José Claisson Aléssio
Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, mas somos inocentes das fatalidades e acasos. As ferramentas para executarmos a tarefa de viver podem ser precárias. Escolhemos algo do roteiro, desenhamos alguma coisa nas margens. Podemos - tarefa ingrata - fazer nossos acréscimos, escrever uma "errata" sobre o texto daquele prefácio de nós. Somos nossa anistia ou nossa aniquilação; vestidos com nossas circunstâncias seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro.
Nisso reside nossa possível tragédia. Carregamos muito peso inútil, largamos no caminho objetos que poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Nosso patético reino da futilidade propõe a semeadura de uma vegetação rasteira de tolices. Não acredito em poses e posturas. Não acho que todos devêssemos ser filósofos, eremitas ou fanáticos de nenhuma religião.
Como invento histórias, gosto de fábulas - o essencial não tem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um. Somos a nossa ficção.
Versão compacta de Perdas e Danos de Lya Luft
José Claisson Aléssio
Uma explicação
A base de sua vida era mansa como um regato correndo no campo. E nesse mesmo campo ele próprio se movia como um animal a pastar. Largassem-no no deserto, na solidão das geleiras, em qualquer ponto da terra e conservaria o mesmo desligamento sereno. Ele nada esperava, era em si o próprio fim.
Se lhe aconteciam coisas, estas não eram ele e não se misturavam a sua verdadeira existência. É certo que lhe aconteciam coisas vindas de fora. Esse o fundo da narrativa. Às vezes esse fundo aparecia apagado, quase inexistente. Por que contar fatos e detalhes? Por que descrever mais do que isto?
Nunca suas interrogações saíram inquietas à procura de respostas. Nunca tentaram qualquer movimento para fora de si.
E de repente as coisas haviam endurecido, uma orquestra rebentara em sons tortos e silenciara imediatamente, havia alguma coisa triunfante e trágica no ar. Até que a ausência de si mesmo acabou por fazê-lo cair dentro da noite. O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho?
A entrevista
Eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto. É curioso como não sei dizer quem sou. O que deve fazer uma pessoa que não sabe o que dizer de si?
Vejo-me jogado num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. Há qualquer coisa que roda comigo, me atordoa e me deposita no mesmo lugar. O que devo fazer? Ajoelhar-me diante de Deus e pedir. O quê?
A prece
Deus meu eu vos espero, deus vinde a mim, deus brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre a minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer.
Deus, por que não existes dentro de mim? por que me fizeste separado de ti? deus vinde a mim, eu não sou nada: sou menos que o pó, eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me.
Vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre; chamo por vós e nada respondes.
Das profundezas clamo por vós.
Das profundezas clamo por vós.
Das profundezas clamo por vós.
Os relatórios
Relatório 1 : Nele há um medo enorme. Um medo anterior a qualquer julgamento e compreensão; tem o ar sério, interessado e ingênuo. É rápido e áspero nas conclusões; sinto que é capaz de matar uma pessoa.
Relatório 2 : A vida humana é complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou.
Relatório 3 : Sim, estou compreendendo as palavras com tudo que elas contém. Mas fico com a sensação de que elas possuem uma porta falsa, disfarçada, por onde se vai encontrar seu verdadeiro sentido; como flores sobre o túmulo as palavras são seixos rolando no rio.
Epílogo
Margarida a Violeta conhecia
uma era cega, uma bem louca vivia
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via.
Versão compacta de Perto do coração selvagem de Clarice Lispector
José Claisson Aléssio
Kacki Aléssio, 50,autor de rádio-novelas mais popular no Sul do país, dizia-se alimentar pela morbidez do vulgo. Humorista sutil, zombava dos seus ouvintes pelas falas de seus personagens. Que eram muitos. Tinha cinco novelas no ar e nenhum ajudante, dezesseis horas por dia entre textos e ensaios. Esgotou-se, começou a misturar os personagens. Um personagem morria na novela das dez; reaparecia na das onze. A mocinha da novela das duas casava com o galã da novela das três e assim por diante. O campeão de audiência precisou de um longo intervalo no Rio Maina.
***
Pedem que eu diga quem sou. Reconheço que sou burro e desgraçado. Melhor que pedante e sem graça. Mas não sou Kacki Aléssio, o personagem mais famoso de seu autor.Nunca, nem nas situações mais bizarras, perdi o senso de humor. Mas alguém estava me sacaneando.
Em outras palavras, minha vida ao entrar no reino do obscuro ficou, paradoxalmente, mais divertida.
Lembro que comecei a tomar gosto pela rua, me tornei um vagabundo interessante que fingia estar louco, o que me era muito rentável já que as pessoas se apiedavam de mim e me davam dinheiro.
Minha loucura consistia em ir por toda a cidade com uma vareta açoitando o chão em ritmo frenético. Era fantástico poder ganhar a vida com o teatro da rua.
Levei um susto quando vi em uma banca a minha foto embaixo da manchete:
Homem morre quando se preparava para o suicídio.
***
Sou Kacki Aléssio. Matei Zenaide de Tal. Depois sonhei que caminhava pelo telhado sem fim de uma catedral. Minha cabeça é um labirinto escuro. Às vezes, há raios que iluminam alguns corredores. Em outros momentos o luar atravessa as nuvens negras. Sente-se o calor estático e ameaçador que precede as violentas tempestades de verão. A tormenta vive sobre mim rasgada por relâmpagos e trovões. E eu me vejo numa cidadezinha do Sul e era como se eu e Zenaide vivêssemos em corredores ou túneis paralelos, sem saber que íamos um ao lado do outro.
Deixemos de lado as considerações de forma, o que me interessa é o conteúdo.
Direi, antes de mais nada, que o amor anônimo que alimentara durante anos de solidão se concentrara em Zenaide. Ela fora o último barco que podia me resgatar de minha ilha deserta, mas passou ao largo sem avistar meus sinais de desamparo.
_ O que você vai fazer?
_ tenho que matar você, Zenaide. Você me deixou sozinho.
… em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu.
***
Como o coronel de Passo do Sertão aguardo notícias que nunca chegarão. Distraio-me observando aos outros e assim vivo sem originalidade, resignando-me a uma poesia ocasional; equilibrando-me, sem sombrinha, no arame da minha vida perante um público indiferente. Estou num desses momentos em que tudo se torna obsoleto, uma espécie de extrema-unção antecipada.
Entre perífrases e hipérboles invento angústias e personagens. Não é o melhor dos mundos, mas é melhor que ficar preso num intelecto de dois cômodos. Há travessias que só se podem efetuar sozinho. Se calhar, isto é a vida. Mas não penso em ti. Palavra de honra que não penso em ti.
***
Este mundo se divide em moscas e aranhas. Tratemos de ser aranhas que comem as moscas enquanto na surpresa final do conto o demônio toca violino para os condenados. Como sempre ocorre, nos encontramos atores e espectadores, no meio da tragédia, atordoados como morcegos batendo contra paredes.
*Trechos do livro Figueira Torta(inédito) no capítulo de plágios, sobre livros e autores diversos
José Claisson Aléssio
Em uma fantasia de uma noite escura e de vendaval cheguei à vida
Desabou sobre mim um forte vento, como se sobre minha alma houvesse bruxaria
Minhas horas de infância não foram assim como a dos outros
E tudo que eu amei, eu amei sozinho.
A lembrança que guardo dela é a de uma ilha distante em algum mar agitado
Cidades desabitadas de um deserto, também!
O que viram em meus olhos, porque me largaram à deriva? E triste fui-me embora.
Em menos de um dia muitos anos abandonei sentindo derreter a minha vida.
Tudo o que vejo ou suponho, não passa de um pesadelo dentro de um sonho?
De uma angústia repentina me cerquei
Como aquela que vem quando o primeiro sonho fica perdido
Nesses casos, o céu esperança não ousa oferecer.
Minha vida ordinária repousa hora a hora diante de mim
E o que me importa resta insólito, um retrato feito após a morte
Não durará muito minha queda
Não me resta nem tempo para enlouquecer.
Chego a meu lar, não mais meu lar, ninguém a espreitar meu momento singular
Memórias amargas do passado nessas inquietas sombras em que caminho
Ouço uma voz(deliro?) que da soleira proclama: Ancião, de tolo não te chamaria.
Visita numa hora dessas? (eu me disse!)
Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais
é só isto e nada mais
Abri então a porta, e eis que, entrou grave e nobre um corvo
Não fez nenhum cumprimento, mas com ar solene e lento, pousou e nada mais
Perguntei-lhe: Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais, diz-me qual teu nome
Disse o corvo, "Nunca mais"
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro
inda que pouco sentido tivessem palavras tais
Perdido, murmurei lento, todos já se foram amanhã também te vais
Disse o corvo"Nunca mais"
Sentei-me defronte dele, fez-se então o ar mais denso
Ave preta! Fosse o diabo ou a tempestade quem te trouxe aos meus umbrais
A este degredo, a esta noite, dize se há um bálsamo para esta alma a quem atrais
Disse o corvo"Nunca mais"
Eu disse: Parte! Torna à noite e a tempestade! Torna às trevas infernais!
E o corvo não move-se de meus umbrais
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais
E a minha alma dessa sombra libertar-se-a nunca mais.
Na noite em que eu me matei não houve nada de mais.
Versão compacta de O Corvo de Edgar Allan Poe a partir de uma tradução de Fernando Pessoa
Texto criado com frases tiradas do livro
José Claisson Aléssio
O autor deste erudito livro foi sempre ambiciosa pena. Depois de ter viajado com as minhas letras pelo interior do meu quarto, resolvi imortalizar-me ao torná-las públicas ao mundo neste ano da graça de 1893. Estas minhas letras pretendem ser uma obra-prima de pensamentos novos, uma obra digna do século. Estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro. Não concebem um escritor elegante, cheio de graça e de talento? Esse cara sou eu. Não chamem de exagero ao que vai escrito aqui. Eu darei sempre o primeiro lugar à modéstia. O que poderá haver é desacerto nas palavras. Sem perder a minha natureza de planta estrangeira quero contar-te a minha história: verás nela o que vale um homem. É a ti que escrevo.
Uma velha brízida que eu tive, quando era pequeno, era famosa cronista de histórias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Para tudo é preciso ter fé neste mundo, é preciso crer em alguma coisa para ser grande. O falso Deus adora o verdadeiro! Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com elas. A mim, pobre homem, o que lhe fica para crer? Eu, apesar dos críticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.
Falemos noutra coisa: fujamos depressa deste monturo. Acha-se desapontado o leitor com a prosaica sinceridade destas letras? Digo-lhe que o entusiasmo da multidão é sempre vazio. Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. É a literatura que é uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances, fé nos artigos de jornal. Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico? A minha opinião sincera é que o leitor deve saltar estas folhas.
O coração humano é como o estômago de todos os bichos, não pode estar vazio, precisa sempre de alimento. Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós somos. Todo drama e todo romance precisa de: uma ou duas damas; um pai; dois ou três filhos; um amigo; um monstro encarregado de fazer maldades; alguns tratantes; e várias pessoas da sociedade que servem apenas para aumentar o número de páginas. Forma-se com elas os grupos e situações que lhe parece, não importa que sejam mais ou menos disparatados. E aqui está como nós fazemos nossa literatura original.
O erudito e amável leitor escapará desta vez deste enredo. Não senhor, não é o meu gênero esse. Ora, eu filósofo seguramente não sou, já o disse, de poeta tenho o meu pouco. E sei que não me enganam poesias. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como as que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências.
Ó nação de bárbaros. Ó maldito povo de iconoclastas que é este. Ó gente cega a quem Deus quer perder.
E aonde irei eu? Ao inferno? Este capítulo não terá divagações, nem reflexões. Nem tampouco será feio como o pecado, elegante como o bugio. Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores deste mundo.
O homem é o animal mais absurdo, e mais disparatado e incongruente que habita a terra. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?
Dorme pois, e não despertes do belo ideal da tua lógica. Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando não sei explicar os fenômenos por outro modo. Porém, não há alma, não há gênio, não há espírito nas massas simplórias e sem elegância.
Por que será que aqui não sinto senão tristezas? Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam. Admirável condição da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe.
Lutam no ser de cada um o Sancho Pança da carne com o Dom Quixote do espírito. Quantas almas é preciso dar ao diabo? Não tenho esperanças de saber nada disso aqui. Só o eco morto da solidão responde tristemente às minhas perguntas. Sim, aqui tenho estado estendido no chão. E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Notável combinação do acaso! Infeliz do que chegou a esse estado!
Trata-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu diante de si, o que não a invocou ainda como único remédio de seu mal, ou, o que mais desesperado, como única saída de suas fatais perplexidades. E acabou a história.
Nota do editor: A seguir algumas frases soltas que não consegui encaixar no resumo :
Quem tem uma ideia fixa em tudo a mete.
Não foi porém senão um relâmpago.
A modéstia contudo quando é excessiva...
Não quero perder esta última ilusão, já não tenho outra.
Vês que confesso a dúvida, verás como a paguei.
Versão compacta de Viagens na minha terra de Almeida Garret
Texto criado com frases tiradas do livro.
José Claisson Aléssio
Durante muito tempo, com descuido e com fabulações, recusou-se a se considerar adulto. Mal começava a se habituar a sua condição de adulto e já era lançado à de velho. E eis que o seu ciclo se fechava; nem o passado nem o futuro lhe ofereciam mais um álibi.
Era um sexagenário que não havia realizado nada. As pessoas consideravam-no inteligente, mas com o passar dos anos acostumaram-se a não esperar nada dele; um desperdício, em suma. Os pontos obscuros, as dificuldades e as contradições se multiplicavam ao seu redor.
Olhou a estante: havia lido quase todos os livros que comprara durante toda a vida; mas do que ainda se lembrava? Desde quando suas palavras se embaralhavam, seus gestos se atrapalhavam? Algo travou em sua mente. Como quando se leva um choque, turvando a vista, que faz perceber duas imagens do mundo, a duas alturas diferentes, sem poder situar o que está em cima e o que está embaixo.
As duas imagens que ele tem de sua vida, do passado, do presente, não se ajustam. Há um erro em algum lugar. Condenado a ter consciência da inutilidade de sua presença, a angústia de existir se tornou mais intolerável que a morte. Refletia sobre ela com indiferença; continuar vivendo lhe parecia mais árduo que morrer.
Versão compacta de Mal-entendido em Moscou de Simone de Beauvoir
José Claisson Aléssio
Ali Kacki carrega o fardo de representar os párias, os vencidos, pessoas errantes que estiveram em muitos lugares apontando-lhe o fracasso das ilusões. Pessoas que comportam-se como os falsos profetas que, buscam adivinhar o mundo, mas são incapazes de entender suas próprias vidas.
Ali Kacki sujeita-se ao jogo ilusório do enredo como se o medo ao acorrentar-lhe os pés, lhe roubasse o gosto de caminhar pela vida. Afinal, onde mais lhe resta ir sem a sensação de já haver ali estado anteriormente? Chega ao epílogo levando dentro de si o cadáver de um homem semelhante a ele quando jovem. Para onde partir, largando atrás seus restos mortais? Sua tentativa de salvação consiste em engendrar pausas, intervalos, em defesa de sua história; a interminável caminhada do solitário herói.
Como ser herói do próprio terror? Sobretudo agora, quando o ocaso o introduz lentamente no ritual da própria morte. Ali Kacki avança levado pela fantasia de um dia voltar a partir e esquecer o caminho de volta. Para a sua natureza a religião não constitui vocação. Não vive na esfera da fé. À frente de sua caravana, jamais aceitou ser o cordeiro resignado no altar do sacrifício.
Versão compacta de Vozes do Deserto de Nélida Pinõn
José Claisson Aléssio
Já não preciso de contar histórias. Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.
Agora o futuro não existe. Passei anos, no dia do meu aniversário a espera de um telefonema que sabia que não viria, aguardando a festa surpresa que nunca me fizeram.
Tornei-me à força do silêncio dos que amei um carneiro sonso, batendo a uma porta onde já não mora ninguém.
De repente, vocês são apenas fotografias ao lado da minha cama. Há um cão a uivar na noite. Sou eu este cão.
Queria sentar-me ao lado de vocês, numa varanda, ou à sombra de uma figueira, e escrever um romance que todos pudessem admirar.
Não pude ser o que sonharam de mim. O que talvez não saibam é que também nunca me perdoei a mim mesmo.
Por que há tantos corredores, e tão escuros, nos sonhos?
Não consigo descrever a falta que me fazem.
Versão compacta de FAZES-ME FALTA de Inês Pedrosa
José Claisson Aléssio
Era uma peculiaridade, a de nunca ser especialmente íntimo de ninguém. À medida que os anos foram passando, as incursões ao mundo exterior praticamente cessaram, não tinha mais nenhum graveto a queimar; recolheu as velas e deitou âncoras.
A vida continua do lado de fora da janela, a vida continua do outro lado da cerca. Justamente ali, onde naquele exato instante o rapaz de sempre senta-se num banco da praça abraçando a moça de sempre.
Homens e mulheres parecem ter encolhido, tornaram-se numerosos e diminutos ao invés de únicos e substanciais. Parecem numerosos demais, insignificantes demais, muito semelhantes entre si para terem um nome, uma personalidade e uma vida só sua.
Versão compacta de Cenas Londrinas de Virgínia Woolf
José Claisson Aléssio
Um dia em que tive um grande desgosto, deitei-me para dormir sem saber como seria a minha vida para diante. Quando acordei, olhei-me ao espelho e vi, espantado, que duas grandes rugas me tinham nascido nessa noite, junto aos olhos.
Não estavam lá antes de eu me ter deitado na véspera, mas agora estavam, nítidas e verdadeiras. E habituei-me às rugas, conformei-me com o tempo que passa. Às vezes, lá onde eu moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso.
E às vezes, nesse terraço onde vejo e oiço as estrelas, onde escuto e aceito a ampulheta da minha vida, acendo um lume, com os galhos e ramos secos que fui colhendo durante o dia, ao passear pela paisagem.
E, às vezes também, quando então percebo que tudo está em paz e faz sentido, falo com a tua estrela, sei que tu me guardas e vigias, que perdoas todos estes anos de silêncio e irreparáveis ausências.
Versão compacta de No teu deserto de Miguel Souza Tavares
José Claisson Aléssio
Se fosse Deus, eliminaria a imaginação das pessoas e, talvez, todos pudessem ter uma vida menos mórbida. Não se pode manter um diabo preso no jirau e achar que isso vai sair barato. Se você vende sua alma, não pode esperar comprá-la de volta por preço baixo.
A cilada das histórias perdidas! O exílio é um país sem alma. O lar afasta-se do filho pródigo relegado ao limbo reservado aos favoritos caídos em desgraça. As cartas acabam parando de chegar. As cartas não vem mais.
Se a vida fosse uma artéria, ele seria o maldito entupimento. Ele sabe de que são feitos os fantasmas.
De coisas inacabadas é que eles são feitos. Quanto mais perto do ilusionista, mais fácil descobrir o truque. Ele é o mágico e a história seu truque. Não; a história não: algo mais estranho.
Cresceu acreditando em Deus, anjos e demônios com tanta certeza quanto teria se esses seres fossem bois no pasto. Achava que era uma falha de sua natureza nunca ter visto um fantasma. Foi quando teve a ideia que destruiu sua fé: que tipo de ideia é você? Aquilo em que você acredita depende daquilo que você vê, não só daquilo que é visível, mas daquilo que você está preparado para encarar.
Desde o começo, os homens usaram Deus para justificar o injustificável e, assim, foram capazes de fazer a caça pensar que era o caçador. Esta foi sua ideia! O oposto da fé não é a descrença; ela própria uma espécie de crença, o oposto da fé é a dúvida.
Então alguma coisa aconteceu, alguma coisa misteriosa e definitiva que o desprendeu do tempo e o levou à deriva por uma inexplorada região de lembranças.
A cena inesperada o empurra para o centro do palco sem conhecer o roteiro nem ter decorado sua fala e no teatro lotado todos vaiam o seu silêncio e a cortina não fecha nunca.
Depois que você atravessa o espelho, a volta é por sua conta e risco. O espelho pode cortá-lo em tiras.
As coisas que a memória das pessoas regurgita! Não existe derrota maior a um homem do que descobrir que acreditava num fantasma. Demônios demais dentro de pessoas que precisam acreditar em Deus.
Versão compacta de Versos Satânicos de Salman Rushdie
José Claisson Aléssio
Foi em plena cidade que dei com ele, sentado num banco. Está naquele instante em que se vaga no fundo de um mundo sem bordas, em que a luz não varia e os destroços não chegam às margens.
Não há nenhuma dúvida. Sim, sou eu mesmo!
É melhor adotar a explicação mais simples, mesmo que seja pouco, mesmo que não explique grande coisa. Não responderei mais perguntas. Tentarei também não fazê-las mais. A vida não tolera o excesso de circunstância. É aí que espreita o maligno, como na prega da próstata o gonococo.
Vou me contar histórias, se puder. Não será mais o tipo de histórias de antigamente, sou pouco inclinado à nostalgia.
Sinto acumular-se aquele escuro, acomodar-se aquela solidão, nos quais me reconheço. O silêncio de fato, às vezes, é tal que a terra parece desabitada.
Há uma espécie de noite aqui comigo, noites de trezentas horas; o escuro invencível. Não é uma questão de pálpebras, é como se a alma se devesse cegar, esta alma que em vão se nega, penetrante, espreitadora, inquieta, girando na sua janela como numa lanterna na noite sem portos nem barcos, nem matéria nem entendimento.
As ideias se parecem tanto quando as conhecemos; tantos arcos e nenhuma flecha. Aliás, pouco importa se estou morto ou simplesmente morrendo, sem saber qual deva ser a minha prece, nem para quem.
Há coelhos que morrem antes de os matarem, de simples pavor. Não vou entrar em detalhes. Uma pequena sombra, em si ali na hora, não é nada. Mas conheço as sombras, elas se acumulam, se tornam mais densas, depois afogam tudo. O que se vê, o que grita e se agita, são os restos.
Mas tudo isso está fora de questão, como tantas coisas. Tudo é pretexto. Pretexto para não chegar ao ponto. Há momentos em que tenho a sensação de estar aqui desde sempre. Ou de ter voltado para cá depois de uma longa ausência. E entretanto escrevo sobre mim, com o mesmo lápis, no mesmo caderno que sobre ele. É que não sou mais eu, já devo ter dito, mas um outro cuja vida apenas termina.
Pois então, vai ser uma espécie de inventário, não de coisas; mas de ideias. Nada de discutir ninharias. Vou contar-lhes o que considero fundamental. Considero-o como se tivesse sido punido por seus próprios méritos. Pois ninguém nunca veio em seu auxílio, para ajudá-lo a evitar os espinhos e armadilhas que se alastram na vida e nunca dispôs senão de suas próprias forças e meios para ir da manhã à noite da sua existência.
Me pergunto se não é ainda de mim que se trata. Aí está de fato o tipo de história que tenho contado a mim a vida inteira. Mas digo tantas coisas a mim mesmo, o que há de verdade nesse blá-blá-blá?
Conheço essas frasezinhas que não parecem de nada e que uma vez admitidas, podem empestar toda uma vida. Saem do abismo e não param até arrastarem você para lá. Mas desta vez saberei me defender delas. Daremos as costas a essa nuvenzinha, mas ficaremos de olho nela. Ela não vai cobrir o céu à nossa revelia.
A definição talvez seja ruim, mas sem ir tão longe, quem esperou bastante vai esperar sempre, e passado um certo prazo nada mais pode acontecer, nem ninguém vir, nem haver outra coisa que não a espera sabendo-se vã. E sem saber exatamente qual o pecado sente-se muito bem que viver não é pena suficiente.
Versão compacta de Malone Morre de Samuel Beckett
José Claisson Aléssio
Naturalmente, um tolo, com seu pavor habitual, estará sempre a poucos passos da salvação. Deixemos o tolo embasbacar-se e estremecer. Ele encontrará a verdade com a sua própria verdade e nunca se verá preso num círculo. São as pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer a sua capacidade de ser fiel a si próprio. Na verdade, o que importa o preço, se o truque é bem feito?
Tenho a impressão de que estou tentando contar um sonho; uma tentativa vã. O sonho: Algum caso de loucura na família? indagou com tom trivial e sorriu como de uma piada discreta. Os jurados, seria um julgamento? pareciam ter saído de algum canto sombrio de algum inferno. A minha sensação era de opressivo assombro, como se houvesse sido roubado de uma crença ou perdido o rumo na vida.
Um deles, que parecia o presidente do júri, começou "toda conquista não é coisa bonita quando você olha demais para ela. Quando pequeno, Kacki (este devia ser eu, pois apontou para mim) tinha paixão por mapas. Ao crescer, sempre seguiu sua própria estrada, andando com as próprias pernas.
Na verdade, uma estrada deserta, estreita, sinuosa. Na caminhada começou a sentir um certo desconforto. Parecia saber tudo sobre todos e pouco de si mesmo. Seja quem for, não é uma pessoa comum. Difícil conceber como sobreviveu, como pode chegar tão longe, como conseguiu permanecer ali. Acho que o conhecimento chegou a ele somente agora. Penso que lhe murmurou coisas a respeito dele próprio que ele não sabia, coisas que ele não tinha ideia".
Senti que estava me tornando filosoficamente interessante. Eu não podia imaginar o que havia em mim que pudesse valer tamanha atenção. Ao chamarem os comerciais (sim, agora parecia que o "julgamento", ou o que fosse, fazia parte de algum espetáculo), entrou a vinheta do bloco seguinte: " Desde o início não havia a menor esperança. Estava escrito que devia ser leal ao pesadelo que escolhera".
Versão compacta de O Coração das Trevas de Joseph Conrad
José Claisson Aléssio
Na ilha vivem os hóspedes de um manicômio abandonado. Por instantes sou o diretor, em outros seu único interno (não usarei o termo "louco"). Tento encontrar um modo de sair da ilha, mas encontro aquela resistência, como um peso, que nos impede de escapar durante os pesadelos. Quando consigo acordar estou, de fato, numa ilha; aparentemente sozinho. Os penhascos, o mar, parecem trêmulos. Ouço o mar com seu movimento de ruído e fadiga; a meu lado, como se tivesse vindo por-se a meu lado.
Minha vida teve momentos em que os heróis reconheceriam o medo. Acho que agora mesmo não estariam tranquilos. Por frestas de pensamentos, tive saudade de antes, de quando estava sem esperanças. Mas o que mais me apavora é a sensação de estar num lugar encantado e a confusa revelação de que a magia aparece aos incrédulos, para se vingar.
Agora a realidade se me apresenta alterada, irreal. Como um impostor que tivesse levado a farsa longe demais pensava ter feito a seguinte descoberta: minha vocação é o pranto e o suicídio. Considero que esse pensamento é um vício: se o escrevo, é para fixar seus limites, para ver que não tem encanto, para abandoná-lo. Talvez minha ideia, uma vez escrita, perca a força.
Tudo o que tenho escrito - com esperanças ou com temor, de brincadeira ou à sério - me mortifica. Penso que minha presença neste mundo aborrece a todos, como uma piada que já teve certa graça e que alguém teima em repetir. Tratarei de que não se repita. Estar morto! Resta este caminho.
Ou, então, seguir a tradição dos solitários, dar-se por morto para não morrer.
Versão compacta de A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares
José Claisson Aléssio
A todos a vida dá tudo, mas a maioria ignora. Os místicos invocam uma verdade, uma luz, um amanhã. Dessas metáforas nenhuma me serve. No curso do tempo fui muitos, a ruína não me magoa. Eu previra o fracasso e ele entrara à cavalo no cômodo das minhas possibilidades.
Quando o homem amadurece, está pronto para se defrontar consigo mesmo. Se escreve para distrair-se ou joga um xadrez solitário, quando quer se mata. Dono de sua vida, o homem também o é de sua morte.
Esqueci de anotar os nomes dos livros de onde psicografei estes excertos. Os autores são Saramago e Borges, o primeiro português e o segundo argentino. É claro que vocês sabem disso, né? E fica o desafio: a que livros pertencem as frases soltam que foram juntadas para formar este pequeno texto?
José Claisson Aléssio
" Escritor ganha elogios em seu livro de estreia aos cinquenta e quatro anos”.Soaria patético “estrear” nesta idade. Mas o senhor ainda é jovem, disse o caçador de inéditos quando ganhei o concurso de contos do “escritores anônimos”. Ainda. Quantos anos me restam de ainda? Ainda significa: está acabando.
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido; estrangeiro aqui como em toda parte já me vejo na estação; até aqui simples metáfora. Serei sempre o que não nasceu para isso. Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Cadê minha família abstrata e impossível?
José Claisson Aléssio
Sabe o diabo o que o hábito pode fazer com uma pessoa. Exagero tudo e é aí que eu me complico. Ou herói ou lixo, não há meio termo para mim. Foi isso que me arruinou, pois, no lixo eu me consolava por ter sido herói em outra época. Embora a vida resulte, amiúde, em porcaria, mesmo assim é vida, e não apenas extração de raiz quadrada. Ela não cabe, portanto, em fórmulas simples e sistemas prontos.
Assim, o que se pode esperar de um homem, essa criatura dotada de qualidades tão estranhas?
O homem adora criar e abrir estradas, e não só no sentido literal.
Suponhamos que o homem sacrifique a vida em busca da verdade, mas meu Deus, como ele teme encontrá-la.
No que tange à minha opinião pessoal, gostar só da prosperidade chega a ser indecoroso. Aniquilem meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me algo melhor e os seguirei. Não me envergonho da minha pobreza. Pelo contrário, encaro-a com orgulho. Um romance, filme, ou novela, precisa de heróis; trago em mim deliberadamente reunidos todos os traços do anti-herói. Por causa deles, muitos dos meus pecados serão perdoados.
Juro-lhes que ser consciente demais é uma doença. Por mais que rumine, sou sempre o primeiro entre os culpados e, ainda mais, culpado sem culpa. Em primeiro lugar, sou culpado por ser o mais inteligente entre todos que me rodeiam. Porém, é muito melhor compreender tudo, reconhecer tudo, todas as impossibilidades e muros de pedra.
Claro que minhas piadas são de mau gosto, irregulares, atabalhoadas, sem confiança. Mas isso é por que não tenho respeito por mim mesmo. Por acaso uma pessoa consciente pode ter algum respeito por si mesma?
Vivo no meu canto, provocando-me com o consolo raivoso e sem serventia nenhuma de que um homem inteligente não pode se tornar nada a sério, e que só o estúpido vira alguma coisa. É possível que eu só me considere uma pessoa inteligente por, durante a vida inteira, não ter conseguido nem começar, nem terminar nada. Mas o que fazer, se o destino patente e único de todo homem inteligente é a transferência intencional do deserto para o vazio?
Ao terminar os estudos mudei de cidade e obviamente não mantive amizades. Além da leitura, não havia para onde ir, ou seja, não havia nada ao meu redor que eu pudesse admirar e que me atraísse. Já então eu trazia o subsolo na alma. Outra circunstância ainda me atormentava: justamente que ninguém parecia comigo, e eu não me parecia com ninguém. Sou sozinho e eles são todos; pensava.
Tinha um medo doentio de ser ridículo. Eu me acostumava a tudo, ou seja, não exatamente acostumava, mas como que concordava de bom grado a suportar. Desejava tranquilidade, desejava ficar sozinho no subsolo. Do que tinha vergonha? Não sei, mas tinha vergonha. Como se levasse algum crime na alma. E para que me deixassem só, seria capaz de vender o mundo todo por um copeque.
Versão compacta de Memórias do Subsolo de Fiódor Dostoiévski
José Claisson Aléssio
Assim como tenho certeza que respiro, sei que a consciência do certo e do errado de uma ação é frequentemente a única força incontestável que nos impele para a sua realização; e nos impele isoladamente, sem que nada mais o faça.
Podemos observar, entretanto, que existe uma certa classe de pessoas que se comprazem na dúvida, como se fosse uma profissão.
Temem o conflito que está sendo travado dentro delas, com o combate entre o definido e o indefinido, a batalha da substância com a sombra. Porém se a luta chegou a este ponto, lutam em vão, porque a sombra triunfará.
Foram os homens que ordenaram a Deus que tivesse propósitos; tendo decifrado para sua própria satisfação as intenções de Jeová, construíram seus inumeráveis sistemas psicológicos.
Assim fez-se o homem e deste barro foi feito Deus.
Se não tivesse sido tão prolixo, talvez você me tivesse entendido completamente errado, ou, como a ralé, poderia achar que sou louco. No entanto, a convicção de que estou certo é tanta que, mesmo sabendo que morrerei amanhã, aposto a minha cabeça com o diabo!
Versão compacta de Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias de Edgar Allan Poe
José Claisson Aléssio
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A pessoa no espelho, na parede do bar, faz uma careta e desconcertado percebo como a vida é absurda, risível, simplesmente risível. Noto que me olham de modo curioso, como se houvesse algo engraçado em mim: ou como se esperassem que eu fizesse algo fora do tom. A respiração sobe e desce no meu peito como duas asas batendo; saio do bar e cambaleio na calçada como um passarinho caído do ninho.
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Havia momentos nos quais Kacki se atirava numa batalha onde não havia batalha. Estava num desses momentos. Como se saísse da água em busca da isca, havia se perdido em alguma de suas tangentes. Irrompeu no apartamento como se tivesse descoberto uma passagem na parede. Pendurou seu casaco e a calça no gancho da porta como um enforcado, ele próprio parecia um personagem de histórias em quadrinhos.
Apanhou um livro, o seu falso eu ficou de pé ao seu lado, apoiou-se em seus ombros de propósito."Sonhar com besouros pretos, perto de um carro funerário significa má sorte. Sonhar com aranhas rastejando sobre você é bom, significa que ficarás rico." Bebia café e largou a xícara como se tivesse sido alvejado por um tiro: _ vou escrever um livro que simplesmente surpreenderá os críticos.
Vou escrever sobre assuntos que nunca foram tratados antes. Vou fazer meu nome como escritor abordando o mundo submerso. Mas não como os outros fizeram antes de mim. Depois vou adaptá-lo ao teatro. Será uma peça em um ato. Um personagem decide se matar. Dá todas as razões por que deve fazer isso e por que não deve fazer: cai o pano.
Versão compacta de Contos Escolhidos de Katherine Mansfield
José Claisson Aléssio
Do fim daquele verão, lembro-me como de um pesadelo. As casas pareciam estranhamente profundas, silenciosas e fechadas sobre seus moradores. Parecia que meu coração havia parado de bater. Kacki partiu, deixou aquela casa e aquele verão.
Kacki nos oferecera o presente suntuoso de nos deixar uma enorme chance de acreditar num acidente. Este presente que seríamos fracos o bastante para aceitar.
Depois de algum tempo, pudemos falar sobre ele num tom normal, como um ser querido com quem convivemos por alguns anos, mas que Deus chamara a si.
Escrevo Deus, mas não acreditávamos em Deus. Já era uma dádiva naquelas circunstâncias acreditar em acidente.
Versão bem compacta de Bom dia tristeza de Françoise Sagan