avó com 73 anos veio morar com a gente.

A partir de 1940 foram acabando os bons tempos. Primeiro veio a guerra, depois a capitulação, em seguida a entrada dos alemães na Holanda. E então começou a miséria. A uma lei ditatorial seguia-se outra; e, em especial para os judeus, as coisas começaram a ficar complicadas. Obrigaram-nos a usar a estrela e a entregar as bicicletas. Não nos deixavam andar nos bondes e muito menos de automóvel.

Os judeus só podiam fazer compras das 3 às 5 horas, e só em lojas judaicas. Não podiam sair à rua depois das 8 da noite e nem sequer ficar no quintal ou varanda. Não podiam ir ao teatro ou ao cinema, nem frequentar qualquer lugar de divertimentos e nem praticar qualquer esporte.

Os judeus não podiam visitar os cristãos. As crianças judaicas eram obrigadas a  frequentar escolas judaicas e cada vez mais surgiam decretos antissemitas.

Julho/1942

Só um meio de transporte nos é ainda permitido: a barca. O papai passa muito tempo em casa agora. Deve ser uma sensação horrível, isto de uma pessoa se sentir, de repente, posta de lado. Há alguns dias o papai disse que provavelmente teremos de nos esconder.

Agosto/1942

Nestes dias aconteceram muitas coisas, como se tivessem passado muitos anos. Recebemos uma convocação das SS para o papai. Todos sabem o que isso significa: campo de concentração. Onde vamos nos esconder? Na cidade, no campo, num edifício qualquer, numa cabana, quando, como, onde?

Setembro/1942

Às vezes parece que estou numa pensão estranha. Um conceito diferente de esconderijo, não é? Esta casa é realmente um esconderijo ideal. Apesar de ser um bocado úmida, torta e sinuosa, será difícil encontrar coisa mais confortável em Amsterdã ou mesmo em toda a Holanda.

Estamos sempre com receio de que alguém nos possa ver ou ouvir. Oito pessoas dividem o esconderijo. Além dos quatro da nossa família, vieram também o sr. e sra. Van Daan, o seu filho Petter e Dussel, um amigo do casal.

Outubro/1942

É divertido ver como a sra. Van Daan fica vermelha por tudo e por nada. É inconcebível que os adultos se irritem e fiquem bravos com tanta facilidade e por causa das mais insignificantes bagatelas. Se ofendem constantemente com palavras veladas e isso torna-se insuportável. Vou dizer uma coisa: se quiser conhecer bem uma pessoa, tem que brigar com ela.

Novembro/1942

Os nossos amigos e conhecidos judeus estão sendo deportados em massa. A emissora inglesa fala de câmaras de gás.

Janeiro/1943

As notícias lá de fora são horríveis. Dia e noite arrastam os coitados de suas casas. Só deixam levar o que cabe na mochila e algum dinheiro(mas tiram mais tarde). É comum as crianças voltarem da escola e não encontrarem os pais, ou as mulheres voltarem das compras e dão com a casa vazia. O resto da família já desapareceu.

Nos círculos cristãos também já reina o desassossego. Os jovens são enviados para a Alemanha. Toda a gente tem medo!

Maio/1943

Esperamos a invasão de um dia para  outro. A comida está numa miséria. No café da manhã temos pão seco e cevada. No almoço: espinafres ou salada, e batatas.  Se penso na nossa vida aqui, chego sempre a mesma conclusão: nós, em comparação com os judeus que não conseguiram esconder-se, ainda estamos no paraíso.

Agosto/1943

Há uma semana que não sabemos as horas exatas, porque levaram o sino da torre oeste. Suponho que queiram transformá-lo num canhão.

Outubro/1943

À medida que o tempo vai passando, pior estão as pessoas umas com as outras. quase ninguém ousa abrir a boca, pois tudo o que se diz irrita aos demais. Eu já estou meio tonta de tantas discussões.

Dezembro/1943

Quando não há discussões a monotonia é grande. Chegamos a um ponto em que se um dos oito começa a contar uma coisa, qualquer outro pode substituí-lo e continuar a história até o fim. Já conhecemos o final de todas as anedotas. Só quem as conta ri ainda.

Janeiro/1944

Estamos à espera da invasão mais dia menos dia. Faço o possível para me conservar calma. Já cheguei a um ponto em que é indiferente viver ou morrer. Quando uma pessoa está desesperada, adianta pensar na miséria dos outros?

Fevereiro/1944

Nos vinte e um meses em que estamos aqui, já passamos por uma série de ciclos alimentares. Um ciclo é um período em que comemos sempre o mesmo ingrediente e os mesmos legumes. Durante algum tempo só tínhamos salada. Depois veio a fase dos espinafres, depois chucrutes.

Não é nada agradável comer todos os dias chucrute no almoço e no jantar, mas a fome não nos deixa rejeitá-lo. Agora estamos no ciclo das batatas que são servidas no café da manhã, almoço e jantar pois não temos como conseguir pão. O que muda é só o molho.

Março/1944

Por que e para que é esta guerra? Não acredito que a culpa da guerra seja só dos governantes e capitalistas. O homem da rua também tem sua culpa, pois não se revolta. O homem nasce com o instinto da destruição, do massacre, da fúria, e enquanto toda a humanidade não sofrer uma metamorfose total, haverá sempre guerras.

Abril/1944

A tensão aumenta e está ficando insuportável. A invasão, a libertação, tudo virá uma dia, mas a Inglaterra e a América é que vão fixar as datas e não os habitantes dos países ocupados. Reina o antissemitismo nos círculos onde antigamente nem se pensava em tal coisa. Isto nos impressionou profundamente.

Maio/1944

Hoje de manhã prenderam o nosso bom quitandeiro, que tinha escondido em casa dois judeus. Há meses que não me sinto tão triste. Já faz dois anos que estamos escondidos aqui e por quanto tempo ainda seremos capazes de resistir a esta pressão insuportável que de dia para dia, vai crescendo?

Pergunto-me muitas vezes se não teria sido melhor não termos nos escondido e estarmos mortos sem precisar sofrer toda esta miséria, sobretudo sem termos expostos os nossos protetores a tantos perigos. Que venha o fim, mesmo que seja duro.

Junho/1944

O meu aniversário passou mais uma vez. Agora tenho quinze anos. Quase não temos mais batatas. De agora em diante, vão ser contadas e divididas para que cada um se vire. Ouço cada vez mais forte, a trovoada que se aproxima, essa trovoada que vai nos matar.


        Versão compacta de O Diário de Anne Frank de Anne Frank

         Texto criado com frases tiradas do livro

José Claisson Aléssio

                                                     Diário de um personagem imaginário

 Estas linhas não devem cair aos olhos de ninguém, vão achar que eu estou  perdendo o siso, e talvez seja isso mesmo. O que não deixa de ser um progresso, haveria uma causa para o sintoma e, quiçá,  um charlatão para me vender alguma garrafada. Não tenho ninguém a quem contar minha história, então vou contar a mim mesmo. Quem sabe, ao contá-la, eu consiga esquecê-la. Como um exorcismo. 

                                                      O rodapé da minha história

 Entrei na última quadra da vida, (20x4=80) 80-60=20 de maneira canhestra., num quadro dantesco; um verdadeiro show de horrores. Quero ver se aproveito um momento de distração da plateia para sair de fininho do palco. Em todas as peças de que participei sempre fui um coadjuvante daquele tipo que se coloca ali para levar o primeiro tiro ou sofrer um acidente na primeira curva. Às vezes chega ao meio da montagem com indícios de demência e acaba internado ou despachado em alguma viagem, dessas que o roteirista inventa para tirar o personagem de cena por não estar agradando ao público. Nunca cheguei ao final da novela para ver o personagem preso caso merecesse, ou algo equivalente. Até por que, em boa parte das tramas, fiz papeis de bonzinho, ou, como prefere o público dos dias de hoje, de otário. Devido ao exposto, tudo o que eu quero é sair de cena com a maior discrição possível

                                                         A vida não tem corrimão

 Eu me sinto como se tivesse matado alguém. Não sei quem, talvez a mim mesmo. Tudo  está estranho, de uma estranheza que eu não consigo entender, como se houvesse algo que me foge aos sentidos, que eu não sei o que é. Não dá nem para sentir medo. Medo de que? Mas que está estranho, está. Não aguento mais olhar para os lados e não ver ninguém. O meu espelho se quebrou, não vejo mais a minha imagem refletida em lugar algum. Sigo na estrada que parece não ter fim, sem ponto de chegada ou acostamento, um eterno caminhar sem nenhum sentido. Sou um cara que não tenho mais nenhuma afinidade comigo comigo mesmo, como se eu tivesse me esquecido do próprio nome, ou de sentimentos que eu possa ter tido ou sentido; como se estivesse apenas habitando um corpo de alguém que eu não faça a menor ideia de quem seja. Como eu vim parar aqui?

 - E essa estrada onde vai dar?

- Sei não moço, estou vindo de lá.

  Mais um perdido no caminho. Embora em sentido contrário somos o mesmo e qual seja a direção tomada, no lá para onde seguimos não há nada.

  Estou perplexo. Como  alguém, imagino, que ao voltar para casa, depois de um dia de trabalho, ou de uma viagem, não encontra mais a casa, não há casa alguma. Simplesmente desabou, implodiu, foi destruída pelo fogo ou coisa assim. Até já limparam o terreno e não há ninguém que lhe possa dar alguma informação, dizer o que aconteceu e, mais que isso, parece que ali ninguém o conhece, ninguém o tinha visto antes.

                                                       Anotações sem nexo

  Suicidas que escrevem cartas são patéticos. Por mais que se expressem bem nunca vão conseguir exprimir nem dez por cento dos motivos e da dor que os levou a praticar o ato. Por isso, quando chegar a vez daquele amigo solitário e único, sei que ele vai deixar de existir feito um passarinho que voou não se sabe para onde nem porque. 

                                                     Páginas aleatórias

  Eu tenho um amigo que está me preocupando. Acho que ele vai se matar. Anda esvaziando gavetas, fechando portas e, um indício ainda mais forte, traz um olhar de últimos dias. Um dos problemas é que eu não sei como lidar com isto. Se eu abrir a questão com ele, que tenho notado mudanças preocupantes no seu comportamento, é capaz dele ficar extremamente constrangido e antecipar a ação; entre outras coisas por vergonha de ter o seu plano descoberto. Por outro lado, não fazer nada pode significar a perda de um amigo muito querido, o único que tenho. Para dificultar ainda mais as coisas ele é ateu. Não posso chegar com o discurso risível, para ele, de que tenha fé, esperança, de que Deus escreve certo por linhas tortas, etc... Eu apenas deixaria de ser um interlocutor confiável, que ele pudesse levar à serio. Assim, eu não sei que argumentos usar.

                                                               Vazio

  Ele que disse aceita a morte com naturalidade. A vergonha, não. A morte é inexorável, de uma forma ou de outra todos morrem no último capítulo. A vergonha acontece quando algo dá errado, muito errado. Quando uma pessoa que era uma esperança para algumas outras, e, talvez, a única tábua se salvação para elas, fracassa miseravelmente e se percebe sem qualquer possibilidade de fazer o mínimo que seja por elas; aí a pessoa se olha no espelho e não vê nada, olha para os lados e não tem parede onde se encostar. E as pessoas por quem ele se considera responsável esperando que ele seja sua boia de salvação. Se, ao menos, ele se anestesiasse com alguma droga, alguma ilusão, alguma fé.

                                                              Um capítulo a parte

  É como se de repente elas descobrissem que Deus não existe. E eu era esse Deus. Claro, guardadas as devidas proporções, e mais claro ainda, sem a menor possibilidade de comparação. Mas, a grosso modo, elas estavam no fundo do poço, em frangalhos e quando perceberam que não iriam conseguir sair de lá, só tinham a mim a quem pedir que lhes jogasse uma corda, que as puxasse de volta para a superfície. E o que eu fiz? Não consegui proferir nem meras palavras de consolo. Não sei se foi mais desesperador para mim ou para elas. Talvez tinham  um Deus e o perderam. Quanto a mim, eu já nascera sem Ele. 

  O  emocional de M. está péssimo.  Encontra-se cada vez mais fora da realidade. Pediu desculpa por alguma coisa, me pareceu meio alheia, ''Correndo por fora'' da realidade, uma defesa, uma espécie de muro de proteção. Ao notar o desespero, mesmo que dissimulado, ao perceber a falta de tudo que um ser humano necessita para tentar manter a dignidade, ao ver que todas as portas estão fechadas e eu não tenho como abri-las; ao notar na voz as humilhações pelas quais passou e está passando e eu que poderia ser sua única tábua de salvação sem condições de nem aos menos confortá-la espiritualmente, creio que a minha própria dor só não é maior que a dela.

  O comportamento de M. parece fora da realidade pela forma como retrata os acontecimentos do dia a dia. Disse que se arranjar emprego pretende visitar um tio em Brasília e que daria um jeito de me ver, nem que fosse só de passagem. O sentimento, contudo, por trás das palavras, parece estar se encaminhando para uma situação de desespero total. A melhor forma de ajudá-la, seria enviando alguma ajuda financeira, mas no momento acho improvável que eu consiga.

                                                       Anotações ao pé da página 

   Encontrei um velho caderno não muito longe do lugar onde um senhor se jogou do vigésimo andar de um prédio. Se eu não tivesse me atrasado um pouco e passado no horário habitual, ele poderia ter caído em cima de mim. Eu que sempre procuro ser pontual, fui falhar justo neste dia. A falta de sorte é a minha sombra indesejável e pelo jeito vai me acompanhar até que eu também pule de algum prédio. Antes disso, tenho algumas missões a cumprir; não que digam a meu respeito, mas a algumas pessoas que me são caras, então vou postergando o tresloucado gesto. Sei que o texto está parecendo confuso. Acho que incorporei o estilo do defunto; o fato é que nunca escrevi e pouco li, por isso daqui pra frente vou transcrever o que eu pude decifrar dos garranchos do suicida.

   O rato: O rapaz que vende chumbinho está vindo. Espero que o produto não tenha prazo de validade. Os dois vidros que havia comprado joguei fora por estarem a muito tempo comigo. Não quero que o rato passe mal a troco de nada. Só agiremos se for para resolver o problema. Não podemos dar vexame na cena final.

  A carta: '' M. estou achando que esta carta será uma despedida, desculpa pelo susto caso não seja e, pela eventual tristeza sentida. Perdão por eu te faltar, até mesmo com uma palavra de esperança. No labirinto em que me encontro não há esta possibilidade. Sinto tanta dor e vergonha em ser este fracasso que me tornei, que não sei se teria coragem de olhá-la novamente; por isso acho difícil que nos vejamos algum dia. Ter falhado comigo eu resistiria, mas com vocês me é insuportável.''

   A estação: ''22 de fevereiro de 1978, segunda-feira, seis e trinta e sete da manhã. Você e a mãe me acompanharam até a rodoviária. Você estava usando um vestidinho de chita com flores brancas miudinhas de fundo rosa. Eu não lembro de como eu estava vestido. Não dissemos nenhuma palavra, nem choramos. Nunca fomos bons de palavras e de choros. Agora mesmo, talvez pelo fato do fim estar se aproximando; ainda menos. Não convém nenhum tipo de vexame numa hora dessas, certo? Que o momento final seja revestido com a maior dignidade possível.

                                                        Fragmentos

  Religiões: Pelas linhas tortas as crenças de um modo geral permitem alguma válvula de escape. ''Estou na merda porque pequei''. Assim a pessoa vive a sua miséria e ainda fica com a culpa ( e ''pedindo'' mais castigo  para ''purificar-se''). Seguindo esta fórmula banal e cruel igrejas proliferam-se; afinal o que não falta sobre a terra são pessoas eivadas de remorsos por culpas reais ou imaginárias.

  Jesus Cristo: Coitado deste rapaz, morreu jovem, 33 anos, e até hoje um monte de espertalhões ganhando dinheiro, e muito, em cima dele. Que Deus me perdoe, se achar que mereço ser perdoado ( se não achar, paciência), mas é o que penso.  

p.s.: Pensamento derivado da passagem dos testemunhas de jeová,(o turminha que enche o saco!).


                                                               ***

  Todo mundo tem história pra contar, só eu não tenho. Caso desejasse inventar uma para preencher a lacuna, que tipo de história seria?

  Como eu gosto das coisas direitas, andando em linhas mais ou menos retas, não caberia nela firulas linguísticas, literárias, metafóricas. Eu não falo por parábolas, meu papo é reto.

  Sendo assim, a minha história começaria pelo começo e terminaria no último capítulo; por óbvio.

  O diabo é encontrar o miolo, o que escrever nas páginas intermediárias.

  Mentiria como todo mundo? Não é do meu caráter. Douraria a pílula ou me afogaria no meu oceano de lágrimas?

  Mas dor é história? Creio que não. Ninguém conta histórias tristes. Todas as histórias que eu ouço são passagens bacanas, auspiciosas, de pessoas ladinas, ativas, espirituosas, sempre se dando bem.

  Toda vez que alguém encosta e começa com a sua cantilena eu acabo depressivo. Tento buscar na memória alguma passagem para que eu possa narrar, para que haja algum diálogo, mas não lembro de nada e eu fico como um parvo, como um desses para quem se conta histórias, ou lê-se um livro; por caridade.

  Por isso, quando vejo um contador de história se aproximando, tenho vontade de sair correndo.

  Mas não corro. Esta faceta talvez seja a característica mais estranha da minha personalidade. As minhas vontades sempre acabam assim; em vontades. Nunca tive forças para transformá-las numa pífia realidade que seja.

  Isto é uma doença, eu sei. No meu caso um câncer em fase terminal, metástase completa desde o primeiro estágio. Não há morfina que dê conta. O jeito é pular logo para a página final, o último episódio da última temporada.


                                                          ***

  Deus não existe; e isto é bom. Pois se deus não existe o diabo também não. Ou seja, não há nenhum poder sobrenatural interferindo na sua vida; ou causando malefícios a ela.

  Os acontecimentos inerentes a ela dizem respeito a você, aos seus atos, e ao meio em que você vive.    

  Com perseverança e sorte você pode mudá-los. Não existindo fatores sobrenaturais a sua luta torna-se menos desigual e você passará a ter mais chances de aplainar o seu caminho.

O que acontece hoje é que boa parte das pessoas preferem ter à mão um pobre diabo a quem atribuir os seus infortúnios ou um bom deus a quem rogar por suas vidas.


*Trechos do livro Figueira Torta


Eu criei o céu e a terra

Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo e o meu espírito se movia sobre a face das águas. Eu disse: "Haja luz", e houve luz. Eu vi que a luz era boa e separei a luz das trevas.
Eu  chamei à luz dia, e às trevas chamei noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia.

Depois eu disse: "Haja entre as águas um firmamento que separe águas de águas". Então fiz o firmamento e separei as águas que estavam embaixo do firmamento das que estavam por cima. E assim foi. Ao firmamento chamei céu. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o segundo dia.

 Eu disse: "Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça a parte seca". E assim foi. À parte seca  chamei terra, e chamei mares ao conjunto das águas. E  vi que ficou bom. Então disse : "Cubra-se a terra de vegetação: plantas que deem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies". E assim foi. A terra fez brotar a vegetação: plantas que dão sementes de acordo com as suas espécies, e árvores cujos frutos produzem sementes de acordo com as suas espécies. E  vi que ficou bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o terceiro dia.

 Disse : "Haja luminares no firmamento do céu para separar o dia da noite. Sirvam eles de sinais para marcar estações, dias e anos, e sirvam de luminares no firmamento do céu para iluminar a terra". E assim foi. Fiz os dois grandes luminares: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; fiz também as estrelas. E os coloquei no firmamento do céu para iluminar a terra, governar o dia e a noite, e separar a luz das trevas. E vi  que ficou bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o quarto dia.

 Disse também : "Encham-se as águas de seres vivos, e sobre a terra voem aves sob o firmamento do céu". Assim criei os grandes animais aquáticos e os demais seres vivos que povoam as águas, de acordo com as suas espécies; e todas as aves, de acordo com as suas espécies. E vi que ficou bom. Então  os abençoei, dizendo: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham as águas dos mares! E multipliquem-se as aves na terra". Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o quinto dia.

 E disse : "Produza a terra seres vivos de acordo com as suas espécies: rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra, cada um de acordo com a sua espécie". E assim foi. Fiz os animais selvagens de acordo com as suas espécies, os rebanhos domésticos de acordo com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies. E vi  que ficou bom. Então disse : "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão".

Então eu formei o homem do pó da terra e soprei em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente. Ora, eu tinha plantado um jardim no Éden, para os lados do leste; e ali coloquei o homem que formara. Eu fiz nascer então do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. No Éden nascia um rio que irrigava o jardim, e depois se dividia em quatro. O nome do primeiro é Pisom. Ele percorre toda a terra de Havilá, onde existe ouro. O ouro daquela terra é excelente; lá também existem o bdélio e a pedra de ônix. O segundo, que percorre toda a terra de Cuxe, é o Giom. O terceiro, que corre pelo lado leste da Assíria, é o Tigre. E o quarto rio é o Eufrates.

Depois que formei da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, eu os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Eu coloquei o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. E ordenei  ao homem: "Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá".

 Então declarei : "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda".  Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse. Então eu fiz o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirei-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, eu fiz uma mulher e a trouxe a ele. Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada". Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha.

 Esta é a história das origens dos céus e da terra, no tempo em que foram criados: Quando eu fiz a terra e o céu, ainda não tinha brotado nenhum arbusto no campo, e nenhuma planta havia germinado, porque eu ainda não tinha feito chover sobre a terra, e também não havia homem para cultivar o solo. Todavia brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo.

Criei  o homem à minha imagem, criei o  homem e mulher. Eu os abençoei, e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra". Disse : "Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês. E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes animais da terra, a todas as aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente ao chão". E assim foi. E vi tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.

Assim foram concluídos o céu e a terra, e tudo o que neles há. No sétimo dia eu já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansei. Abençoei o sétimo dia e o santifiquei, porque nele descansei de toda a obra que realizara na criação.

*Domínio Público


Adão e Eva

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que eu tinha feito. E ela perguntou à mulher: "Foi isto mesmo que ele disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? "
Respondeu a mulher à serpente: "Podemos comer do fruto das árvores do jardim,
mas ele disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ ".
Disse a serpente à mulher: "Certamente não morrerão! Ele sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como ele, conhecedores do bem e do mal".
Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.

Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se. Ouvindo o homem e sua mulher os meus passos, esconderam-se de mim entre as árvores do jardim. Mas eu chamei o homem e perguntei: "Onde está você? " E ele respondeu: "Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi". Perguntei: "Quem lhe disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi comer? " Disse o homem: "Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi".

Perguntei, então à mulher: "Que foi que você fez? " Respondeu a mulher: "A serpente me enganou, e eu comi". Então eu declarei à serpente: "Já que você fez isso, maldita é você entre todos os rebanhos domésticos e entre todos os animais selvagens! Sobre o seu ventre você rastejará, e pó comerá todos os dias da sua vida. Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar".

À mulher, declarei: "Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará".

E ao homem declarei: "Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas, e você terá que alimentar-se das plantas do campo. Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará".

Adão deu à sua mulher o nome de Eva, pois ela seria mãe de toda a humanidade. Eu fiz roupas de pele e com elas vesti Adão e sua mulher. Então eu disse: "Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele também tome do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre". Por isso eu o mandei embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado. Depois de expulsar o homem, coloquei a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.


Lendas

Noé

Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos viram que as filhas dos homens eram bonitas e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então eu disse: "Por causa da perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele para sempre; e ele só viverá cento e vinte anos".

Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos dos homens possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.

Eu  vi que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. Então eu me  arrependi de ter feito o homem sobre a terra; e isso me cortou o coração. Eu disse: "Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, os homens e também os animais grandes, os animais pequenos e as aves do céu. Arrependo-me de havê-los feito".

A Noé, porém, eu mostrei benevolência. Esta é a história da família de Noé: Noé era homem justo, íntegro entre o povo da sua época; ele andava comigo. Noé gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé.
Ora, a terra estava corrompida aos meus olhos e cheia de violência. Ao ver como a terra se corrompera, pois toda a humanidade havia corrompido a sua conduta, eu disse a Noé: "Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei juntamente com a terra.

 Você, porém, fará uma arca de madeira de cipreste; divida-a em compartimentos e revista-a de piche por dentro e por fora. Faça-a com cento e trinta e cinco metros de comprimento, vinte e dois metros e meio de largura e treze metros e meio de altura. Faça-lhe um teto com um vão de quarenta e cinco centímetros entre o teto e corpo da arca. Coloque uma porta lateral na arca e faça um andar superior, um médio e um inferior.

"Eis que vou trazer águas sobre a terra, o Dilúvio, para destruir debaixo do céu toda criatura que tem fôlego de vida. Tudo o que há na terra perecerá. Mas com você estabelecerei a minha aliança, e você entrará na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos. Faça entrar na arca um casal de cada um dos seres vivos, macho e fêmea, para conservá-los vivos com você.

De cada espécie de ave, de cada espécie de animal grande e de cada espécie de animal pequeno que se move rente ao chão virá um casal a você para que sejam conservados vivos. E armazene todo tipo de alimento, para que você e eles tenham mantimento". Noé fez tudo exatamente como eu lhe tinha ordenado. 

Lendas

Abel e Caim

Adão teve relações com Eva, sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Caim. Disse ela: "Com o auxílio do criador tive um filho homem". Voltou a dar à luz, desta vez a Abel, irmão dele. Abel tornou-se pastor de ovelhas, e Caim, agricultor. Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta para mim. Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das primeiras crias do seu rebanho. Eu  aceitei com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitei Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou.

Eu disse a Caim: "Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo". Disse, porém, Caim a seu irmão Abel: "Vamos para o campo". Quando estavam lá, Caim atacou seu irmão Abel e o matou.

Então eu perguntei a Caim: "Onde está seu irmão Abel? " Respondeu ele: "Não sei; sou eu o responsável por meu irmão? " Eu disse: "O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando. Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu a boca para receber da sua mão o sangue do seu irmão. Quando você cultivar a terra, esta não lhe dará mais da sua força. Você será um fugitivo errante pelo mundo".

Disse-me Caim: "Meu castigo é maior do que posso suportar. Hoje me expulsas desta terra, e terei que me esconder da tua face; serei um fugitivo errante pelo mundo, e qualquer que me encontrar me matará". Mas eu lhe respondi: "Não será assim; se alguém matar Caim, sofrerá sete vezes a vingança". E  coloquei em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a encontrá-lo o matasse.

Novamente Adão teve relações com sua mulher, e ela deu à luz outro filho, a quem chamou Sete, dizendo: "O criador me concedeu um filho no lugar de Abel, visto que Caim o matou". Também a Sete nasceu um filho, a quem deu o nome de Enos. Nessa época começou-se a invocar o meu nome.

Então Caim afastou-se da minha presença  e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque.

A Enoque nasceu-lhe Irade, Irade gerou a Meujael, Meujael a Metusael, e Metusael a Lameque.
Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá.
Ada deu à luz Jabal, que foi o pai daqueles que moram em tendas e criam rebanhos.
O nome do irmão dele era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta.
Zilá também deu à luz um filho, Tubalcaim, que fabricava todo tipo de ferramentas de bronze e de ferro. Tubalcaim teve uma irmã chamada Naamá.

Lendas

Abrão e Ló

Eu disse disse a Abrão: "Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. "Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados".

Partiu Abrão, como eu lhe ordenara . Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Levou sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que haviam acumulado e os seus servos, comprados em Harã; partiram para a terra de Canaã e lá chegaram. Abrão atravessou a terra até o lugar do Carvalho de Moré, em Siquém. Naquela época os cananeus habitavam essa terra.

Eu disse a Abrão: "À sua descendência darei esta terra". Abrão construiu ali um altar dedicado a mim. Dali prosseguiu em direção às colinas a leste de Betel, onde armou acampamento, tendo Betel a oeste e Ai a leste. Construiu ali um altar dedicado a mim e invocou o meu nome.

Depois Abrão partiu e prosseguiu em direção ao Neguebe. Houve fome naquela terra, e Abrão desceu ao Egito para ali viver algum tempo, pois a fome era rigorosa. Quando estava chegando ao Egito, disse a Sarai, sua mulher: "Bem sei que você é bonita. Quando os egípcios a virem, dirão: ‘Esta é a mulher dele’. E me matarão, mas deixarão você viva. Diga que é minha irmã, para que me tratem bem por amor a você e minha vida seja poupada por sua causa".

Quando Abrão chegou ao Egito, viram os egípcios que Sarai era uma mulher muito bonita. Vendo-a, os homens da corte do faraó a elogiaram diante do faraó, e ela foi levada ao seu palácio. Ele tratou bem a Abrão por causa dela, e Abrão recebeu ovelhas e bois, jumentos e jumentas, servos e servas, e camelos.

Mas eu puni o faraó e sua corte com graves doenças, por causa de Sarai, mulher de Abrão. Por isso o faraó mandou chamar Abrão e disse: "O que você fez comigo? Por que não me falou que ela era sua mulher? Por que disse que ela era sua irmã? Foi por isso que eu a tomei para ser minha mulher. Aí está a sua mulher. Tome-a e vá! " A seguir o faraó deu ordens para que providenciassem o necessário para que Abrão partisse, com sua mulher e com tudo o que possuía.

Saiu, pois, Abrão do Egito e foi para o Neguebe, com sua mulher e com tudo o que possuía, e Ló foi com ele. Abrão tinha enriquecido muito, tanto em gado como em prata e ouro. Ele partiu do Neguebe em direção a Betel, indo de um lugar a outro, até que chegou ao lugar entre Betel e Ai onde já havia armado acampamento anteriormente e onde, pela primeira vez, tinha construído um altar. Ali Abrão invocou o meu nome.

Ló, que acompanhava Abrão, também possuía rebanhos e tendas. E não podiam morar os dois juntos na mesma região, porque possuíam tantos bens que a terra não podia sustentá-los. Por isso surgiu uma desavença entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os de Ló. Nessa época os cananeus e os ferezeus habitavam aquela terra. Então Abrão disse a Ló: "Não haja desavença entre mim e você, ou entre os seus pastores e os meus; afinal somos irmãos!

Aí está a terra inteira diante de você. Vamos nos separar! Se você for para a esquerda, irei para a direita; se for para a direita, irei para a esquerda". Olhou então Ló e viu todo o vale do Jordão, todo ele bem irrigado, até Zoar; era como a terra do Egito.  Ló escolheu todo o vale do Jordão e partiu em direção ao Leste. Assim os dois se separaram: Abrão ficou na terra de Canaã, mas Ló mudou seu acampamento para um lugar próximo a Sodoma, entre as cidades do vale.

Naquela época Anrafel, rei de Sinear, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, foram à guerra contra Bera, rei de Sodoma, contra Birsa, rei de Gomorra, contra Sinabe, rei de Admá, contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Belá, que é Zoar. Todos esses últimos juntaram suas tropas no vale de Sidim, onde fica o mar Salgado. Doze anos estiveram sujeitos a Quedorlaomer, mas no décimo terceiro ano se rebelaram.

 No décimo quarto ano, Quedorlaomer e os reis que a ele tinham-se aliado derrotaram os refains em Asterote-Carnaim, os zuzins em Hã, os emins em Savé-Quiriataim e os horeus desde os montes de Seir até El-Parã, próximo ao deserto. Depois, voltaram e foram para En-Mispate, que é Cades, e conquistaram todo o território dos amalequitas e dos amorreus que viviam em Hazazom-Tamar. Então os reis de Sodoma, de Gomorra, de Admá, de Zeboim e de Belá, que é Zoar, marcharam e tomaram posição de combate no vale de Sidim contra Quedorlaomer, rei de Elão, contra Tidal, rei de Goim, contra Anrafel, rei de Sinear, e contra Arioque, rei de Elasar.

 Eram quatro reis contra cinco. Ora, o vale de Sidim era cheio de poços de betume e, quando os reis de Sodoma e de Gomorra fugiram, alguns dos seus homens caíram nos poços e o restante escapou para os montes. Os vencedores saquearam todos os bens de Sodoma e de Gomorra e todo o seu mantimento, e partiram.  Levaram também Ló, sobrinho de Abrão, e os bens que ele possuía, visto que morava em Sodoma.

 Mas alguém que tinha escapado veio e relatou tudo a Abrão, o hebreu, que vivia próximo aos carvalhos de Manre, o amorreu. Manre e os seus irmãos Escol e Aner eram aliados de Abrão. Quando Abrão ouviu que seu parente fora levado prisioneiro, mandou convocar os trezentos e dezoito homens treinados, nascidos em sua casa, e saiu em perseguição aos inimigos até Dã. Atacou-os durante a noite em grupos, e assim os derrotou, perseguindo-os até Hobá, ao norte de Damasco.  Recuperou todos os bens e trouxe de volta seu parente Ló com tudo o que possuía, com as mulheres e o restante dos prisioneiros.

Abrão  foi viver entre Cades e Sur. Depois morou algum tempo em Gerar. Ele dizia que Sara, sua mulher, era sua irmã. Então Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscar Sara e tomou-a para si. Certa noite eu vim a Abimeleque num sonho e lhe disse: "Você morrerá! A mulher que você tomou é casada". Mas Abimeleque, que ainda não havia tocado nela, disse: "Tu, destruirias um povo inocente? Não foi ele que me disse: ‘Ela é minha irmã’? E ela também não disse: ‘Ele é meu irmão’? O que fiz foi de coração puro e de mãos limpas".

Então eu lhe respondi no sonho: "Sim, eu sei que você fez isso de coração puro. Eu mesmo impedi que você pecasse contra mim e por isso não lhe permiti tocá-la. Agora devolva a mulher ao marido dela. Ele é profeta, e orará em seu favor, para que você não morra. Mas se não a devolver, esteja certo de que você e todos os seus morrerão".

Na manhã seguinte, Abimeleque convocou todos os seus conselheiros e, quando lhes contou tudo o que acontecera, tiveram muito medo. Depois Abimeleque chamou Abrão e disse: "O que fizeste conosco? Em que foi que pequei contra ti para que trouxesses tamanha culpa sobre mim e sobre o meu reino? O que me fizeste não se faz a ninguém! " E perguntou Abimeleque a Abrão: "O que te levou a fazer isso? " Abrão respondeu: "Eu disse a mim mesmo: Certamente ninguém teme o criador neste lugar, e irão matar-me por causa da minha mulher. Além disso, na verdade ela é minha irmã por parte de pai, mas não por parte de mãe; e veio a ser minha mulher. E quando o criador me fez sair errante da casa de meu pai, eu disse a ela: Assim você me provará sua lealdade: em qualquer lugar aonde formos, diga que sou seu irmão".

Então Abimeleque trouxe ovelhas e bois, servos e servas, deu-os a Abrão e devolveu-lhe Sara, sua mulher. E disse Abimeleque: "Minha terra está diante de ti; podes ficar onde quiseres". A Sara ele disse: "Estou dando a seu irmão mil peças de prata, para reparar a ofensa feita a você diante de todos os seus; assim todos saberão que você é inocente". A seguir Abrão orou a mim, e eu curei Abimeleque, sua mulher e suas servas, de forma que puderam novamente ter filhos, porque eu havia tornado estéreis todas as mulheres da casa de Abimeleque por causa de Sara, mulher de Abraão.

*Domínio Público

Babel

 No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo de falar. Saindo os homens do Oriente, encontraram uma planície em Sinear e ali se fixaram. Disseram uns aos outros: "Vamos fazer tijolos e queimá-los bem". Usavam tijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Depois disseram: "Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance o céu. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra". Eu desci  para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse : "Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Assim eu os dispersei dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada Babel, porque ali eu confundi  a língua de todo o mundo. Dali eu os espalhei por toda a terra.


Este é o registro da descendência de Adão:

Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.

Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 930 anos e morreu.

Aos 105 anos, Sete gerou Enos.

Depois que gerou Enos, Sete viveu 807 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 912 anos e morreu.

Aos 90 anos, Enos gerou Cainã.

Depois que gerou Cainã, Enos viveu 815 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 905 anos e morreu.

Aos 70 anos, Cainã gerou Maalaleel.

Depois que gerou Maalaleel, Cainã viveu 840 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 910 anos e morreu.

Aos 65 anos, Maalaleel gerou Jarede.

Depois que gerou Jarede, Maalaleel viveu 830 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 895 anos e morreu.

Aos 162 anos, Jarede gerou Enoque.

Depois que gerou Enoque, Jarede viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 962 anos e morreu.

Aos 65 anos, Enoque gerou Matusalém.

Depois que gerou Matusalém, Enoque viveu 300 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 365 anos.

Enoque andou comigo; e já não foi encontrado, pois eu o havia arrebatado.

Aos 187 anos, Matusalém gerou Lameque.

Depois que gerou Lameque, Matusalém viveu 782 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 969 anos e morreu.

Aos 182 anos, Lameque gerou um filho.

Deu-lhe o nome de Noé e disse: "Ele nos aliviará do nosso trabalho e do sofrimento de nossas mãos, causados pela terra que o criador amaldiçoou".

Depois que Noé nasceu, Lameque viveu 595 anos e gerou outros filhos e filhas.

Viveu ao todo 777 anos e morreu.

Aos 500 anos, Noé tinha gerado Sem, Cam e Jafé.

* Domínio Público

Isaque, Esaú e Jacó

Esta é a história da família de Isaque, filho de Abrão:

 Abrão gerou Isaque, o qual aos quarenta anos se casou com Rebeca, filha de Betuel, o arameu de Padã-Arã, e irmã de Labão, também arameu. Isaque orou a mim em favor de sua mulher, porque era estéril. Eu respondeu à sua oração, e Rebeca, sua mulher, engravidou. Os meninos se empurravam dentro dela, pelo que disse: "Por que está me acontecendo isso? " Foi então consultar a mim.

 Disse-lhe: "Duas nações estão em seu ventre, já desde as suas entranhas dois povos se separarão; um deles será mais forte que o outro, mas o mais velho servirá ao mais novo". Ao chegar a época de dar à luz, confirmou-se que havia gêmeos em seu ventre. O primeiro a sair era ruivo, e todo o seu corpo era como um manto de pelos; por isso lhe deram o nome de Esaú. Depois saiu seu irmão, com a mão agarrada no calcanhar de Esaú; pelo que lhe deram o nome de Jacó.

 Tinha Isaque sessenta anos de idade quando Rebeca os deu à luz. Os meninos cresceram. Esaú tornou-se caçador habilidoso e vivia percorrendo os campos, ao passo que Jacó cuidava do rebanho e vivia nas tendas. Isaque preferia Esaú, porque gostava de comer de suas caças; Rebeca preferia Jacó.

Certa vez, quando Jacó preparava um ensopado, Esaú chegou faminto, voltando do campo, e pediu-lhe: "Dê-me um pouco desse ensopado vermelho aí. Estou faminto! " Respondeu-lhe Jacó: "Venda-me primeiro o seu direito de filho mais velho". Disse Esaú: "Estou quase morrendo. De que me vale esse direito? " Jacó, porém, insistiu: "Jure primeiro". Então ele fez um juramento, vendendo o seu direito de filho mais velho a Jacó. Então Jacó serviu a Esaú pão com ensopado de lentilhas. Ele comeu e bebeu, levantou-se e se foi. Assim Esaú desprezou o seu direito de filho mais velho.

Houve fome naquela terra, como tinha acontecido no tempo de Abrão.  Por isso Isaque foi para Gerar, onde Abimeleque era o rei dos filisteus. Eu apareci a Isaque e disse: "Não desça ao Egito; procure estabelecer-se na terra que eu lhe indicar. Permaneça nesta terra mais um pouco, e eu estarei com você e o abençoarei. Porque a você e a seus descendentes darei todas estas terras e confirmarei o juramento que fiz a seu pai Abrão. Tornarei seus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e lhes darei todas estas terras; e por meio da sua descendência todos os povos da terra serão abençoados, porque Abrão me obedeceu e guardou meus preceitos, meus mandamentos, meus decretos e minhas leis". Assim Isaque ficou em Gerar.

 Quando os homens do lugar lhe perguntaram sobre a sua mulher, ele disse: "Ela é minha irmã". Teve medo de dizer que era sua mulher, pois pensou: "Os homens deste lugar podem matar-me por causa de Rebeca, por ser ela tão bonita". Isaque estava em Gerar já fazia muito tempo.

Certo dia, Abimeleque, rei dos filisteus, estava olhando do alto de uma janela quando viu Isaque acariciando Rebeca, sua mulher. Então Abimeleque chamou Isaque e lhe disse: "Na verdade ela é tua mulher! Por que me disseste que ela era tua irmã? " Isaque respondeu: "Porque pensei que eu poderia ser morto por causa dela". Então disse Abimeleque: "Tens ideia do que nos fizeste? Qualquer homem bem poderia ter-se deitado com tua mulher, e terias trazido culpa sobre nós". E Abimeleque ordenou a todo o povo: "Quem tocar neste homem ou em sua mulher certamente morrerá! "

Isaque formou lavoura naquela terra e no mesmo ano colheu a cem por um, porque eu o abençoei. O homem enriqueceu, e a sua riqueza continuou a aumentar, até que ficou riquíssimo. Possuía tantos rebanhos e servos que os filisteus o invejavam. Estes taparam todos os poços que os servos de Abrão, pai de Isaque, tinham cavado na sua época, enchendo-os de terra. Então Abimeleque pediu a Isaque: "Sai de nossa terra, pois já és poderoso demais para nós".

 Então Isaque mudou-se de lá, acampou no vale de Gerar e ali se estabeleceu. Isaque reabriu os poços cavados no tempo de seu pai Abrão, os quais os filisteus fecharam depois que Abrão morreu, e deu-lhes os mesmos nomes que seu pai lhes tinha dado. Os servos de Isaque cavaram no vale e descobriram um veio d’água.

 Mas os pastores de Gerar discutiram com os pastores de Isaque, dizendo: "A água é nossa! " Por isso Isaque deu ao poço o nome de Eseque, porque discutiram por causa dele.  Então os seus servos cavaram outro poço, mas eles também discutiram por causa dele; por isso o chamou Sitna. Isaque mudou-se dali e cavou outro poço, e ninguém discutiu por causa dele. Deu-lhe o nome de Reobote, dizendo: "Agora o criador nos abriu espaço e prosperaremos na terra".

 Dali Isaque foi para Berseba. Naquela noite, eu lhe apareci e disse: "Eu sou o criador de seu pai Abrão.  Não tema, porque estou com você; eu o abençoarei e multiplicarei os seus descendentes por amor ao meu servo Abrão". Isaque construiu nesse lugar um altar e invocou o meu nome. Ali armou acampamento, e os seus servos cavaram outro poço.

 Por aquele tempo, veio a ele Abimeleque, de Gerar, com Auzate, seu conselheiro pessoal, e Ficol, o comandante dos seus exércitos. Isaque lhes perguntou: "Por que me vieram ver, uma vez que foram hostis e me mandaram embora? "  Eles responderam: "Vimos claramente que o criador está contigo; por isso dissemos: Façamos um juramento entre nós. Queremos firmar um acordo contigo: Tu não nos farás mal, assim como nada te fizemos, mas sempre te tratamos bem e te despedimos em paz. Agora sabemos que o criador te tem abençoado".

 Então Isaque ofereceu-lhes um banquete, e eles comeram e beberam. Na manhã seguinte os dois fizeram juramento. Depois Isaque os despediu e partiram em paz. Naquele mesmo dia os servos de Isaque vieram falar-lhe sobre o poço que tinham cavado, e disseram: "Achamos água! "
 Isaque deu-lhe o nome de Seba e, por isso, até o dia de hoje aquela cidade é conhecida como Berseba. Tinha Esaú quarenta anos de idade quando escolheu por mulher a Judite, filha de Beeri, o hitita, e também a Basemate, filha de Elom, o hitita.


Tendo Isaque envelhecido, seus olhos ficaram tão fracos que ele já não podia enxergar. Certo dia chamou Esaú, seu filho mais velho, e lhe disse: "Meu filho! " Ele respondeu: "Estou aqui". Disse-lhe Isaque: "Já estou velho e não sei o dia da minha morte. Pegue agora suas armas, o arco e a aljava, e vá ao campo caçar alguma coisa para mim. Prepare-me aquela comida saborosa que tanto aprecio e traga-me, para que eu a coma e o abençoe antes de morrer".

Ora, Rebeca estava ouvindo o que Isaque dizia a seu filho Esaú. Quando Esaú saiu ao campo para caçar, Rebeca disse a seu filho Jacó: "Ouvi seu pai dizer a seu irmão Esaú: ‘Traga-me alguma caça e prepare-me aquela comida saborosa, para que eu a coma e o abençoe na presença do criador antes de morrer’. Agora, meu filho, ouça bem e faça o que lhe ordeno:

Vá ao rebanho e traga-me dois cabritos escolhidos, para que eu prepare uma comida saborosa para seu pai, como ele aprecia. Leve-a então a seu pai, para que ele a coma e o abençoe antes de morrer".
Disse Jacó a Rebeca, sua mãe: "Mas o meu irmão Esaú é homem peludo, e eu tenho a pele lisa.
E se meu pai me apalpar? Vai parecer que estou tentando enganá-lo, fazendo-o de tolo e, em vez de bênção, trarei sobre mim maldição".

Disse-lhe sua mãe: "Caia sobre mim a maldição, meu filho. Faça apenas o que eu digo: Vá e traga-os para mim". Então ele foi, apanhou-os e os trouxe à sua mãe, que preparou uma comida saborosa, como seu pai apreciava. Rebeca pegou as melhores roupas de Esaú, seu filho mais velho, roupas que tinha em casa, e colocou-as em Jacó, seu filho mais novo. Depois cobriu-lhe as mãos e a parte lisa do pescoço com as peles dos cabritos, e por fim entregou a Jacó a refeição saborosa e o pão que tinha feito.

Ele se dirigiu ao pai e disse: "Meu pai". Respondeu ele: "Sim, meu filho. Quem é você? "
Jacó disse a seu pai: "Sou Esaú, seu filho mais velho. Fiz como o senhor me disse. Agora, assente-se e coma do que cacei para que me abençoe". Isaque perguntou ao filho: "Como encontrou a caça tão depressa, meu filho? " Ele respondeu: "O criador, a colocou no meu caminho".

Então Isaque disse a Jacó: "Chegue mais perto, meu filho, para que eu possa apalpá-lo e saber se você é realmente meu filho Esaú". Jacó aproximou-se do seu pai Isaque, que o apalpou e disse: "A voz é de Jacó, mas os braços são de Esaú". Não o reconheceu, pois seus braços estavam peludos como os de Esaú, seu irmão; e o abençoou.

Isaque perguntou-lhe outra vez: "Você é mesmo meu filho Esaú? " E ele respondeu: "Sou".
Então lhe disse: "Meu filho, traga-me da sua caça para que eu coma e o abençoe". Jacó a trouxe, e o pai comeu; também trouxe vinho, e ele bebeu. Então seu pai Isaque lhe disse: "Venha cá, meu filho, dê-me um beijo".

Quando Isaque acabou de abençoar Jacó, mal tendo ele saído da presença do pai, seu irmão Esaú chegou da caçada. Ele também preparou uma comida saborosa e a trouxe a seu pai. E lhe disse: "Meu pai, levante-se e coma da minha caça, para que o senhor me dê sua bênção". Perguntou-lhe seu pai Isaque: "Quem é você? " Ele respondeu: "Sou Esaú, seu filho mais velho".

Profundamente abalado, Isaque começou a tremer muito e disse: "Quem então apanhou a caça e a trouxe para mim? Acabei de comê-la antes de você entrar e a ele abençoei; e abençoado ele será! "
Quando Esaú ouviu as palavras de seu pai, deu um forte grito e, cheio de amargura, implorou ao pai: "Abençoe também a mim, meu pai! "

Mas ele respondeu: "Seu irmão chegou astutamente e recebeu a bênção que pertencia a você".
E disse Esaú: "Não é com razão que o seu nome é Jacó? Já é a segunda vez que ele me engana! Primeiro, tomou o meu direito de filho mais velho e agora recebeu a minha bênção! " Então perguntou ao pai: "O senhor não reservou nenhuma bênção para mim? "

Esaú guardou rancor contra Jacó por causa da bênção que seu pai lhe dera. E disse a si mesmo: "Os dias de luto pela morte de meu pai estão próximos; então matarei meu irmão Jacó".

*Domínio Público

Sarai e Hagar

Sarai, mulher de Abrão, não lhe dera nenhum filho. Como tinha uma serva egípcia, chamada Hagar, disse a Abrão: "Já que o criador me impediu de ter filhos, possua a minha serva; talvez eu possa formar família por meio dela". Abrão atendeu à proposta de Sarai. Quando isso aconteceu já fazia dez anos que Abrão, seu marido, vivia em Canaã. Foi nessa ocasião que Sarai, sua mulher, entregou sua serva egípcia Hagar a Abrão. Ele possuiu Hagar, e ela engravidou. Quando se viu grávida, começou a olhar com desprezo para a sua senhora. Então Sarai disse a Abrão: "Caia sobre você a afronta que venho sofrendo. Coloquei minha serva em seus braços, e agora que ela sabe que engravidou, despreza-me. Que o criador seja o juiz entre mim e você".

 Respondeu Abrão a Sarai: "Sua serva está em suas mãos. Faça com ela o que achar melhor". Então Sarai tanto maltratou Hagar que esta acabou fugindo. Um enviado por mim encontrou Hagar perto de uma fonte no deserto, no caminho de Sur, e perguntou-lhe: "Hagar, serva de Sarai, de onde você vem? Para onde vai? " Respondeu ela: "Estou fugindo de Sarai, a minha senhora". Disse-lhe então o meu enviado: "Volte à sua senhora e sujeite-se a ela". Disse mais: "Multiplicarei tanto os seus descendentes que ninguém os poderá contar". Disse-lhe ainda: "Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o criador a ouviu em seu sofrimento. Ele será como jumento selvagem; sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele, e ele viverá em hostilidade contra todos os seus irmãos".  Hagar teve um filho de Abrão, e este lhe deu o nome de Ismael. Abrão estava com oitenta e seis anos de idade quando Hagar lhe deu Ismael.

Tempos depois Sarai teve um filho com Abrão, que lhe deu o nome de Isaque.No dia em que Isaque foi desmamado, Abrão deu uma grande festa. Sarai, porém, viu que o filho que Hagar, a egípcia, dera a Abrão estava rindo de Isaque, e disse a Abrão: "Livre-se daquela escrava e do seu filho, porque ele jamais será herdeiro com o meu filho Isaque". Isso perturbou demais Abrão, pois envolvia um filho seu. Mas eu lhe disse: "Não se perturbe por causa do menino e da escrava. Atenda a tudo o que Sarai lhe pedir, porque será por meio de Isaque que a sua descendência há de ser considerada. Mas também do filho da escrava farei um povo; afinal ele é seu descendente".

 Na manhã seguinte, Abrão pegou alguns pães e uma vasilha de couro cheia d’água, entregou-os a Hagar e, tendo-os colocado nos ombros dela, despediu-a com o menino. Ela se pôs a caminho e ficou vagando pelo deserto de Berseba. Quando acabou a água da vasilha, ela deixou o menino debaixo de um arbusto e foi sentar-se perto dali, à distância de um tiro de flecha, porque pensou: "Não posso ver o menino morrer".

 Sentada ali perto, começou a chorar. Eu ouviu o choro do menino, e o meu enviado, do céu, chamou Hagar e lhe disse: "O que a aflige, Hagar? Não tenha medo; o criador ouviu o menino chorar, lá onde você o deixou. Levante o menino e tome-o pela mão, porque dele será feito  um grande povo". Então eu lhe abri os olhos, e ela viu uma fonte. Foi até lá, encheu de água a vasilha e deu de beber ao menino. Eu estava com o menino. Ele cresceu, viveu no deserto e tornou-se flecheiro.

*Domínio Público

Labão e Jacó

Jacó ouviu falar que os filhos de Labão estavam dizendo: "Jacó tomou tudo que o nosso pai tinha e juntou toda a sua riqueza à custa do nosso pai". E Jacó percebeu que a atitude de Labão para com ele já não era a mesma de antes. Então eu disse a Jacó: "Volte para a terra de seus pais e de seus parentes, e eu estarei com você".

Então Jacó mandou chamar Raquel e Lia para virem ao campo onde estavam os seus rebanhos,
e lhes disse: "Vejo que a atitude do seu pai para comigo não é mais a mesma, mas o criador tem estado comigo. Vocês sabem que trabalhei para seu pai com todo o empenho, mas ele tem me feito de tolo, mudando o meu salário dez vezes.  Contudo, o criador não permitiu que ele me prejudicasse.

Se ele dizia: ‘As crias salpicadas serão o seu salário’, todos os rebanhos geravam filhotes salpicados; e se ele dizia: ‘As que têm listras serão o seu salário’, todos os rebanhos geravam filhotes com listras.
Foi assim que o criador tirou os rebanhos de seu pai e os deu a mim. "Na época do acasalamento tive um sonho em que olhei e vi que os machos que fecundavam o rebanho tinham listras, eram salpicados e malhados.

O enviado do criador me disse no sonho: ‘Jacó! ’ Eu respondi: ‘Eis-me aqui! ’ Então ele disse: ‘Olhe e veja que todos os machos que fecundam o rebanho têm listras, são salpicados e malhados, porque tenho visto tudo o que Labão lhe fez. Sou o enviado do criador de Betel, onde você ungiu uma coluna e  fez um voto. Saia agora desta terra e volte para a sua terra natal’ ".

Raquel e Lia disseram a Jacó: "Temos ainda parte na herança dos bens de nosso pai? Não nos trata ele como estrangeiras? Não apenas nos vendeu como também gastou tudo o que foi pago por nós!
Toda a riqueza que o criador tirou de nosso pai é nossa e de nossos filhos. Portanto, faça tudo quanto o criador lhe ordenou".

Então Jacó ajudou seus filhos e suas mulheres a montar nos camelos, e conduziu todo o seu rebanho, junto com todos os bens que havia acumulado em Padã-Arã, para ir à terra de Canaã, à casa de seu pai Isaque. Enquanto Labão tinha saído para tosquiar suas ovelhas, Raquel roubou de seu pai os ídolos do clã. Foi assim que Jacó enganou a Labão, o arameu, fugindo sem lhe dizer nada.

Ele fugiu com tudo o que tinha e, atravessando o Eufrates, foi para os montes de Gileade. Três dias depois, Labão foi informado de que Jacó tinha fugido. Tomando consigo os homens de sua família, perseguiu Jacó por sete dias e o alcançou nos montes de Gileade. Então, de noite, eu vim em sonho a Labão, o arameu, e o adverti: "Cuidado! Não diga nada a Jacó, não lhe faça promessas nem ameaças". Labão alcançou Jacó, que estava acampado nos montes de Gileade. Então Labão e os homens se acamparam ali também.

Ele perguntou a Jacó: "Que foi que você fez? Não só me enganou como também raptou minhas filhas como se fossem prisioneiras de guerra. Por que você me enganou, fugindo em segredo, sem avisar-me? Eu teria celebrado a sua partida com alegria e cantos, ao som dos tamborins e das harpas.
Você sequer me deixou beijar meus netos e minhas filhas para despedir-me deles. Você foi insensato.
Tenho poder para prejudicá-los; mas, na noite passada, o criador do pai de vocês me advertiu: ‘Cuidado! Não diga nada a Jacó, não lhe faça promessas nem ameaças’.

Agora, se você partiu porque tinha saudade da casa de seu pai, por que roubou meus deuses? "
Jacó respondeu a Labão: "Tive medo, pois pensei que você tiraria suas filhas de mim à força.
Quanto aos seus deuses, quem for encontrado com eles não ficará vivo. Na presença dos nossos parentes, veja você mesmo se está aqui comigo qualquer coisa que lhe pertença, e, se estiver, leve-a de volta". Ora, Jacó não sabia que Raquel os havia roubado.

Então Labão entrou na tenda de Jacó, e nas tendas de Lia e de suas duas servas, mas nada encontrou. Depois de sair da tenda de Lia, entrou na tenda de Raquel. Raquel tinha colocado os ídolos dentro da sela do seu camelo e estava sentada em cima. Labão vasculhou toda a tenda, mas nada encontrou.
Raquel disse ao pai: "Não se irrite, meu senhor, por não poder me levantar em sua presença, pois estou com o fluxo das mulheres". Ele procurou os ídolos, mas não os encontrou. Jacó ficou irado e queixou-se a Labão: "Qual foi meu crime? Que pecado cometi para que você me persiga furiosamente?

Você já vasculhou tudo o que me pertence. Encontrou algo que lhe pertença? Então coloque tudo aqui na frente dos meus parentes e dos seus, e que eles julguem entre nós dois. "Vinte anos estive com você. Suas ovelhas e cabras nunca abortaram, e jamais comi um só carneiro do seu rebanho. Eu nunca levava a você os animais despedaçados por feras; eu mesmo assumia o prejuízo. E você pedia contas de todo animal roubado de dia ou de noite. O calor me consumia de dia, e o frio, de noite, e o sono fugia dos meus olhos.

Foi assim nos vinte anos em que fiquei em sua casa. Trabalhei para você catorze anos em troca de suas duas filhas e seis anos por seus rebanhos, e dez vezes você alterou o meu salário. Se o criador de meu pai, o criador de Abrão, o Temor de Isaque, não estivesse comigo, certamente você me despediria de mãos vazias. Mas o criador viu o meu sofrimento e o trabalho das minhas mãos e, na noite passada, ele manifestou a sua decisão".

Labão respondeu a Jacó: "As mulheres são minhas filhas, os filhos são meus, os rebanhos são meus. Tudo o que você vê é meu. Que posso fazer por essas minhas filhas ou pelos filhos que delas nasceram? Façamos agora, eu e você, um acordo que sirva de testemunho entre nós dois". Então Jacó tomou uma pedra e a colocou de pé como coluna. E disse aos seus parentes: "Juntem algumas pedras". Eles apanharam pedras e as amontoaram. Depois comeram ali, ao lado do monte de pedras.
Labão o chamou Jegar-Saaduta, e Jacó o chamou Galeede.

Labão disse: "Este monte de pedras é uma testemunha entre mim e você, no dia de hoje". Por isso foi chamado Galeede. Foi também chamado Mispá, porque ele declarou: "Que o criador nos vigie, a mim e a você, quando estivermos separados um do outro. Se você maltratar minhas filhas ou menosprezá-las, tomando outras mulheres além delas, ainda que ninguém saiba, lembre-se de que o criador é testemunha entre mim e você". Disse ainda Labão a Jacó: "Aqui estão este monte de pedras e esta coluna que coloquei entre mim e você. São testemunhas de que não passarei para o lado de lá para prejudicá-lo, nem você passará para o lado de cá para prejudicar-me.

Que o criador de Abrão, o criador de Naor, o criador do pai deles, julgue entre nós". Então Jacó fez um juramento em nome do Temor de seu pai Isaque. Ofereceu um sacrifício no monte e chamou os parentes que lá estavam para uma refeição. Depois de comerem, passaram a noite ali. Na manhã seguinte, Labão beijou seus netos e suas filhas e os abençoou, e depois voltou para a sua terra.

*Domínio Público

Lia e Raquel

Labão tinha duas filhas; o nome da mais velha era Lia, e o da mais nova, Raquel. Lia tinha olhos meigos, mas Raquel era bonita e atraente. Como Jacó gostava muito de Raquel, disse: "Trabalharei sete anos em troca de Raquel, sua filha mais nova". Labão respondeu: "Será melhor dá-la a você do que a algum outro homem. Fique aqui comigo". Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava.

Então disse Jacó a Labão: "Entregue-me a minha mulher. Cumpri o prazo previsto e quero deitar-me com ela". Então Labão reuniu todo o povo daquele lugar e deu uma festa. Mas quando a noite chegou, deu sua filha Lia a Jacó, e Jacó deitou-se com ela. Labão também entregou sua serva Zilpa à sua filha, para que ficasse a serviço dela. Quando chegou a manhã, lá estava Lia. Então Jacó disse a Labão: "Que foi que você me fez? Eu não trabalhei por Raquel? Por que você me enganou? "

Labão respondeu: "Aqui não é costume entregar em casamento a filha mais nova antes da mais velha.
Deixe passar esta semana de núpcias e lhe daremos também a mais nova, em troca de mais sete anos de trabalho". Jacó concordou. Passou aquela semana de núpcias com Lia, e Labão lhe deu sua filha Raquel por mulher. Labão deu a Raquel sua serva Bila, para que ficasse a serviço dela.
Jacó deitou-se também com Raquel, que era a sua preferida. E trabalhou para Labão outros sete anos.

Quando eu vi que Lia era desprezada, concedi-lhe filhos; Raquel, porém, era estéril. Lia engravidou, deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Rúben, pois dizia: "O criador viu a minha infelicidade. Agora, certamente o meu marido me amará". Lia engravidou de novo e, quando deu à luz outro filho, disse: "Porque o criador ouviu que sou desprezada, deu-me também este". Pelo que o chamou Simeão. De novo engravidou e, quando deu à luz mais um filho, disse: "Agora, finalmente, meu marido se apegará a mim, porque já lhe dei três filhos". Por isso deu-lhe o nome de Levi. Engravidou ainda outra vez e, quando deu à luz mais outro filho, disse: "Desta vez louvarei ao criador". Assim deu-lhe o nome de Judá. Então parou de ter filhos.

Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse a Jacó: "Dê-me filhos ou morrerei! " Jacó ficou irritado e disse: "Por acaso estou no lugar do criador, que a impediu de ter filhos? " Então ela respondeu: "Aqui está Bila, minha serva. Deite-se com ela, para que tenha filhos em meu lugar e por meio dela eu também possa formar família". Por isso ela deu a Jacó sua serva Bila por mulher. Ele deitou-se com ela. Bila engravidou e deu-lhe um filho. Então Raquel disse: "O criador me fez justiça, ouviu o meu clamor e deu-me um filho". Por isso deu-lhe o nome de Dã. Bila, serva de Raquel, engravidou novamente e deu a Jacó o segundo filho. Então disse Raquel: "Tive grande luta com minha irmã e venci". Pelo que o chamou Naftali.

Quando Lia viu que tinha parado de ter filhos, tomou sua serva Zilpa e a deu a Jacó por mulher. Zilpa, serva de Lia, deu a Jacó um filho. Então disse Lia: "Que grande sorte! " Por isso o chamou Gade. Zilpa, serva de Lia, deu a Jacó mais um filho. Então Lia exclamou: "Como sou feliz! As mulheres dirão que sou feliz". Por isso lhe deu o nome de Aser.

Durante a colheita do trigo, Rúben saiu ao campo, encontrou algumas mandrágoras e as trouxe a Lia, sua mãe. Então Raquel disse a Lia: "Dê-me algumas mandrágoras do seu filho". Mas ela respondeu: "Não lhe foi suficiente tomar de mim o marido? Vai tomar também as mandrágoras que o meu filho trouxe? " Então disse Raquel: "Jacó se deitará com você esta noite, em troca das mandrágoras trazidas pelo seu filho". Quando Jacó chegou do campo naquela tarde, Lia saiu ao seu encontro e lhe disse: "Hoje você me possuirá, pois eu comprei esse direito com as mandrágoras do meu filho". E naquela noite ele se deitou com ela.

Depois que Raquel deu à luz José, Jacó disse a Labão: "Deixe-me voltar para a minha terra natal.
Dê-me as minhas mulheres, pelas quais o servi, e os meus filhos, e partirei. Você bem sabe quanto trabalhei para você". Mas Labão lhe disse: "Se mereço sua consideração, peço-lhe que fique. Por meio de adivinhação descobri que o criador me abençoou por sua causa". E acrescentou: "Diga o seu salário, e eu lhe pagarei".

Jacó lhe respondeu: "Você sabe quanto trabalhei para você e como os seus rebanhos cresceram sob os meus cuidados. O pouco que você possuía antes da minha chegada aumentou muito, pois o criador o abençoou depois que vim para cá. Contudo, quando farei algo em favor da minha própria família? "
Então Labão perguntou: "Que você quer que eu lhe dê? " "Não me dê coisa alguma", respondeu Jacó. "Voltarei a cuidar dos seus rebanhos se você concordar com o seguinte:

Hoje passarei por todos os seus rebanhos e tirarei do meio deles todas as ovelhas salpicadas e pintadas, todos os cordeiros pretos e todas as cabras pintadas e salpicadas. Eles serão o meu salário.
E a minha honestidade dará testemunho de mim no futuro, toda vez que você resolver verificar o meu salário. Se estiver em meu poder alguma cabra que não seja salpicada ou pintada, e algum cordeiro que não seja preto, poderá considerá-los roubados. "

E disse Labão: "De acordo. Seja como você disse".
Naquele mesmo dia Labão separou todos os bodes que tinham listras ou manchas brancas, todas as cabras que tinham pintas ou manchas brancas, e todos os cordeiros pretos e os colocou aos cuidados de seus filhos. Afastou-se então de Jacó, à distância equivalente a três dias de viagem, e Jacó continuou a apascentar o resto dos rebanhos de Labão.

Jacó pegou galhos verdes de estoraque, amendoeira e plátano e neles fez listras brancas, descascando-os parcialmente e expondo assim a parte branca interna dos galhos. Depois fixou os galhos descascados junto aos bebedouros, na frente dos rebanhos, no lugar onde costumavam beber água. Na época do cio, os rebanhos vinham beber e se acasalavam diante dos galhos. E geravam filhotes listrados, salpicados e pintados.

Jacó separava os filhotes do rebanho dos demais, e fazia com que esses ficassem juntos dos animais listrados e pretos de Labão. Assim foi formando o seu próprio rebanho que separou do de Labão.
Toda vez que as fêmeas mais fortes estavam no cio, Jacó colocava os galhos nos bebedouros, em frente dos animais, para que estes se acasalassem perto dos galhos; mas, se os animais eram fracos, não os colocava ali. Desse modo, os animais fracos ficavam para Labão e os mais fortes para Jacó.
Assim o homem ficou extremamente rico, tornando-se dono de grandes rebanhos e de servos e servas, camelos e jumentos. 

*Domínio Público

Diná e Siquém

Certa vez, Diná, a filha que Lia dera a Jacó, saiu para conhecer as mulheres daquela terra. Siquém, filho de Hamor, o heveu, governador daquela região, viu-a, agarrou-a e violentou-a. Mas o seu coração foi atraído por Diná, filha de Jacó, e ele amou a moça e falou-lhe com ternura. Por isso Siquém foi dizer a seu pai Hamor: "Consiga-me aquela moça para que seja minha mulher".

Quando Jacó soube que sua filha Diná tinha sido desonrada, seus filhos estavam no campo, com os rebanhos; por isso esperou calado, até que regressassem. Então Hamor, pai de Siquém, foi conversar com Jacó. Quando os filhos de Jacó voltaram do campo e souberam de tudo, ficaram profundamente entristecidos e irados, porque Siquém tinha cometido um ato vergonhoso ao deitar-se com a filha de Jacó — coisa que não se faz.

Mas Hamor lhes disse: "Meu filho Siquém apaixonou-se pela filha de vocês. Por favor, entreguem-na a ele para que seja sua mulher. Casem-se entre nós; deem-nos suas filhas e tomem para si as nossas.
Estabeleçam-se entre nós. A terra está aberta para vocês: Habitem-na, façam comércio nela e adquiram propriedades". Então Siquém disse ao pai e aos irmãos de Diná: "Concedam-me este favor, e eu lhes darei o que me pedirem. Aumentem quanto quiserem o preço e o presente pela noiva, e pagarei o que me pedirem. Tão-somente me deem a moça por mulher".

Os filhos de Jacó, porém, responderam com falsidade a Siquém e a seu pai Hamor, por ter Siquém desonrado Diná, a irmã deles. Disseram: "Não podemos fazer isso; jamais entregaremos nossa irmã a um homem que não seja circuncidado. Seria uma vergonha para nós. Daremos nosso consentimento a vocês com uma condição: que vocês se tornem como nós, circuncidando todos os do sexo masculino.
Só então lhes daremos as nossas filhas e poderemos casar-nos com as suas. Nós nos estabeleceremos entre vocês e seremos um só povo. Mas se não aceitarem circuncidar-se, tomaremos nossa irmã e partiremos".

A proposta deles pareceu boa a Hamor e a seu filho Siquém. O jovem, que era o mais respeitado de todos os da casa de seu pai, não demorou em cumprir o que pediram, porque realmente gostava da filha de Jacó. Assim Hamor e seu filho Siquém dirigiram-se à porta da cidade para conversar com os seus concidadãos. E disseram:

"Esses homens são de paz. Permitam que eles habitem em nossa terra e façam comércio entre nós; a terra tem bastante lugar para eles. Poderemos casar com as suas filhas, e eles com as nossas. Mas eles só consentirão em viver conosco como um só povo sob a condição de que todos os nossos homens sejam circuncidados, como eles. Lembrem-se de que os seus rebanhos, os seus bens e todos os seus outros animais passarão a ser nossos. Aceitemos então a condição para que se estabeleçam em nosso meio". Todos os que saíram para reunir-se à porta da cidade concordaram com Hamor e com seu filho Siquém, e todos os homens e meninos da cidade foram circuncidados.

 Três dias depois, quando ainda sofriam dores, dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, pegaram suas espadas e atacaram a cidade desprevenida, matando todos os homens. Mataram ao fio da espada Hamor e seu filho Siquém, tiraram Diná da casa de Siquém e partiram. Vieram então os outros filhos de Jacó e, passando pelos corpos, saquearam a cidade onde sua irmã tinha sido desonrada. Apoderaram-se das ovelhas, dos bois e dos jumentos, e de tudo o que havia na cidade e no campo. Levaram as mulheres e as crianças, e saquearam todos os bens e tudo o que havia nas casas.

Então Jacó disse a Simeão e a Levi: "Vocês me puseram em grandes apuros, atraindo sobre mim o ódio dos cananeus e dos ferezeus, habitantes desta terra. Somos poucos, e se eles juntarem suas forças e nos atacarem, eu e a minha família seremos destruídos".
Mas eles responderam: "Está certo ele tratar nossa irmã como uma prostituta? "


*Domínio Público